Aprender a correr relaxado

Aprender a correr relaxado e com boa técnica de corrida

Por estes dias, eu acredito (depois de muito ler e testar) que correr relaxado é um dos pontos mais importantes do atletismo. Uma convicção suportada quer pela perspetiva competitiva, quer pelo ponto de vista da nossa saúde. Mas não é fácil! Especialmente quando fazemos sprints ou as ditas “séries” que nos levam para ritmos vertiginosos, prontamente reclamados pelo nosso corpo e/ou mente, consoante as situações.

Numa altura em que ando novamente focado nos métodos de Arthur Lydiard, dou por mim a colocar este conceito em prática mais do que nunca. Isto dos três níveis de intensidade a ritmos perto do limite anaeróbico, na companhia de percursos planos e ondulados, faz jus à frase deste senhor:

 

[blockquote align=”none” author=”Arthur Lydiard”]Train, don’t strain.[/blockquote]

 

Esta expressão pode ser traduzia para algo assim: “Treina, mas não rebentes com o teu corpo“. Todavia, preferi deixar a original, pois não achei que qualquer tradução direta fosse ajustada ao que ela pretende transmitir. Uma coisa é ler esta frase e perceber o seu sentido. Outra, totalmente diferente, é atingir a sua profundidade, à qual apenas conseguimos chegar se a colocarmos em prática. Passo a explicar.

A interpretação mais direta da expressão diz respeito a não treinar no limite. Ou, se antes preferirem, a ter sempre reservas de energia para alguma urgência que surja. Isto é, acabar o treino cansado dos ritmos moderados praticados, mas com aquela sensação que se fosse preciso poderíamos ter dado mais um bocadinho de nós ao exercício (corrido mais rápido).

Porém, depois existe o outro sentido, por sua vez diretamente ligado ao conceito de correr relaxado. Mesmo em ritmos próximos do limite anaeróbico, por vezes a passada não é fluída nem leve. Em várias ocasiões até parece que deixamos pegadas no alcatrão, tal a força com que aterramos e que no imediato se repercute no nosso esqueleto (maior a velocidade, maior o impacto). Temos bom remédio para isto, embora a preguiça seja muitas vezes mais forte. Refiro-me aos exercícios da técnica de corrida e bons aquecimentos dinâmicos que ajudam a melhorar a nossa mecânica, tornando tudo muito mais suave. De facto, estou em crer que quando algumas pessoas encaram a corrida como algo doloroso, tal se deve à mecânica reduzida e falta de coordenação que possuem. Porém, quando trabalham a técnica de corrida, a sensação começa a mudar. Correr torna-se algo confortável e prazenteiro. Resultado? Nunca mais olham para a corrida da mesma maneira!

De volta então ao relaxamento, é sem dúvida mais difícil evitar a tensão no nosso corpo quando vamos muito rápido. Em contrapartida, ir lento não vai ensinar o corpo a correr rápido e confortável ao mesmo tempo. Logo, o “segredo” estará no meio destes limites, ou seja, nos ritmos moderadamente intensos. Olho para eles como a peça-chave para desenvolver este processo de aprendizagem no meu corpo. Uma espécie de “evolução disfarçada” que é de facto muito simples de pôr em prática.

Para servir de exemplo, decidi utilizar o intervalo de ritmos que tenho definido para a zona de esforço apelidada de “confortável dentro do desconfortável”. Recordo que ela não ultrapassa o meu limite anaeróbico.

  • 3/4 do esforço: 3:37/KM – 3:47/KM
  • 1/2 do esforço: 3:47/KM – 3:56/KM
  • 1/4 do esforço: 3:56/KM – 4:06/KM

Nos treinos a estes ritmos, ocorre sempre uma das seguintes situações:

  1. Se o aquecimento for mau, vai custar a entrar no ritmo pretendido. Porém, se não entrar em pânico nem forçar andamentos, a velocidade vai aumentar progressivamente à medida que os músculos vão aquecendo. Esta é aquela estratégia em que quase nem me apercebo da mudança de velocidade, pois ela é muito ligeira de quilómetro para quilómetro. Tão suave que não gera tensão e, portanto, dou por mim a correr minimamente relaxado e rápido em simultâneo.
  2. No caso de entrar em pânico no cenário anterior – o que se verifica em algumas ocasiões – surgem as mudanças bruscas que trazem consigo a indesejável tensão. O problema destas mudanças de velocidade desnecessárias é a energia que o corpo tem de despender para as provocar. O bom é que depois de entrar no ritmo pretendidos existe tendência a continuar a acelerar, pois o ritmo atual já é confortável. Quando isto acontece, tenho de meter ordem em mim mesmo e convencer-me a ir mais devagar. E qual é a primeira reação quando qualquer um de nós decide abrandar? Relaxar o corpo! Exatamente o que se pretende.
  3. Por fim, a situação ideal. Ela surge quando entro logo no ritmo pretendido e sem grande esforço, resultante de um bom aquecimento. Fácil de gerir em plano, é sempre mais complicada num percurso de sobe e desce, o que me obriga a guiar pelas sensações. Ao estar no intervalo pretendido desde cedo, com o avançar dos quilómetros vou tendo uma maior “margem de manobra” em relação ao ritmo do treino. Resultado? Sinto-me em controlo do treino, o que se traduz em ter tempo para respirar melhor, ajustar a postura, analisar pequenos detalhes e perceber se estou relaxado. Em caso negativo, tento fazer isso mesmo e, embora tenha a sensação que estou a abrandar, a tendência é os ritmos não oscilarem muito. Se de facto estiver mais lento, sei que posso acelerar no quilómetro seguinte e voltar a entrar no ritmo pretendido sem dificuldade. Assim, aos poucos e poucos, vou colocando em prática este conceito tão importante para manter uma boa postura.

Para além destas hipóteses, pode ainda verificar-se uma outra. Treino após treino, se sentirmos que estamos a criar demasiada tensão e que raramente conseguimos relaxar, então o significado mais provável será que os intervalos de ritmos estipulados estão em patamares demasiado elevados.

Por outro lado, quando conseguimos exercer esta prática dentro do intervalo de esforço que nos coloca em “evolução” e nos separa da vizinha do lado, chamada “sobrecarga”, estaremos a tirar o máximo proveito possível desta situação que automatiza o processo de corrermos mais relaxados e silenciosos (leves) do que nunca.

Bons treinos 🙂

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.