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consequências corrida Eliud Kipchoge menos 2 horas

Viagem de Kipchoge à Lua deixou o atletismo em Terra?

Diga-se o que se disser, o INEOS 1:59 Challenge transmitiu mais uma prestação de outra galáxia de Eliud Kipchoge. Eu não acompanhei a corrida, apenas o resultado, mas enquanto atleta de competição não consegui que me passasse indiferente.

Para dizer a verdade, este evento tem-me causado um debate interior desgastante. Nas últimas horas, tenho levantado muitas questões, assumido o lugar das várias partes envolvidas e, no entanto, chego a conclusões sempre preocupantes no que ao atletismo diz respeito. Assim sendo, este artigo revela-se um desabafo necessário, uma procura de tentar evoluir o meu pensamento sobre este tópico, e, acima de tudo, uma reflexão sobre as implicações deste evento no panorama do desporto.

 

A viagem de Eliud Kipchoge à Lua

Antes de me focar nos dilemas, as primeiras palavras são para Eliud Kipchoge. Indiscutivelmente, o grande protagonista deste projeto, cujo trabalho e dedicação é inegável. Quem corre sabe que não existem milagres. Este foi certamente o mais puro dos artistas envolvidos no espetáculo. Para se fazer o que fez, só pode ter sido com muito, mas muito trabalho mesmo! Doping? Não coloco as mãos no fogo por ninguém, mas não acredito.

 

Quais as implicações do INEOS 1:59 Challenge no atletismo?

Ora, não é Kipchoge que me preocupa, muito menos a mensagem que tentou passar com esta sua prestação, mas os “efeitos secundários” do evento em si. Se o atletismo continua a perder projeção e a ser manchado aqui e ali por casos de doping, que implicações tem o INEOS 1:59 Challenge no desporto? Para responder a esta pergunta, importa primeiro perceber qual o verdadeiro ponto de interesse do atletismo nos dias que correm, identificando eu 2 hipóteses:

  1. O nosso interesse pelo desporto está a mudar, já não sendo a competição o que verdadeiramente interessa, mas o desejo incontrolável de superar recordes atrás de recordes.
  2. A competição mantém-se o principal mecanismo de interesse no desporto, mas as grandes marcas estão a corrompê-la em prol dos seus interesses, cavando um fosso cada vez maior entre os atletas, projetando inclusive desafios a solo.

 

Os recordes pessoais são o que mais interessam?

Ora, em relação à mudança dos nossos interesses, eu sinceramente não acredito. Falo pela minha experiência. O que me atrai no desporto é a incerteza em relação ao vencedor, a superação de um outsider, a quebra inesperada de um favorito, entre outras circunstâncias legítimas que possam tornar o desfecho de uma corrida empolgante e emocionante. Quando sábado de manhã vi a notícia de que Kipchoge correu a distância da maratona em menos de 2 horas, fiz as perguntas: Ok, e agora? Que interesse é que isto tem, sabendo eu que este homem o poderia fazer depois da marca que tem em provas oficiais?. Talvez fosse apenas (mais) uma impressão pessoal, mas eu já acreditava que esta marca era possível, tendo em conta a proximidade do registo homologado, o que também diz muito da forma como olhei para o INEOS 1:59 Challenge.

Ainda assim, assumindo que são as marcas mundiais que realmente importam, mantenho este evento como uma iniciativa negativa. Mais uma vez, desdobro isto em dois:

  1. ou esta marca (01:59:40) de Eliud Kipchoge é rapidamente superada em provas oficiais, e aí saí reforçada a ideia de um evento de puro marketing para as empresas organizadores;
  2. ou este registo demora uns anos a ser ultrapassado, e aí os próximos tempos serão de desinteresse por não se baterem recordes.

 

A competitividade continua a ser a essência do atletismo?!

Por outro lado, se a competitividade se mantém como principal ponto de interesse do desporto, também nada se ganhou com este challenge, pois ele em nada contribuiu para a promover. A corrida foi a solo e repleta de circunstâncias artificiais que, embora assumidas pelos seus organizadores e participantes, se vão entranhando nos eventos, o que também não me parece ser um bom presságio (conversa para outra altura).

 

O bom e o mau do INEOS 1:59 Challenge

Posto isto, chego à conclusão que o lado da balança positivo (Eliud Kipchoge) é incapaz de superar o negativo, neste caso representado pelas grandes marcas que organizaram este projeto sem primeiro considerar as consequências para o panorama do atletismo. Com tanto dinheiro para investirem, creio que uma aposta na competitividade e num maior equilíbrio de forças entre as várias nações seria mais benéfica, empolgante e apelativa para todas as partes, para além de filantrópica em certa medida.

Por fim, e agora que o registo das 2 horas foi superado nestas condições, será interessante perceber que papel e iniciativas vão assumir as grandes marcas nos próximos tempos. Era mesmo apenas uma questão da marca simbólica das 2 horas? Ou vêm aí mais novidades?

 

Créditos Foto de Capa: The Wolf at Flickr.com [CC BY 2.0], via Wikimedia Commons

 

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2 comentários

Antonio Walter Sena Junior 15 Outubro, 2019 - 0:03

Como trabalhei muitos anos com pesquisas em universidades, esta experiência da maratona sub-2horas me pareceu apenas um experimento de laboratório, onde, por princípio “se retiram todas as condições adversas”. Ou uma situação teórica, como no estudo de mecânica, onde “se despreza a força de atrito”. Na verdade, fazendo uma analogia com esta prova do fim de semana, que teve requintes como o “auxílio de um batalhão de melhores corredores do mundo para cortar o vento”, só faltaram colocar rodinhas nos tênis do Kipchoge, “pra diminuir o atrito” (lembro aqui as ridículas “molas” que muitos tênis da indústria usam, para “melhorar o desempenho”). A vida e a realidade das corridas não são assim. E concordo que tudo isso contribui para desmotivar quem iria lutar para bater essa marca de forma “natural”. No entanto, a tecnologia (e suas controvérsias, como no atual VAR no futebol) serão cada vez mais inevitáveis. Esperemos que se tome algumas providências para que a ÉTICA se torne mais presente, para evitar os descambos que estão surgindo cada vez mais no horizonte, e que parecem andar sempre à frente de quem lutar por disputas JUSTAS E HONESTAS. Tenho 70 anos e sou maratonista há 35. Parabéns pelo artigo, pois só tenho visto aplausos a esta promoção do sub-2h. Um abraço!

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Renato Sousa 15 Outubro, 2019 - 22:16

Olá António Walter Sena Junior 🙂
Obrigado pela partilha de opinião e conhecimento.
De facto a tecnologia é inevitável, e em algumas situações creio que será boa. Acho que o problema é quando dão mais atenção a ela e à ciência do que ao atleta propriamente dito. Foi o caso deste projeto e foi e será de muitos outros. Quando esta condição se verifica, a qualidade e a riqueza do desporto e da competição fica seriamente comprometida. Infelizmente, receio que coisas assim sejam para continuar e que o equilíbrio entre estas duas grandes forças seja perdido em favor da tecnologia, de muita artificialidade e claro, de todo o marketing envolvido.

Achei bastante interessante o uso da palavra “teoria” no seu comentário. Porque lá está. Antes de uma prova ou de um jogo, há sempre muita teoria e previsões, mas o que nos faz sentir atraídos pelo desporto é precisamente a maneira como essa expectativa se vai confirmar ou, sendo ainda mais interessante para o espectador, como o inesperado vai superar o resultado que em teoria era o esperado.

Maratonista há 35 anos? Uau! 😀 Abraço!

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