Reflexão sobre o Plano de Treinos 2018-2019

Estabelecer objetivos para 2018 - Atletismo

Estes últimos dias, que assinalaram a transição entre épocas desportivas, serviram não só para dar uma maior folga ao corpo e à cabeça, como para refletir sobre os últimos meses de competição. Nomeadamente, para avaliar as micro e macro decisões tomadas ao longo da temporada e os respetivos resultados alcançados. Ainda que a análise final deva ser feita de uma perspetiva mais holística, pois tudo tem influência, o plano de treinos tem um peso significativo nos resultados. Este artigo é exclusivamente sobre ele.

Não faz muito tempo que aqui falei na complexidade de elaborar um plano de treinos à boleia da experiência e de um processo de aprendizagem mais pessoal. Uma escolha onde ganhamos num de dois lados. Ou nos resultados, ou nas ilações obtidas durante a jornada. Não quero com isto dizer que quando temos sucesso não aprendamos nada. Não é isso! Simplesmente, quando falhamos nos resultados, dedicamos mais tempo à reflexão do caminho percorrido e das decisões tomadas. Existe uma maior necessidade de inverter o ciclo.

Por seu lado, quando tudo corre bem, a prioridade é continuar a pôr em prática o que está a dar resultado em vez de se “perder tempo” a fazer perguntas. Com toda a certeza, é mais triste chegar ao final de uma época e estar deste “lado académico”. Porém, a riqueza do conhecimento não deixa de ser interessante . Pelo menos aos meus olhos.

Todavia, desenganem-se aqueles que por estas minhas palavras deduzem que andei a correr grandes riscos com experiências malucas. Nem por isso. O meu “sair fora da caixa” é quase sempre “controlado”. Ao olhar para os últimos meses de trabalho, vejo sim um atleta que numa primeira fase subestimou a importância do trabalho base (endurance) e que no início de 2019 se deixou influenciar em demasiado por um mau resultado numa prova importante. Passo aos detalhes.

 

Desvalorização do treino de base

Neste último plano de treinos (que arrancou logo após a Maratona de Budapeste 2018), o total de quilómetros foi inferior ao do ano anterior. Um objetivo que eu estipulei e declarei neste espaço, por duas razões em particular:

  • Não ia correr nenhuma maratona em 2019
  • Queria apostar mais nos ritmos rápidos e na frequência dos treinos intensos

Desta forma, a primeira fase do mais recente plano teve menos quilómetros, mas a prioridade do treino aeróbico ativo manteve-se e trouxe novamente resultados. Isso confirmou-se no XVII G. P. de Atletismo da Vila da Palhaça, quando em cerca de 9600 metros consegui o meu melhor ritmo médio de sempre numa distância próxima de 10 KM (3:18/KM). No entanto, a minha grande preocupação era a Meia Maratona de Viana do Castelo em janeiro de 2019. Uma prova que mudou muita coisa.

 

Mudança radical por influência de um resultado

Aguardava com ansiedade a minha participação na XXI Meia Maratona de Viana do Castelo. Não só por ser uma prova que gosto muito e que já tinha saudades (estive ausente na edição de 2018), como esperava ali melhorar o meu recorde pessoal na distância. Infelizmente, nunca estive confortável na prova. Pouco depois do retorno passei um mau bocado, sendo mesmo forçado a meter a máquina em velocidade cruzeiro até terminar a prova com um registo longe do ambicionado. Um daqueles dias em que as pernas se recusaram a trabalhar a determinada altura, consequência de uma má gestão da minha parte nas semanas anteriores.

Este insucesso, tenho de admitir, mexeu bastante comigo, ao ponto de privilegiar a mudança em prol da continuidade da estratégia que tinha idealizado. Depois desta prova, mudei bastante o meu plano de trabalho. Se já não tinha feito uma base de endurance ativa tão boa quanto a do ano anterior, isso agravou-se com uma alteração radical. Descartei quase por completo este tipo de treino, preocupando-me com as séries curtas e pouco mais.

Que dizer perante isto? Antes de tudo, que a transição entre os tipos de treinos devia ter sido gradual. A exclusividade para com o treino intervalado devia ter ficado para estes últimos meses. Porém, dizer isto agora também é mais fácil do que na altura. Ao contrário de épocas anteriores, descartei a maratona e fiz apenas 2 meias na temporada findada. Uma escolha aliada à minha preocupação em trabalhar ritmos rápidos e com uma maior frequência. Com a maratona de outubro ainda nas pernas e alguns treinos longos no final do ano, reduzir o número de quilómetros não me parecia um problema, estava confiante que os que tinha seriam mais do que suficientes. Talvez até fossem, caso a carga dos treinos intensos tivesse sido mais reduzida.

 

Os longos ciclos competitivos

Mas as mudanças não se ficaram por aqui. Pouco depois desta mudança radical e irracional dos treinos específicos, juntei alguns ciclos competitivos que não “ajudaram à festa”. Para além da conciliação de treinos e provas já não ser muito aconselhável, pior fica quando não se abranda nos treinos.

Esta era uma lição que já devia ter aprendido na transição do ano civil. Uma altura em que enfrentei um ciclo de 7 semanas consecutivas de competição, com a Meia de Viana do Castelo a fazer parte da lista. Se por essa altura, cuja intensidade era menor, acusava desgaste com esta conciliação, porquê insistir nela quando a intensidade aumentou e o número de quilómetros semanais não se alterou?

Em suma, subestimei esta mistura explosiva de treinos e provas e paguei caro por isso. Primeiro em Viana, que era um grande objetivo e devia ter chegado lá mais fresco, depois nas competições que se seguiram. Estas últimas também já moídas pela componente psicológica (que não entra nas contas deste artigo) dos resultados menos conseguidos.

 

Conclusão

Resumindo, aos meus olhos, estes foram os grandes erros que cometi na última época. Isto não só deixou a minha evolução em hiato, como tirou a consistência que costumo ter nas provas ao longo da época. Tive muitas oscilações em termos de registos cronométricos e sensações, o que está longe de ser a minha imagem em termos de rendimento.

Entre estas ilações mais significativas, acumulei outras de menor dimensão ao longo da temporada, às quais posso juntar as novas experiências vividas. E depois de duas semanas a fazer a transição para a nova época, a partir de amanhã volta a ser a sério. Vistas as coisas de outro ângulo, a partir de amanhã surge a oportunidade de provar que aprendi estas lições e que sou capaz de resistir à tentação de mudar (quase) tudo quando falho um objetivo importante.

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.