Um sprint de 10km com limitador – Corrida Popular da Costa Nova

Corrida Popular da Costa Nova 2019 - Ílhavo

Esta época desportiva tem sido repleta de peripécias, algumas das quais partilhadas neste espaço. O sábado passado teve mais uma digna de registo.

Pela primeira vez participei na Corrida Popular da Costa Nova. A prova defende possuir os 10 quilómetros mais rápidos do país, algo que considero bastante discutível. Não digo isto pelo percurso selecionado, mas por outras variáveis que influenciam o rendimento dos atletas em qualquer prova.

Todavia, não é por isso que hoje escrevo. À semelhança do artigo sobre a XXXI Corrida de S. Pedro (Póvoa de Varzim), a razão de ser deste artigo reside nas minhas sensações no antes e durante a prova.

 

A teimosia que travamos a solo

Sabem, faz-me uma certa confusão como conseguimos ser tão casmurros connosco próprios. Pelo menos eu assim sou em algumas situações. E para aqui nem quero puxar as relações que desenvolvemos com os outros, pois esse é um assunto que “tem muito pano para mangas”. Uma equação excessivamente complexa para agora estar aqui a tentar resolver e perder o rumo do texto.

Como ia a dizer, quando é de nós para nós, esta teimosia é verdadeiramente intrigante. Até porque, em casos desportivos, o nosso corpo tende a não nos trair quando se tratam de sinais constantes. Não confundir com circunstâncias especiais ou situações esporádicas.

Avanço então para a situação concreta. Na passada semana, o treino mais intenso foi abortado a meio por perder de vista os ritmos estipulados, enquanto as restantes atividades, supostamente de regeneração, acusaram ritmos mais lentos que o normal. Por outras palavras, sinais claros de fatiga, apoiados pelas várias linhas de pensamento que cruzaram a mente com uma só mensagem: “descanso precisa-se!”. Um pouco ao estilo daquelas avionetas que por vezes sobrevoam praias e outros lugares com mensagens agarradas na cauda.

Mas não foi suficiente! A teimosia, suportada pelo vício da rotina e pelas noites mal dormidas, reforçou o perímetro até ao posto do cansaço, que por sua vez fez a ponte com o mau humor, que por sua vez retornou à teimosia com outra convicção e construiu uma muralha comigo lá dentro. Um cerco que subestimei, convencido que, desse por onde desse, poderia tirar todo o potencial da máquina no último sábado.

 

O limitador que o treino avisou e o descanso camuflou

Porém, não foi assim que aconteceu. E se os últimos treinos bem me avisaram do que se estava a passar, o descanso tornou-se um verdadeiro artista no sentido mais negativo da palavra. Um habilidoso que, sem tempo para satisfazer as minhas necessidades, limitou-se a retirar-me as sensações de fadiga e dores musculares, passando a ideia que tudo estaria bem no dia da prova. Tinha todas as razões para acreditar na sua palavra até voltar à conversa com o treino ou, neste caso, com a competição.

Como todos nós sabemos, só na altura do exercício é possível verificar se tudo está operacional ou se existem falhas no serviço. Até lá, tudo não passa de conversa fiada. Infelizmente, confirmou-se a segunda hipótese. A mudança de velocidade para o andamento mais rápido ficou por reparar. Eu bem que a tentei engrenar, mas sem sucesso. O resultado foi ter a sensação de estar a sprintar ao longo de 10 quilómetros. Já alguma vez a tiveram? Eu cá tenho uma vaga ideia de já não ser a primeira vez que isto me acontece. Porém, tal aventura deve andar perdida no meu livro de registos que não a consigo agora precisar.

Desde o tiro de partida da 6ª edição da Corrida Popular da Costa Nova que as pernas estavam pesadas. Um mau agoiro que se transformou em limitador. Mas sem eu saber. Basicamente, parece que foram 10 mil metros sem atingir níveis de sofrimento ou de conforto elevados. Corri no limbo que separa as duas partes. A caixa torácica e a mente reuniam forças para que eu carregasse no acelerador. E eu passei mais de meia hora a fazê-lo, ainda que sem qualquer efeito.

Então como proceder? Não podia reclamar. As pernas avisaram-me a semana toda. Durante esses dias, eu não quis saber. Sábado, foram elas que não quiseram saber. Uma espécie de greve à exploração laboral.

 

A importância do estado anímico

Todavia, com o que elas não contavam durante este protesto, e esta foi a minha salvação, era que o estado anímico viesse em meu auxílio. É nestas alturas que se percebe o verdadeiro impacto de ter um estado de espírito positivo e motivado em contrapartida com um negativo e encharcado pelo desânimo.

Vagueava eu algures entre o quilómetro 6.5 e o 7.5 da prova quando fui ultrapassado por um trio de atletas. Pouco depois, o pensamento de que já pouco tinha a fazer ali fustigou-me a mente. Não ia para um recorde pessoal, a posição na geral já não perspetivava grandes alterações, e visto que estava a ser vítima do meu próprio cansaço, porque não desligar?

Encontrei dois motivos para não o fazer. Um normal e um inédito, que se viram suportados pela minha teimosia desportiva. Sim, porque a teimosia também é responsável por não me fazer baixar os braços e minimizar as perdas quando as prestações não são as desejadas.

Ou seja, da mesma forma que esta casmurrice resulta na minha má decisão que desencadeia um role de acontecimentos indesejados, também é seu o mérito da consistência dos meus resultados. Posso levar muito tempo a “subir de patamar” nos meus registos cronométricos. Contudo, quando o consigo costumo segurar-me por ali sem grandes oscilações.

Relativamente aos dois motivos que me impediram de baixar a guarda, o primeiro foi a luta coletiva. Estou convicto que se abrandasse um pouco nada iria mudar no resultado final. Todavia, se esta era uma dúvida que podia jogar a meu favor, porque não tentar motivar-me a partir dela e continuar a tentar quebrar o limitador?

O segundo, e inédito, foi ter-me lembrado do meu quilómetro final, que cá apelido de mágico e atípico, na XXXI Corrida de S. Pedro (Póvoa de Varzim). Uma memória que, em jeito de passagem de testemunho, tentou parir uma descendente logo ali. Seria inédito para mim ser ultrapassado por um grupo a 1/3 do final da prova e voltar a alcançá-lo. Mas porque não tentar?

 

A frescura mental a mostrar-se presente

Antes de continuar a aventura, realço vivamente que este raciocínio deve-se também à frescura da minha parte mental. Só as pernas estavam em greve. Desta forma, tentei focar-me ao máximo naquele que podia ser um novo feito. Para minha surpresa, a mente mostrou-se tão interessada naquela possibilidade que as pernas, por um momento, hesitaram no prolongamento do seu protesto. O suficiente para encurtar ligeiramente a distância para o trio da frente, que com o aproximar dos metros finais começava a fragmentar-se e dar também os sinais inevitáveis de desgaste. Esta combinação de comportamentos foi o suficiente para me manter alerta e exclusivamente concentrado naquela missão que apenas chegaria ao fim com o cortar da linha de meta. Resultado?

 

Corrida Popular da Costa Nova 2019 - Ílhavo

 

Não. Infelizmente, não os consegui apanhar. No entanto, foi desta forma que fui capaz de voltar a reagir no derradeiro quilómetro de uma prova. Uma raridade que agora acredito ainda mais conseguir fazer dela um hábito no futuro. Embora não tenha partido o limitador, o derradeiro quilómetro foi o meu mais rápido em igualdade com o primeiro (algures entre 3:18 e 3:19/km), numa média de prova de 3:27/km.

 

Uma vitória moral

Assim foi uma vitória moral que me deixou orgulhoso. Desta forma, e juntamente com a importante lição sobre o desgaste, consegui trazer de Ílhavo uma recordação positiva para o meu livro das memórias individual. Sim, porque o melhor do dia foi claramente a vitória coletiva na prova por parte do Clube de Atletismo de Ovar 😀

Posto isto, é torcer para que a lição tenha mesmo sido absorvida, e que a vontade (na medida certa) de recuperar tenha mais força que a teimosia de treinar.

 

Créditos Foto de Capa: Atletas Net (6ª Corrida Popular Costa Nova – Álbum 4)
Créditos Foto do Artigo: Atletas Net (6ª Corrida Popular Costa Nova – Álbum 5)

 

nv-author-image

Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.