Um comboio onde TODOS tiram bilhete!

todos tiram bilhete no comboio desportivo

Em situações de tranquilidade e segurança sanitária, está autorizada (e recomenda-se!) a formação de grupos para a práctica do exercício físico. Grupos de ciclistas, de corredores, de peregrinos, etc. Ora pode não parecer, mas, nestas reuniões para o exercício, onde a mobilidade é um requisito, os participantes deslocam-se de comboio.

Sim, é isso mesmo! Embora estes “comboios” não se desloquem sobre linhas ferroviárias e não sejam tão protectores em relação à meteorologia, em tudo o resto o modo de funcionamento é idêntico. Aliás, o leitor permita-me que acrescente: se nos comboios tradicionais ninguém escapa ao conhecido “pica” e se desloca sem pagar, aqui, pode ter a certeza, TODOS pagam bilhete, e está dispensado o revisor.

 

O essencial de um comboio

Sem mais delongas, passo a explicar a mecânica de todo este processo. No comboio ferroviário, há uma estação de partida, da qual o comboio não sai sem o seu maquinista. Estes são os dois requisitos essenciais para a viagem ter início. Por seu lado, no “comboio desportivo”, qualquer participante está habilitado a ser maquinista e pode fazer de sua casa, ou de um ponto de encontro, a estação de partida. Assim, quando alguém inicia um treino, assume automaticamente a forma de um comboio e, com boa probabilidade, o cargo de maquinista. Nesta última situação, tudo depende se já leva passageiros.

 

As estações

Atentemos agora na questão das estações, na qual o “comboio desportivo” até leva alguma vantagem. Para o demonstrar, começo por lembrar que no comboio tradicional as estações são fixas e não existem paragens extraordinárias. De facto, em algumas viagens até se suprimem certas estações e apeadeiros. Ora, no segundo tipo de comboio, qualquer sítio é uma paragem ou um apeadeiro, desde que se saiba que o comboio vai passar ali. Aliás, o “comboio desportivo” nem precisa de parar para recolher o passageiro, pelo que não há perda de tempo. Também é verdade que, por vezes, o passageiro recolhido acaba por “ficar em terra” alguns instantes depois, ou nem chega a cruzar a porta deste veículo humano. Todavia, sobre isto, falarei de seguida com maior detalhe.

 

As carruagens

São elas que, a par da locomotiva, constituem o típico comboio que, mais uma vez, demonstra pouca flexibilidade. Sobrelotado ou apenas com meia dúzia de passageiros, neste comboio toda a carroçaria segue desde a estação de partida até à sua final. O que não acontece no “comboio desportivo”. O dito cujo pode arrancar só com locomotiva, ou já com um grande número de carruagens. Porém, é consoante o número de passageiros que este ganha ou perde volume, ao longo da sua viagem.

Mas não é tudo! O comprimento de cada carruagem é igualmente variável. Podem ganhar forma comboios constituídos por muitas carruagens, mas com estas a serem extremamente curtas: uma espécie de carruagens VIP, apropriadas apenas para um agregado familiar, dado o espaço que se cria entre aquele grupo e o que segue atrás. Como podem surgir comboios de uma só carruagem (locomotiva), cuja cauda não é possível avistar da outra ponta. Quando assim é, entra em cena os chamados lugares prioritários (sim, também têm disto!). Contudo, aqui não se trata de ir em pé ou sentado, mas sim de bem posicionado. Especialmente quando o vento e a chuva fazem companhia ao grupo em movimento. É por esta altura que alguns passageiros cedem os seus lugares no comboio a outros com mais dificuldade em acompanhar a velocidade a que segue o comboio.

Ainda sobre este assunto, de referir que a formação destes dois tipos de comboios depende das ambições de cada passeiro. Isto é: ou se chega a um consenso entre passageiros no objectivo traçado para aquele comboio, ou então este transforma-se numa verdadeira anarquia, por consequência da diversidade das ambições ali reunidas. Como se percebe, é neste último caso que o comboio se fragmenta em muitas carruagens. Ao leitor, solicito que não interprete isto como uma espécie de “comboio mau” e “comboio bom”. Simplesmente, o que por vezes acontece é que os horários, os trabalhos e os objectivos dos passageiros não coincidem, tornando-se inevitável o comboio alongar-se em jeito de um maior número de carruagens.

Não esquecer que o próprio maquinista não tem o seu cargo assegurado. Ele pode dar início a uma grande viagem, mas não está livre de, a dada altura, saltar para uma carruagem traseira, ou mesmo ter de abandonar a viagem para apanhar outro comboio e chegar ao destino sem uma grande despesa.

 

O pagamento do bilhete

No meio de todos estes paralelismos, é na compra e valor do bilhete para a viagem que está a grande diferença no funcionamento dos comboios. No comboio tradicional, o bilhete compra-se antes da viagem. No “comboio desportivo”, o bilhete tira-se no fim e a despesa depende da velocidade a que se abandona a viagem. Porque quando se decide embarcar, a palavra “destino” do comboio não tem credibilidade. Este veículo desportivo, como já deu para perceber, é muito dado a flexibilidades. Como já vimos, o trajecto não é muito certo, e o próprio horário de chegada tem alguma variância. Resta-me falar do preço do bilhete, que, primeiro devo realçar, é cobrado do corpo do passageiro (vá se lá saber por quem!), em prestações, nos dias seguintes à viagem. O valor também não é tabelado. Como dei a entender, quando falei do maquinista, no parágrafo anterior, depende muito de quando o passageiro decide abandonar a viagem por se sentir desconfortável com a velocidade.

Em suma, tudo depende do ritmo imposto pelo maquinista de cada segmento da jornada, sendo este muitas vezes acicatado pelos passageiros que seguem perto dele para andar mais depressa. Se for muito rápido, há um grande risco de mais passageiros ficarem apeados antes do término da jornada. Se for mais lento, há uma maior probabilidade de chegar com mais gente ao destino, podem assim deixar os seus clientes satisfeitos e contar com eles nos dias seguintes. Até porque, normalmente, quando um comboio ganha rotinas e deixa alguns dos seus passageiros apeados (e basta acontecer uma ou duas vezes), depois eles já não costumam embarcar. Ganham receio, e só decidem aderir se os potenciais maquinistas lhes derem confiança.

 

Conclusão

Aconteça o que acontecer, neste “comboio desportivo”, uma coisa é certa: TODOS pagam bilhete! E sempre nos dias seguintes! Até o maquinista que concluir a viagem, quer chegue ao destino em solitário ou em grupo, terá de abrir os cordões à bolsa.

Uma última nota: os clientes deste comboio, ao contrário dos outros, quando chegarem a casa e disserem: “oh mãe, perdi o comboio”, ou “oh pai, o preço do bilhete hoje foi mais caro”, devem ter em mente que essas situações não serão vistas com preocupação, mas com relativa indiferença e tranquilidade.

Boas viagens!

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

 

Imagem de Capa: tookapic do Pixabay

 

nv-author-image

Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.