Desafiar os nossos limites: sinónimo de saúde?!

Desafiar os nossos limites: sinónimo de saúde?! - Desporto

Há cerca de 2 anos, abordei aqui um documento de medicina desportiva, cujos autores alertavam para o facto de um atleta “em forma” nem sempre corresponder a “ser saudável”. Desde já saliento que, neste caso, “estar em forma” deve ser interpretado como: trabalhar para o melhor rendimento desportivo possível.

Hoje, coloco de lado a ciência para dar voz ao meu conhecimento empírico. Isto é, para reflectir até que ponto um atleta que desafie os limites do seu corpo – com o propósito de uma maior capacidade atlética – não está, indirectamente, a traduzir isso numa estratégia para fortalecer a sua saúde (de alguma maneira, este texto é uma sequela do meu anterior sobre a fénix). Para esta consideração, estou a assumir que o atleta em causa tem os cuidados necessários para não cair na teia do overtraining, seja este do tipo físico, mental ou bioquímico.

 

Desafiar os limites em solitário

Vamos por partes. Um atleta que procure subir de forma, por norma tem consciência da necessidade de estimular o corpo com exercícios de intensidade elevada. Quando se trata de competição, o esforço é melhor suportado, devido à adrenalina e às distracções que dela fazem parte. Por outro lado, num treino, quando se desafiam os limites em solitário, a percepção do esforço e do sofrimento é muito maior. Diante deste panorama, pouco tentador, por si só, executar o treino significa que temos um objectivo bem claro. Desde logo, isto é sinónimo de rumo e objectivos na vida. Pois bem, quem não anda “perdido” costuma sentir-se mais vivo, mais tranquilo consigo próprio, e menos impulsivo e reactivo a circunstâncias externas. Não será isto sinónimo de saúde?

Ainda sobre os treinos que desafiam os limites, convém não esquecer que há todo um panorama que os envolve. Não é apenas o momento do exercício. O atleta quer estar bem para cumprir ou superar as suas expectativas. Porque há o mistério maravilhoso que se esconde atrás desses momentos de desafio, o direito a poder sonhar com novas metas, e isso implica cuidados. Nomeadamente, com a alimentação e o repouso (mais saúde!).

É certo que os resultados dos treinos no limite não são absolutos! Umas vezes correspondem às expectativas, outras nem por isso. Porém, quase sempre se traduzem numa experiência positiva. Ora vejamos: quando o treino corre dentro do previsto, o atleta junta ao seu currículo mais um teste de superação mental ultrapassado, tornando-se assim mais forte; quando as coisas não correm tão bem, este desafio costuma transformar-se em boa disposição nas horas seguintes. Porque mesmo que não tenha sido perfeito, ou dentro do esperado, o simples facto de ter sido cumprido deixa o atleta satisfeito (lembrar que ele está a desafiar os seus limites!) pela sua entrega e dedicação ao desafio. Como a fénix, o atleta renasce depois do grande esforço.

Em suma, se estes desafios forem bem medidos, eles tornam-se uma fonte de desenvolvimento física, mas sobretudo psicológica, à qual se pode ir “beber” várias vezes, com vista a enfrentar as enfermidades e adversidades da vida.

 

Desafiar os limites em grupo

Até aqui, não mencionei o ponto de vista social. Mas, parece-me (e relembro que esta é uma reflexão empírica!) que este ingrediente pode potenciar ainda mais uma receita que combina esforço e saúde. Em menor ou maior grau, não tem o atleta/indivíduo a necessidade de socializar? De viver em comunidade? No desporto, parece-me evidente, desafiar os próprios limites depende muito dos outros. Porque os limites, de alguma forma, parecem dividir-se em duas camadas. Numa primeira camada, estarão os limites que o atleta vislumbra e tenta superar a solo. Já numa camada superior (a segunda), estarão os limites alcançáveis com a ajuda dos outros. Através dos seus semelhantes, o atleta consegue prestações que não é capaz de reproduzir no treino. Fica a ideia que existe um alçapão a separar estas duas camadas que englobam os limites na sua totalidade. Um alçapão que só os “outros”, na camada de cima, podem abrir para o atleta subir.

No parágrafo anterior, podia ser levantada a questão seguinte: mesmo sendo verdade que os “outros” fazem o atleta dar um pouco mais de si, onde é que isso se traduz em saúde? Bem, julgo eu, possivelmente na criação das amizades e no estreitamento de laços, que resultam dessas aventuras, com competidores de capacidades semelhantes. Relações que têm repercussões positivas em desafios posteriores. Será com essas caras que o atleta poderá contar nos dias em que o atleta desafie os seus limites e as coisas não corram bem. Serão essas amizades a estar perto de si para puxar por ele e despoletar uma reacção positiva. Caso contrário, a solo e em sofrimento durante muito tempo (salvo os momentos em que encontra caras risonhas e conhecidas no público), como seria capaz de renascer e meter um travão num efeito “bola de neve” negativo que o poderia afundar no desporto e, em seguida, alastra-se para a vida?

Uma nota final. Não estou com isto a relativizar todas as outras amizades, que se inserem no desporto e na vida, que fogem a este cenário, e são igualmente importantes para o estado anímico e alegria do indivíduo. Porém, essas relações têm potencial para fazer a diferença noutras circunstâncias, quando, neste artigo, o que abordo é a conjugação do esforço do exercício com a saúde. E no meio desta conversa toda, sorrateiramente, a competição lá fez notar a sua importância.

 

As contrapartidas

Posto isto, temos as contrapartidas. Parece-me claro que estimular o corpo ao ponto deste fortalecer as suas defesas implica alguns intervalos de tempo em que o mesmo se apresenta mais vulnerável. Com vista a evitar qualquer tipo de overtraining, depende de nós iniciar o processo de recuperação, logo após o esforço. Nomeadamente: dar atenção aos estímulos que o corpo transmite, em vez de, por exemplo, abusar do café a fim de mascarar a necessidade de dormir; e, sobretudo, evitar níveis elevados de cortisol, já que as consequências disto só deixam de ser silenciosas quando já é tarde. A diferença entre “desafiar os limites do corpo” e o “andar no limite” é gigante. O primeiro, que é o visado neste artigo, trata-se de estimular a máquina quando estamos em condições de o fazer. O segundo, corresponde a ter um acidente frontal com o overtraining, a todos os níveis que este comporta.

Resumindo, a experiência diz-me que, bem mediada, esta capacidade de desafiar os limites pode fortalecer o atleta e, como resultado, reduzir vulnerabilidades. No fundo, o atleta é o maestro da orquestra fantástica que junta o corpo e a mente. De batuta na mão, e com o conhecimento empírico acumulado na cabeça, ele será capaz de conjugar os benefícios que daqui resultam com as vulnerabilidades dos momentos de recuperação. Automaticamente, isto fará elevar os seus limites, começando pela saúde e, mais tarde, convertendo-se em rendimento desportivo.

Saúde!

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

 

Créditos Imagem de Capa: StockSnap do Pixabay

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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