XXXI Corrida de S. Pedro – Resgate na marginal da Póvoa de Varzim

XXXI Corrida de S. Pedro - Resgate na marginal da Póvoa de Varzim

Um atleta competitivo e ambicioso alimenta-se dos seus resultados e recordes pessoais. Porém, neste longo processo onde as provas mais importantes surgem apenas na sua fase final, não existem garantias de que o desfecho do ciclo seja positivo ou animador.

Eu que o diga, pois os últimos meses no atletismo não têm sido fáceis. Por mais que consiga identificar as razões para o sub-rendimento e concluir que a longo prazo isto vai valer a pena (nem que seja SÓ pelo processo de aprendizagem), a verdade é que a importância do presente está constantemente a massacrar a minha mente e a tirar-lhe a tranquilidade.

Por tal razão, recordo uma célebre frase de Emil Zátopek (traduzida):

 

[blockquote align=”none” author=”Emil Zátopek”]Um atleta não consegue correr com dinheiro no bolso. Ele deve correr com esperança no coração e sonhos na cabeça.[/blockquote]

 

Uma citação bonita, mas cuja segunda parte nem sempre é exequível, por maior que seja a nossa vontade. Passo a explicar. É bastante complicado albergar este estado de espírito quando as coisas não correm bem. Por outras palavras, quando algures pelo caminho perdemos duas grandes amigas: a motivação e a confiança.

Em competição, estas duas têm um papel fundamental no nosso rendimento. Digamos que são o combustível que faz funcionar todo o processo que culmina na citação de Zátopek. Quando os resultados não aparecem, aos poucos e poucos, a confiança e a motivação começam a afastar-se de nós até que as perdemos de vista.

 

O importante a reter é que o coração e a cabeça substituíram os sonhos e a esperança pelas dúvidas e as inseguranças.

 

Ora, este distanciamento, para o qual não existe fórmula mágica para voltar a encurtar (apenas conjeturas), tem as suas consequências. Os treinos mais exigentes que se avizinham são os primeiros a sofrer na pele esta separação. Tentamos manter o profissionalismo e a seriedade com que os encaramos, mas nota-se que falta ali qualquer coisa. Uma maior capacidade de sofrimento, intensidade, algo nestas linhas …

Por seu lado, a nossa presença nas provas seguintes revela-se condicionada pelas prestações que suscitaram o desaparecimento da motivação e da confiança. É natural! Afinal de contas, foi por ali que se deu a separação e a memória aviva-se. Pouco interessa se os bolsos estão cheios ou vazios. O importante a reter é que o coração e a cabeça substituíram os sonhos e a esperança pelas dúvidas e as inseguranças. Pode parecer estranho, mas melhor seria se neles estivesse qualquer coisa oca. Pelo menos dessa forma o corpo não era influenciado negativamente pela voz de comando central.

 

Se o distanciamento se verificou em competição, acreditava eu que seria também em prova que as voltaria a avistar.

 

Apesar deste cenário tão pessimista, há solução! No entanto, a dita cuja não é generalizada e, como tal, exige muito trabalho. Felizmente, já encontrei a minha para este momento menos bom. O resgate destas minhas duas amigas aconteceu ontem, dia 30 de Junho de 2019, na marginal da Póvoa de Varzim. Se o distanciamento se verificou em competição, acreditava eu que seria também em prova que as voltaria a avistar.

Nas provas abstraímo-nos de muita coisa. Vemos caras conhecidas, ajudamos, somos ajudados, convivemos. E aquela Corrida de S. Pedro, que eu conheço cada vez melhor, tem a vantagem de contar com muita gente de qualidade a competir e ter público a apoiar em grande escala ao longo de quase todo o percurso.

 

XXXI Corrida de S. Pedro - Resgate na marginal da Póvoa de Varzim

 

De volta à minha crença para um possível reencontro com a confiança e a motivação, ele aconteceu! Ironicamente, não da maneira mais óbvia. Isto é, não foi à custa de resultados ou registos cronométricos, mas de sensações! Estão a ver aqueles momentos que todo o dinheiro do mundo não pode comprar e que nós não conseguimos explicar por palavras aquilo que sentimos? Foi algo do género.

 

Podia ser fogo de vista. Mas não! A força e a leveza perduraram, alavancadas pelo ânimo de ganhar posições a cada quilómetro. Foi incrível!

 

É curioso. O ano passado apresentei-me nesta prova com a maior das forças mentais de que tenho memória! Este ano, estava precisamente do outro lado da linha, sem saber muito bem o que iria sair dali. Ainda para mais, ao contrário dos outros anos, tinha conseguido dorsal VIP e não queria defraudar o privilégio concedido. Não sei se justifiquei a aposta. Sei sim que ainda antes da partida me tentei convencer a desfrutar do ambiente e da prova ao máximo!

Inevitavelmente, tudo isto ajudou ao que senti ontem. Tudo isto deu sossego à minha mente e entusiasmou o meu corpo. Podia ser fogo de vista. Mas não! A força e a leveza perduraram, alavancadas pelo ânimo de ganhar posições a cada quilómetro. Foi incrível! O sofrimento que tantas vezes ameaçava estar à espreita só teve oportunidade de sair da toca na última milha, e isso foi apenas resultado da minha galvanização. Sem olhar para o relógio, mal sabia eu que depois de todas aquelas boas sensações, tinha a cereja no topo do bolo à minha espera. Um último quilómetro a ritmo de 3:12/KM. Eu que nem tenho mudança de velocidade e que na parte final fico sempre apeado em relação a quem me acompanha em grupo. Desta vez, a história foi diferente e surpreendi-me a mim mesmo.

 

Neste mundo do atletismo, as provas revelam-se verdadeiros testes de superação e pontos de encontro deliciosos.

 

Isto tudo para dizer que fiz 34:01 aos 10K na XXXI Corrida de S. Pedro? Não! Isso é o que segue para o arquivo dos registos. O histórico palpável que pode ser consultado a qualquer altura.

Isto tudo para dizer que regressei da Póvoa de Varzim de alma e coração fortalecidos. Com a motivação e a confiança resgatadas e novamente junto de mim, posso agora voltar a correr como aconselha Emil Zátopek. Um bom indicador para o futuro, mas que não garante o que quer que seja nesse sentido.

Longe de “embandeirar em arco”, aconteça o que acontecer, uma coisa é certa. Nos próximos tempos, vou voltar a correr junto destas minhas amigas tão importantes para o meu equilíbrio emocional competitivo. Podemos até voltar a caminhar em direções opostas a partir deste ponto de encontro. Mesmo que assim seja, vai voltar a levar tempo até as perder de vista. E, como é habitual, não vou facilitar. Principalmente quando estes últimos tempos assolarem a minha mente e eu retribuir a provocação com este resgate na marginal.

Em jeito de despedida, espero que esta aventura possa ser útil e inspiradora a quem por esta altura atravessa uma situação semelhante. Neste mundo do atletismo, as provas revelam-se verdadeiros testes de superação e pontos de encontro deliciosos.

 

Créditos Fotos: Matias Novo (XXI Corrida de S. Pedro); José Cunha (XXI Corrida de S. Pedro)

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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