Meia Maratona de Ovar – As 3 fases da vida num recorde pessoal?!

Meia Maratona Cidade de Ovar 2019 - Vida de Maratonista

Há recordes pessoais e recordes pessoais. Embora quase todos eles tenham dois pontos em comum (o sofrimento na parte final e a alegria após a linha de meta), as diferenças que marcam estas aventuras podem ser muitas. Foi o caso do meu último, registado na 31ª Meia Maratona de Ovar, que teve todos os ingredientes e mais alguns possíveis de imaginar numa só prova. 21 quilómetros e 97 metros de distância foram de facto curtos para uma aventura onde comecei adolescente, tornei-me veterano, e acabei precisamente num adulto de 28 anos.

 

A partida

A minha partida nesta 31ª edição da Meia-Maratona de Ovar foi bastante tranquila devido ao privilégio de ter dorsal VIP. Após o tiro, os dois quilómetros iniciais foram mais do que suficientes para colocar todos os sistemas do corpo a funcionar nos níveis adequados e para estabilizar a minha posição no grupo de atletas que considerava certo para mim.

 

A irreverência

Contudo, pouco depois, uma boa dose de irreverência e de boas sensações levaram-me mais para a frente. Acabei por me juntar a um lote curto de atletas que não se aguentou muito tempo. Enquanto uns participavam na prova dos 10kms e fizeram o retorno pouco depois, outros foram ficando para trás.

Resumindo, ainda antes do quilómetro 7, estava eu em “terra de ninguém” e a pergunta que fazia era: acelero para chegar ao grupo da frente, ou espero pelo pelotão que está mesmo atrás de mim? Ambas as escolhas eram um risco. A primeira porque podia pagar a fatura desse esforço mais à frente. A segunda porque ser alcançado por um grupo que tinha deixado para trás ia moer-me psicologicamente. Porém, como ainda estava numa fase de irreverência e de maior inconsciência, fui alcançado e não pensei muito sobre as consequências que isso podia ter. Até porque ainda tinha algumas boas sensações, que se viriam a perder pouco depois.

 

A passagem pelo Furadouro

A passagem pelo Furadouro não teve tantos apoiantes como habitual, provavelmente devido à chuva e vento que se instalaram na noite anterior e se prolongaram até ao início daquela manhã. Àquela hora, a chuva tinha cessado, mas o meu grande inimigo mantinha-se no ativo e cheio de pujança. De facto, se houve local onde deu para perceber isso, esse lugar foi precisamente no Furadouro. A força era tanta que me baralhou as linhas de pensamento. Os meus comportamentos iam começar a mudar.

 

Sensações e trunfos na manga

Segui mais alguns quilómetros naquele grupo, no qual estava também o meu amigo e companheiro de clube, Hélder Pires. Contudo, à passagem dos 10 quilómetros de prova, as sensações do corpo já não eram tão boas. Mas fui seguindo, aproveitando também o abastecimento naquela altura para tomar o gel que tinha no bolso. Minutos depois, o desconforto mantinha-se. A prever dificuldades mais à frente, não foi no bolso, mas na manga que encontrei dois trunfos para jogar.

O primeiro foi trocar algumas palavras com o Hélder. Ao fazê-lo sem grande dificuldade, estava a mostrar a mim mesmo que as sensações menos boas podiam ser enganadoras. O segundo foi dar mais voz à ideia de que as provas costumam ser reflexo dos treinos. Nesta minha jornada no rasto das pegadas de Arthur Lydiard, se há coisa que passo em treinos tão longos a ritmos constantes é precisamente um misto de sensações boas e más. Sendo estas últimas menos apreciáveis, a verdade é que não costumam afetar muito os ritmos, como se eu já fosse numa espécie de “piloto automático”.

Esta jogada dupla era já um sinal da experiência de uma “velha raposa” a tomar conta do espírito de um miúdo que se podia revelar frágil e choramingão logo à primeira dificuldade. A presença de algum público naquela zona e do cruzamento com os atletas que seguiam mais à frente também me ajudou a abstrair das sensações menos boas. Quando voltei a fazer um check up à máquina, metros antes de mais um retorno, percebi que já seguia um pouco mais confortável.

 

O percurso da prova

O trajeto desta edição foi diferente dos anos anteriores. A meu ver, para melhor. No entanto, cá confesso que nunca me senti muito orientado nas ruas de Ovar, embora naquela altura soubesse que a ondulação que tinha pela frente era precisamente a inversa à dos últimos quilómetros percorridos.

As boas sensações intensificaram-se e eu, animado também por começar a alcançar atletas que estavam em quebra, ganhei novo avanço ao meu grupo que entretanto também se desfazia. Os elementos começavam a dispersar, o que não é de todo anormal no último terço de uma prova.

 

União de lebres

Ganhei mais algumas posições, mas havia alguém que seguia poucos metros atrás de mim. E eu tinha conhecimento disso, não por olhar para trás, mas porque as pessoas puxavam por ele. Quem havia de ser? O meu amigo Hélder Pires. Consciente que estávamos os dois a queimar energias preciosas por causa de uma diferença de metros, a experiência mandou-me ter cautela e eu assim procedi. Abrandei ligeiramente, o Hélder colou, e seguimos os dois. Seis quilómetros é muita estrada e as boas sensações podiam desaparecer tão depressa quanto voltaram.

 

Uma prova que não era objetivo

De realçar que esta não era uma prova objetivo. Porém, os treinos que fiz nos últimos tempos deram-me confiança e permitiram-me acreditar que podia alcançar o meu recorde pessoal. Ao mesmo tempo, o vento que se fazia sentir ameaçava comprometer seriamente essa possibilidade. Com um registo muito equilibrado até este momento da corrida, o último terço prometia ter mais vento, de maneira que já não acreditava muito no RP.

 

Más sensações e veteranice

Num sítio próximo da placa dos 16 quilómetros, entrava em marcha mais uma transição de sensações, desta feita de regresso às más. Eu que me tinha sentido bem e até puxado pelo Hélder até ali, começava agora a ter dificuldades em segui-lo, após termos ganho mais algumas posições na classificação. Pouco depois, o Hélder colava no Ricardo Santos, do Recreio Desportivo de Águeda, que também viria a ser protagonista nesta história.

Quanto a mim, acabava de vacilar e um registo inferior a 75 minutos ameaçava esfumar-se de vez. Que motivações tinha para lutar? O facto de no pós-prova não poder apontar o dedo a mim mesmo por não ter dado o meu melhor em todos os quilómetros?! Todavia, esta é uma resposta intrínseca. Não a encontrei com esta frontalidade naquela manhã, mas vinha ao de cima a mentalidade de um veterano de guerra (que nunca pode ser dado como morto!) e a resistência de muitos treinos longos nas pernas desde agosto.

O Hélder e o Ricardo tinham-me ganho cerca de 100 metros. Isto medido pelo meu olho de engenheiro, algo susceptível ao erro. Espaço esse que mais à frente comecei a encurtar, meramente por capacidade física. Seria desonesto dizer que foi o orgulho ou a vontade de querer ser mais forte do que eles que me levou lá para formarmos um trio.

 

Um adulto medeia a crença e o entusiasmo!

Quando cheguei à beira deles, o entusiasmo tomou conta de mim e armei-me em ciclista. Um daqueles que quando alcança um grupo tenta logo passar direto. Ou seja, um sinal claro que estava agora a desconsiderar a experiência e a voltar a ser irreverente. De qualquer forma, era uma ousadia mais controlada, até porque as forças já não permitiam grande coisa. Reforço que passei para a liderança do grupo durante uns metros. O problema é que pela frente tinha a subida que encerrava o quilómetro 19. Valeu o Ricardo Santos, que aí voltou a assumir o comando do mini-grupo e puxou até ao final daquela ascensão. Cada elemento continuava a lutar pelo melhor resultado possível, recorrendo às escassas energias que restavam no panorama do limite das forças. A foto de capa deste artigo, que conta connosco na reta da meta, evidencia parte do sofrimento que pautou o final desta aventura.

Ultrapassada a última grande dificuldade do dia, que antecipava a viragem para a longa reta da meta, olhei para o relógio enquanto recuperava um pouco da respiração. Com aquela “brincadeira” competitiva e o auxílio das árvores da região na proteção ao vento, o relógio apontava para uma média de 3:33/km. Precisamente o ritmo necessário para os 75 minutos de prova. O sofrimento era elevado, mas faltava pouco mais de uma milha até à meta, quase sempre em plano ou falso plano a descer. Tendo em conta este cenário, comecei a acreditar que ainda era possível, despoletando nova transformação.

 

O recorde pessoal do desespero

Acabava de me tornar um adulto com a dose de crença certa. Não um miúdo inocente e ingénuo que acredita em tudo o que lhe dizem, nem um veterano céptico que já não acredita em nada por consequência de tudo de mau que este mundo já lhe mostrou.

Simplesmente, um adulto. Suficientemente jovem para sonhar, experiente quanto baste para gerir as suas energias, e louco para deixar o desespero tomar conta de si. Porque foi precisamente isto que aconteceu. Acabamos os três separados por dois segundos de intervalo, sendo eu o primeiro a cortar a meta. Se pensasse que queria chegar primeiro que o Hélder e o Ricardo, talvez as posições não fossem estas. Porém, os alarmes soavam na minha cabeça pela oportunidade de poder quebrar finalmente a “maldição” dos 75 minutos à meia-maratona. Um incentivo não controlado que funcionou muito bem, acabando esta história com o final mais feliz possível, e acima de tudo muito preenchida de peripécias. A referência a “final mais feliz” não é inocente, pois na ausência de um RP ficaria triste por essa falha, mas contente por esta experiência competitiva e de camaradagem em simultâneo.

A desfrutar de tudo isto ainda por estes dias, a Meia Maratona de Ovar entra assim no meu livro dos recordes pela terceira vez na história 🙂

 

Créditos Foto de Capa: Alfredo Nata

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.