Mary Cain e Christian Taylor: Luzes ao fundo do túnel? – Opinião

Christian Taylor Triplo Salto - Jogos Olímpicos Rio 2016

Os últimos dias têm sido penosos para o atletismo. Primeiro, a World Athletics (antiga IAAF) tomou a decisão de suprimir 4 disciplinas do programa da Liga Diamante de 2020. Nomeadamente, o triplo salto, o lançamento do disco, os 3000 metros obstáculos, e os 200 metros planos. Poucos dias depois, Mary Cain, atleta prodígio norte-americana, veio reacender o escândalo que envolve Salazar e a Nike, desta feita não para intensificar as acusações de doping, mas para divulgar os maus tratos psicológicos de que foi vítima enquanto fez parte do Nike Oregon Project.

Em suma, dois acontecimentos que envergonham e destroem este desporto, que eu cegamente continuo a considerar fantástico e me enche de vida. Embora casos de natureza diferente, as vítimas são as mesmas: os atletas!

Sou suspeito em defendê-los, pois também me considero um. Ao mesmo tempo, tenho consciência que as declarações de Mary Cain ainda estão sob investigação e que pode haver reviravolta na trama. Uma possibilidade que considero muito remota, com as recentes declarações de várias atletas a reforçarem a minha fé nas palavras de Mary Cain. Veremos o que se vai passar a seguir.

Quanto a mim, e por mais negativos que sejam estes acontecimentos, vejo em ambos uma luz ao fundo do túnel para este desporto. Talvez por ser o meu lado mais positivo a funcionar. Talvez porque a enxurrada de más notícias, que pautou o atletismo tradicional nos últimos tempos, me tenha levado para um extremo a partir do qual já só posso caminhar na direção do otimismo.

 

As declarações de Mary Cain

Por um lado, sou levado a crer que a suspensão de Salazar e o fecho do Nike Oregon Project foram o incentivo que faltava à atleta para trazer isto a público. Caso contrário, já teria dado antes este seu testemunho.

Contudo, quando olho para este cenário abusivo de outra perspetiva, também percebo este timing das suas declarações. Mary Cain foi uma das maiores vítimas de um projeto orientado apenas e só para os resultados, isto é, totalmente desligado do bem-estar dos atletas. Uma direção que está de acordo com a sociedade consumista e “resultadista” em que vivemos. “A viagem de Kipchoge à Lua”, para lá da mensagem do atleta, foi também reflexo disto mesmo. Não faltaram interessados para apoiarem um projeto de exibição com foco na superação de mais um número. Todavia, para trazer saúde e alegria ao atletismo, poucos aparecem, ou então não se lhes dá voz.

Continuando, se a detenção de Salazar deu força à iniciativa de Mary Cain, que prontamente teve muitas reações de apoio e declarações a corroborar as suas palavras, creio que muitas outras situações semelhantes vão chegar a público, nos próximos tempos. Depois de no final do mês passado ter sido revelado o caso de um treinador que abusava fisicamente de atletas, tiro a triste ilação que nenhuma destas situações será solitária.

Este tipo de comportamento, para além de perturbador para as vítimas, reflete-se naturalmente no espetáculo que é o atletismo. O desporto precisa de atletas que exerçam as suas disciplinas com alegria, algo que requer um bem-estar a todos os níveis. A saúde global é sinónimo de estabilidade mental, o que indiretamente também pode evitar que muitos atletas enveredem pelos caminhos do doping. Seguem-se as declarações de Mary Cain.

 

 

A iniciativa de Christian Taylor

Em resposta às alterações efetuadas na Liga Diamante pela World Athletics, Christian Taylor decidiu fundar a Associação dos Atletas. O seu objetivo principal é dar voz aos atletas nas decisões relacionadas com o futuro do atletismo.

Pessoalmente, deposito grande esperança nesta iniciativa. Senão vejamos: os atletas são os grandes responsáveis pela existência do atletismo, mas há gente a viver deste desporto graças a eles. Porém, este último grupo, que até envolve ex-atletas, em vez de ouvir e defender os atletas em primeiro lugar, coloca à frente os seus próprios interesses, dos patrocinadores e dos canais de televisão.

Na verdade, dá para ficar incrédulo com a moral desta gente em dizer que o objetivo destas alterações é tornar os meetings mais rápidos, dinâmicos e excitantes, quando ainda em finais de setembro realizaram uns campeonatos mundiais no Catar (com todo o respeito pela nação!). Um certame pautado por um estádio com pouco público e com os atletas a terem de competir em condições extremamente adversas. Uma medida não podia entrar mais em choque com a outra.

Aliás, a chuva de críticas sobre os mundiais do Catar só não se terá transformado numa tempestade porque os desempenhos de alguns atletas ofuscaram outras ao chamarem as atenções para si. Por outras palavras, a organização foi, em certa medida, salva pelos verdadeiros protagonistas para, semanas depois, a retribuição ser esta. Quão curta pode ser a memória desta gente?

Voltando a Christian Taylor, espero que a iniciativa do norte-americano junte atletas que façam parte das disciplinas visadas, mas também de outras, para que esta Associação dos Atletas possa ganhar força e criar um ponto de equilíbrio entre eles e as entidades de maior responsabilidade que tão pouco têm feito pelo atletismo.

 

Quando estar em forma não corresponde a ser saudável!

 

Créditos Foto de Capa do Artigo: Citizen59 [CC BY 3.0], via Wikimedia Commons

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.