Sobre o Campeonato Mundial da Meia Maratona – Valência 2018

Campeonato Mundial da Meia Maratona - Valência 2018

Recorde do mundo na prova feminina. Terceiro título consecutivo para Geoffrey Kipsang Kamworor no masculino. Assim se pode resumir o Campeonato Mundial da Meia-Maratona deste ano, realizado na cidade espanhola de Valência.

De facto, foi a escolha do local que me chamou mais à atenção para este evento. Depois de no ano passado ter corrido a Maratona de Valência, com a qual fiquei bastante agradado, tinha uma curiosidade muito particular em ver estes campeonatos.

Do ponto de vista do espectador, as provas não foram excecionais. Mas não é menos verdade que ambas tiveram a sua boa dose de interesse. Por diferentes motivos.

 

A favorita Joyciline Jepkosgei

Na prova feminina, as atenções estavam todas viradas para Joyciline Jepkosgei. Após ter estabelecido um novo recorde do mundo na distância, no ano passado, precisamente na meia-maratona de Valência, a queniana era a grande favorita à vitória.

Porém, como é sabido, o favoritismo não assegura vitórias a ninguém. Depois de cedo se ter formado um pequeno pelotão na frente, constituído apenas por atletas do Quénia, Etiópia e Bahrein, este foi perdendo elementos com o passar dos quilómetros.

Talvez pelo favoritismo, quem mais assumiu as despesas da corrida foi o grupo queniano. Mesmo quando reduzido a um quarteto, o Quénia mantinha-se em vantagem, ao ter duas atletas. O restante duo pertencia a Etiópia e Bahrein.

 

Netsanet Gudeta estabelece novo recorde do mundo

Pouco depois, tudo mudou de figura. A etíope Netsanet Gudeta Kebede forçou o ritmo e descolou as suas adversárias. Jepkosgei foi mesmo a primeira das quenianas a abandonar o comboio. Todavia, ainda viria a recuperar o segundo lugar.

De volta a Gudeta Kebede, esta manteve-se forte até final e fechou com recorde do mundo (01h06m11s). Uma marca melhorada em 14 segundos e que diz respeito a provas exclusivamente femininas.

Nas declarações depois da prova, Netsanet Gudeta confirmou ter aproveitado a liderança queniana para se proteger do vento que se fez sentir em algumas zonas. Uma boa estratégia que não justifica a vitória no seu todo. À falta de pernas, este tipo de proteção nunca seria suficiente. Todavia, a etíope manteve sempre um ritmo consistente, mesmo após se ter isolado na frente.

 

Geoffrey Kamworor é tricampeão

Na parte masculina, confirmou-se o favoritismo de Geoffrey Kamworor. Depois das vitórias em Copenhaga (2014) e Cardiff (2016), o atleta queniano chegou mesmo ao terceiro título consecutivo em Campeonatos Mundiais da Meia Maratona.

Um triunfo mais que merecido, dada a demonstração de força de Kamworor na segunda metade da prova.

Ao contrário da prova feminina, numa primeira fase a dos homens teve na frente um pelotão bem mais numeroso e pintado de várias cores. Aliás, nem sequer eram atletas africanos a comandar. Kenta Murayama (Japão), Julien Wanders (Suiça) e Ayad Lamdassem (Espanha) são apenas alguns nomes dos que surgiram no comando.

Só a partir dos 25 minutos de prova é que a seleção começou a ser feita na dianteira. O grupo ficou reduzido a elementos de nações africadas, mais as presenças do suíço Julien Wanders (oitavo classificado) e do naturalizado turco, Kaan Kigen Ozbilen.

O momento chave da prova deu-se cerca de vinte minutos mais tarde. Por volta do quilómetro 15, Kamworor acelerou para a vitória (concluiu a prova em 01h00m02s). Os etíopes Jemal Yimer e Getaneh Molla tentaram seguir na sua pegada, mas o ataque foi demasiado forte.

Aliás, os dois pagaram mesmo essa ousadia de tentar acompanhar o grande favorito. Ultrapassados por Abraham Cheroben do Bahrein (Medalha de Prata) e por Aaron Kifle da Eritreia (Medalha de Bronze), os etíopes perderam os seus lugares no pódio.

 

Quem conseguirá parar Geoffrey Kamworor?

Com a prova da maratona em voga, muito se tem falado de Eliud Kipchoge. Sempre por razões meritórias, conseguidas à custa das suas prestações na distância mítica.

Depois surgem Mo Farah e Kenenisa Bekele. Depois das provas prestadas em pista, as expectativas do público para estes atletas são altas em relação à maratona.

E depois existe este Geoffrey Kipsang Kamworor, cujos feitos já vão para lá da conquista deste tricampeonato. Vale a pena ver a parte final desta sua última prestação. Que pujança. Que ritmo! Incrível! Kamworor que também já tem credenciais na maratona. O queniano foi o vencedor da última edição da difícil maratona de Nova Iorque, com tempo de 2h10m53s.

Após todos estes resultados, veremos como nos vai surpreender nos próximos tempos.

 

Geoffrey Kamworor - Vencedor Maratona Nova Iorque 2017

Foto: Randy Lemoine

 

A bela cidade de Valência

Para mim, a visualização desta prova foi uma oportunidade de rever as estradas e os monumentos da bela cidade de Valência. Locais por onde passei o ano passado, quando lá corri a maratona.

Por outro lado, para potenciais interessados em correr na cidade espanhola, será uma maneira de conhecerem melhor o sítio. Posso-vos inclusive dizer que o último quilómetro desta prova foi exatamente igual ao da maratona.

Já em relação ao público, numa primeira fase parecia estar bem menos gente a ver do que quando lá estive. Mas depois foram surgindo vários locais bem preenchidos.

As condições meteorológicas também eram ligeiramente piores desta vez, e não havia tantos milhares de atletas na estrada. Este último fator é importante quando chama os respetivos familiares e amigos à rua.

Apesar de tudo, mais uma vez foi notória a grande aderência do público espanhol.

 

Notas finais

A classificação coletiva foi igual em ambos os géneros. Primeiro lugar para a Etiópia. Segundo lugar para o Quénia. Terceiro para o Bahrein.

Menção honrosa para Bernard Lagat. Ainda há pouco tempo falei dele aqui, num artigo sobre veteranos. Foi uma surpresa muito agradável vê-lo na linha de partida, no passado sábado. Aos 43 anos, o norte-americano alcançou o 31º lugar da geral, com tempo de 01h02m16s.

Independentemente das razões ou circunstâncias, a ausência de atletas portugueses nestes campeonatos será sempre motivo de tristeza.

É tudo.

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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