Nascidos para Correr – Reflexão sobre o Capítulo 25

Nascidos para Correr - Reflexão sobre o Capítulo 25

Da autoria de Christopher McDougall, o livro “Born to Run” tornou-se rapidamente um fenómeno, não tendo sido por acaso que figurou durante algum tempo na lista de best-sellers do New York Times. De facto, esta popularidade terá estado na origem da sua tradução para a língua de Camões (“Nascidos para Correr”), pois não é qualquer livro estrangeiro ligado ao Atletismo que tem direito a tal oportunidade.

Classificado como “inspirador” e “destinado a tornar-se um clássico” por Sir Ranulph Fiennes, só na reta final de 2018 é que me debrucei a sério sobre esta obra, também já muito popular em Portugal. Aliás, nos próximos tempos, tenciono fazer um artigo mais geral sobre este livro para os interessados em saber mais sobre ele.

Antes disso, porém, tinha que escrever este artigo. Um texto exclusivamente inspirado no capítulo 25 do livro, no qual encontrei mais uma boa dose de lucidez sobre o chamado “barefoot” (correr descalço) e a importância do fortalecimento dos pés. Poderei até estar a viver uma ilusão. Não me preocupa, pois é disto que eu gosto! De me sentir iluminado pelo que estou a ler. De encontrar a lógica que me permite ligar de forma intuitiva vários pensamentos e ideias soltas acumuladas na minha mente.

Bora lá então, para mais um artigo-maratona dos meus, desta vez descalços!

 

A desconsideração pela base da estrutura humana

Se fosse a elaborar um conjunto de trends a partir de uma conversa sobre lesões ligadas à corrida, quer numa perspetiva de prevenção, quer numa de reabilitação, sem dúvida que vários elementos do corpo humano seriam muito mais candidatos a aparecer do que “pés”.

De facto, quando temos dores durante ou após a corrida, elas surgem com mais frequência noutras partes do corpo que não nos pés. Quase de forma natural, decidimos que a origem do problema está no sítio onde temos a dor, apontando também para essa zona as intervenções posteriores de prevenção e fortalecimento.

Com esta ideia tão impregnada no nosso subconsciente, raramente nos lembramos que são os pés que fazem a ligação entre o solo e o corpo. Que são eles os primeiros a receber o impacto desse contacto e a gerirem essa força que se faz sentir em toda a nossa estrutura por milhares de vezes em cada corrida.

Ora, assim como o sucesso da construção de uma casa depende muito da sua base e dos seus alicerces, também o boletim clínico do corpo humano de um corredor estará muito dependente da qualidade da sua base. Quero dizer, dos pés. Quanto mais fraca for a sua estrutura, maior a probabilidade da gente abanar mais cá para cima a cada passo dado.

Faz sentido? A mim, sim! Mais acrescento. Quando analisada ao detalhe, esta desconsideração constante pelos pés não só não faz sentido como, pessoalmente, até me faz sentir estúpido.

 

A adaptação do corpo humano

O capítulo 25 do livro “Nascidos para Correr” não incide apenas sobre os pés e o correr descalço. O dito cujo aborda também os diferentes níveis de proteção de cada sapatilha, o que eu cá considero o maior problema desta matéria. Porque não fortalecer os pés corresponde a não fazer nada. Por outro lado, submetê-los a um excesso desmesurado de proteção, como o que se verifica em alguns pares de sapatilhas, significa piorar a situação.

Já a nível pessoal, senti-me feliz ao ler boas coisas sobre as sapatilhas de sola rasa. Naturalmente, estas criam uma maior proximidade entre os pés e o solo e, em simultâneo, protegem-nos das superfícies mais duras como o asfalto e o paralelo. Elas são a minha primeira escolha para treino, mas acima de tudo para competição, por serem mais leves e também me fazerem sentir dessa maneira. Uma preferência que nunca teve em consideração o assunto em debate e que agora sai reforçada por ele.

Mas não só! Descobrir que Arthur Lydiard, um dos meus mentores, também era contra o calçado super protetor e que condicionasse o movimento natural do pé, também ajudou. No número 25, descobri estas suas palavras (traduzidas e adaptadas):

 

[blockquote align=”none” author=”Arthur Lydiard”]Sapatilhas que permitam aos pés funcionar como se corrêssemos descalços. Essas são as sapatilhas para mim.[/blockquote]

 

Isto faz-me lembrar a situação das crianças que quase são proibidas de ter contacto com o ar livre, ou porque está muito frio, ou muito sol, ou muito vento, ou muito calor, e que dessa forma os seus corpos se veem impedidos de ganharem defesas que podem ser importantes para o seu desenvolvimento e proteção no futuro. Ou as pessoas que, sem necessidade, constroem dependências com alguns medicamentos, transmitindo ao corpo a mensagem que já não tem de saber como se defender de determinado ataque, pois o comprimido diário estará lá para o proteger para sempre. Se um dia lhe falta, o corpo não saberá como se defender.

Não me canso de dizer. O corpo humano é fantástico a adaptar-se e a evoluir. Eu não sou capaz de correr uma maratona descalço. Em 1960, o etíope Abebe Bikila não só correu a Maratona Olímpica de Roma descalço como a venceu, com um registo fora do alcance da maioria dos maratonistas: 02h15min16seg.

 

Abebe Bikila - Maratona Olímpica Roma 1960

 

Um problema ligado à crise dos fundistas em Portugal?!

O capítulo 25 debate ainda a questão das sapatilhas deverem ser substituídas quando já tiverem cerca de 400-500 quilómetros de uso. Uma mensagem que hoje em dia muito se apregoa. Sobre isto, “Born To Run” defende que quanto maior o desgaste melhor, já que aproxima o contacto entre o pé e o solo. Um contacto que nunca é feito diretamente,

Ora, esta pequena referência levou-me a viajar no tempo e a fazer perguntas sobre a crise de meio-fundo e fundo que paira sobre o atletismo português. É certo que atletas de alguns países andam agora mais do que no passado. Todavia, não é isso que está na origem da nossa crise, mas o facto de agora andarmos menos que os nossos antepassados. Um problema que já deveria ter suscitado uma reflexão profunda e séria sobre todos os fatores que possam ter levado o nosso Portugal a dar estes passos atrás num desporto que tanto nos elevou e orgulhou.

Posto isto, dou então por mim a recordar relatos de veteranos do pelotão que já me contaram algumas das suas histórias.

Que dizem eles? Trocando por miúdos, que outrora o calçado não tinha nada a ver com o de agora. A proteção era mínima, não porque se queria, mas porque era o que havia para correr.

Que dizem os registos nacionais? Que eles eram muito mais rápidos!

Que sabemos nós? Que mesmo o material das pistas de Tartan evoluiu com o passar dos tempos, e de certeza que não foi a pensar-se em prejudicar as marcas.

Posto isto, a pergunta: será que a proteção excessiva que passou a haver no calçado de corrida não teve a sua dose de impacto neste acontecimento? Não só dá que pensar, como nos obriga a olhar para o futuro. Ao estarmos a adaptar o corpo a um excesso de proteção, isso não vai ter repercussões apenas em nós, como também nas gerações vindouras.

 

O exemplo de Kipruto nos 3000m obstáculos

Há dias, quando elaborei o meu TOP 10 momentos do ano 2018 do Atletismo, dei destaque à vitória de Conseslus Kipruto na prova dos 3000m obstáculos da sessão da Liga Diamante realizada em Zurique. A perda da sapatilha não foi um problema para Kipruto, já que acabou por vencer a prova apesar dessa desvantagem. Ou terá sido uma vantagem?

Mais impressionante do que ver o atleta vencer a prova sem uma sapatilha é verificar que ele continua a correr com uma descontração e um relaxamento admiráveis.

Mais uma pergunta. Seria isto possível se as solas dos seus pés não estivessem fortalecidas e os pés não tivessem desenvolvido uma grande elasticidade?

Agora olho para mim. Seria capaz de manter um ritmo de prova, em caso de perda das sapatilhas, nas várias superfícies? Na relva fresca e fofa? Acredito que sim! Na estrada? Claramente que não! Na pista? Pelo contacto que tenho dos treinos com o tartan, talvez durante alguns minutos, com esforço suplementar.

 

Conclusão

A minha vida no atletismo baseia-se muito em estudo e investigação, que mais tarde transita para uma fase prático-experimental com direito à retribuição dos ensinamentos correspondentes. Assim sendo, não quer dizer que depois desta longa reflexão me vão ver por aí a correr descalço nas provas, nem é meu objetivo com este artigo influenciar-vos a tal. Apenas a refletirem sobre o tema.

No que à minha pessoa diz respeito, uma coisa é certa. Daqui em diante, vou prestar muito mais atenção aos meus pés que, coitadinhos, tantas vezes foram desconsiderados em prol de joelhos, gémeos, quadríceps, isquiotibiais, e todos os vizinhos que constituem os prédios que me suportam: as minhas ricas pernas!

Uma nota final a pensar naqueles que ainda não leram este livro e que podem estar a considerar essa hipótese. Para lá do livro em si, também este capítulo 25 tem muito mais para contar do que aquilo que eu referi neste artigo e que impulsionou os meus desabafos e as minhas ilações, portanto não julguem ter ficado com a leitura estragada, pois ela ficou salvaguarda 🙂

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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