VII Meia Maratona Juventude Ilha Verde – O que trouxe na bagagem

Meia Maratona Juventude Ilha Verde 2021 - Campeonato Nacional Veteranos

Quando regressamos de uma viagem, e ao contrário do que acontece com malas e bagagens, os aeroportos não são capazes de revistar e quantificar as nossas memórias. Digo isto com grande alívio, tendo em conta que são muitas mais as que trazemos do que as que levámos. Aliás, ao contrário da bagagem física, que até nos podemos dar ao luxo de deixar ao abandono no local, as memórias, regra geral, não as podemos lá deixar. Quer queiramos quer não, elas vêm connosco. Para onde? Para um novo (o nosso verdadeiro) habitat! Como se existisse uma vida que liga o antes e o depois da viagem, e um interregno noutra dimensão, durante a jornada fora de portas. No que toca a esta minha última aventura longe de casa, a VII Meia Maratona Juventude Ilha Verde, na Ilha de S. Miguel, nos Açores, trouxe de borla (ou por obrigação, ambas as opções são válidas), um convívio em pé de igualdade com toda a gente, independentemente das limitações de cada um. Um fenómeno que me tem suscitado novas interrogações, que por agora deixo de lado. Para já, a aventura em questão.

Ao contrário de edições anteriores, esta 7ª edição da Meia Maratona Juventude Ilha Verde, para lá das diferentes distâncias e escalões tradicionais da prova, foi pano de fundo de três outras provas de maior relevo: o Campeonato Nacional da Meia Maratona de Veteranos, juntamente com Mundial e Europeu de Meia Maratona VIRTUS (atletas com algum tipo de deficiência intelectual). Uma combinação que rapidamente se transformou numa oportunidade única para colocar à vista a igualdade entre todos, dentro das evidentes (ou aparentes) desigualdades. E, quer me parecer, toda a gente a aproveitou ao máximo. Para meu espanto, enquanto “sénior”, terei sido um dos mais beneficiados com isso. Segue-se o meu roteiro de perspectivas.

A primeira paragem é no ponto que me parece mais óbvio, e que já abordei anteriormente neste espaço: o respeito pelos veteranos. Não apenas no que toca a ouvir e aprender com os seus relatos sábios, mas a comprovar com os próprios olhos que eles continuam a andar que se fartam, merecendo, a meu ver, mais consideração pelas organizações das provas. Se ainda há beleza de cores e disputas acérrimas nas várias partes do pelotão de uma corrida, incluindo o primeiro terço, isso também se deve a eles, pois, além dos seniores e dos mais jovens, também os veteranos são uma presença regular nos vários compartimentos desse comboio. Nos Açores, isto não foi excepção, pairando mais uma vez a ideia de que, pelo menos até determinada altura da veterania, existe uma maior aproximação com a juventude do que a idade cronológica nos quer fazer crer.

Ora, se este princípio da inclusão se verifica na estrada pelos resultados do trabalho de ambas as partes, quando nos sentamos à mesa, embora a coisa fique mais fácil em termos físicos, por vezes os “estatutos” tornam-se um obstáculo para o diálogo. No entanto, e a exemplo de outros locais, esses “estatutos” não pairaram ou assombraram a ilha de São Miguel. Eu, um mero sénior, tive o privilégio de, no dia do evento, almoçar e jantar com o pódio completo dos veteranos M35 do Campeonato Nacional de Meia Maratona. E com eles ter um diálogo de igual para igual. Sendo certo que no exemplo anterior paira alguma suspeita, pois dois dos atletas condecorados pertencem ao clube que represento, não se aflijam, pois há mais caminho a percorrer.

Desta feita, pela vertente VIRTUS. A meu ver, não fez qualquer sentido misturar as classificações dos Campeonatos do Mundo e Europeu Virtus com os resultados dos 21,095 metros da VII Meia Maratona Juventude Ilha Verde, o que até originou algumas confusões e ausências na cerimónia protocolar. Contudo, não deixa de ser evidente, ao olhar para os resultados publicados, que o vencedor global na distância da meia-maratona foi o “VIRTUS” Cristiano Pereira (muitos parabéns!). Claro que quem conhece o Cristiano nestas andanças não ficará muito surpreendido com este resultado – ele que, juntamente com outros atletas da selecção nacional portuguesa, permitiram aos presentes ouvir e cantar o hino nacional. Foi mais um momento propício a reavaliar a nossa humildade e insignificância, quando podíamos pensar em sentido contrário.

 

Meia Maratona Juventude Ilha Verde 2021 - Campeonato Meia-Maratona VIRTUS

 

Mas esta história ainda está longe de acabar. De forma inesperada, acabei por ter contacto com o “VIRTUS” espanhol, Asier Santos, que, também para exemplo, fez melhor prova do que eu e restantes colegas de clube. No dia da prova, acabado de jantar com o pódio completo M35, a noite ainda teve espaço para um copo entre os atletas do Clube de Atletismo de Ovar e o Vice-Vice Campeão Europeu Sénior VIRTUS de Meia Maratona. Tudo em pé de igualdade, menos as bebidas, que essas foram quase todas diferentes.

A terminar, uma inversão do processo. Se os atletas até agora mencionados mostraram ser muito melhores do que eu, no caso de me guiar novamente pela aparência ou estatuto, seria facilmente de crer que os atletas africanos não dariam hipótese a toda a concorrência, como é ideia geral entre o pelotão mundial de corredores. Pois bem, na realidade, apenas um queniano correu mais rápido do que eu, apontamento que também converge para a linha da igualdade, desta feita, de baixo para cima, e por uma questão de mérito.

Em resumo, deu para tudo. E, após o regresso ao meu habitat, sinto-me a nadar nas já anunciadas interrogações. Nomeadamente, o que se leva desta vida? E para onde? Não faço a mínima! Em contrapartida, da “vida” que se estendeu por quatro dias nos Açores, trouxe para a “vida corrente” (e meu actual habitat) este leque de experiências com tendência para a igualdade e aproximação entre os seres humanos. Não sei se foram obra do acaso. Porém, se estas recordações vieram comigo e, como foi prova nos últimos dias, se instalaram confortavelmente no seu novo habitat, então é possível que façam intenções de ficar por muito tempo por estas bandas. Se for o caso, será bom sinal, pois, inconsciente ou conscientemente, também eu terei tendência para fomentar vivências como estas, daqui em diante.

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

Créditos Fotos: ANAV – Associação Nacional Atletismo Veterano; Associação de Atletismo de São Miguel;

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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