XIV Cross de Montanha da JOBRA – Novamente surpreendido!

XIV Cross de Montanha da JOBRA

14 de abril de 2019. Branca, Albergaria-a-Velha. Por volta das 10 horas e 40 minutos. Estou por baixo de um pórtico e por cima de um piso que me é conhecido. Mas por pouco tempo.

Acabou de soar! Um disparo sonoro que equivale ao tiro de partida do XIV Cross de Montanha da JOBRA. Uma curva à esquerda e já corremos em direção à relva húmida e à floresta local.

 

Aquela escalada leva tempo. Demasiado tempo para a minha adrenalina, habituada a outros ritmos quando acicatava pela vertente competitiva.

 

Estou com receio. Ao mesmo tempo, curioso. É a minha segunda prova de montanha. Dois anos após a experiência marcante na Serra da Estrela (12 Km Manteigas – Penhas Douradas). Apesar de desta vez não ser sempre a subir, não espero qualquer tipo de facilidades.

Na verdade, revelo dificuldade em projetar o que se avizinha. Bem, pelo menos sei que são duas voltas, o que significa que após a primeira metade da aventura já não estarei mais no escuro. Existe uma luta pelo posicionamento. Sei que é importante. Mesmo assim, prefiro não me esticar muito. Pouco depois, uma autêntica parede surge diante de nós e logo percebo que tomei uma boa decisão. Entro a trote na colina de terra, à semelhança de todos os que fazem parte daquela fila indiana com camisolas de várias cores.

 

Penso que vou ficar melhor. Porém, quando vejo a tabuleta que assinala 1 km, logo me sinto estúpido. Ainda só passou 1 quilómetro?!

 

A subida parece não ter fim. Sensivelmente a meio, a minha mente começa a praguejar e a insultar-me. Aquela escalada leva tempo. Demasiado tempo para a minha adrenalina, habituada a outros ritmos quando acicatava pela vertente competitiva. Entretanto, o trote vira caminhada em jeito corcunda e não tenho coragem ou fôlego para sossegar a minha mente. Até que …

… a ascensão termina! Oh yeah! Penso que vou ficar melhor. Porém, quando vejo a tabuleta que assinala 1 km, logo me sinto estúpido. Ainda só passou 1 quilómetro?! WTF? Como posso assim enfrentar este irritante sussurro no ouvido que não pára de praguejar?

Segue-se um pouco de terreno “plano”, naquele que é o dicionário florestal, e entrada numa descida. Longa e vertiginosa. A sapatilha lisa não ajuda e o piso molhado pela chuva das últimas horas retira-me a pouca tração que podia ter.

 

… atrás de mim vem gente destemida. Atletas a quem ganhei terreno na subida … e que agora se aproximam rapidamente, como se algum animal selvagem e perigoso viesse em sua perseguição.

 

Vou indo. Não sei se a patinar, se a esquiar, mas com todos os cuidados possíveis. Tento usar os braços e os músculos das pernas para contra-balançar a força  que me impele para a frente, sob risco de perder o controlo, cair, e ir por ali abaixo. Penso: aí que amanhã o meu quadríceps femoral vai se queixar tanto. Ok, admito. Na altura pensei “coxa” e não o termo técnico. Mas ele cumpriu a promessa das dores até ao dia de ontem.

Estou de novo a descer. Para ajudar à festa, atrás de mim vem gente destemida. Atletas a quem ganhei terreno na subida, com a minha passada curta mas de alta rotação, e que agora se aproximam rapidamente, como se algum animal selvagem e perigoso viesse em sua perseguição.

Estou ali pela experiência e pelo desafio. Os meus principais objetivos são outros e não os quero comprometer. Assim sendo, a minha primeira preocupação é arrumar-me para onde puder. Caso contrário, quem vem atrás, sem travões ABS, se me encosta ainda me manda por ali abaixo. Fico simpático e até lhes faço sinal. Na estrada ferro-me todo para não ser ultrapassado. Ali até abro-alas e convido.

 

Eu também tento retribuir o incentivo com a palavra “força”. Quando tenho energias para esta se tornar audível.

 

À medida que a prova avança, as posições vão cimentando e eu vou ficando cada vez mais isolado. Considero um bom acontecimento. Seja para as subidas, onde passo melhor e já não vou ter competidores à minha frente a dificultar-me a ultrapassagem nos caminhos mais estreitos. Seja nas descidas, cuja “única” preocupação passa a ser descer o melhor possível com a sensação de segurança.

Pelo meio, vou apanhando atletas da prova feminina que partiram uns minutos mais cedo do que os homens. Não atrapalham. Aliás, têm o cuidado de se arrumar quando sentem gente a aproximar-se, e a maioria ainda nos incentiva com palavras. Muito apreciável e motivador, tendo em conta que já levam mais 10 minutos do que nós naquela batalha intensa contra a montanha. Eu também tento retribuir o incentivo com a palavra “força”. Quando tenho energias para esta se tornar audível.

 

O estado de choque só passou quando completei a primeira metade da prova. Poderia dizer que foi por voltar a pisar a estrada nesta transição de voltas. Mas não!

 

Na estrada, o espírito é muito positivo. Contudo, aqui aparenta chegar a um outro nível de companheirismo. Estará relacionado com os desafios impostos pela montanha, que mesmo a serem percorridos a um ritmo controlado, requerem sempre esforço e sofrimento? Provavelmente. Preciso de mais provas para o confirmar e sentir. Isso agora …. primeiro vou precisar é que o tempo suavize as dificuldades deste cross, que este ano se realiza em simultâneo com o Campeonato Distrital de Montanha.

Para ser franco, durante a prova, parede após parede, muito me lembrei de amigos atletas que ainda há bem pouco tempo eram presença assídua nas provas do Campeonato de Montanha de Atletismo. Eles nem imaginam o valor que lhes dei ao longo destes 10 km, à medida que a minha cabeça me atormentava.

O estado de choque só passou quando completei a primeira metade da prova. Poderia dizer que foi por voltar a pisar a estrada nesta transição de voltas. Mas não! Foi mesmo porque já sabia o que esperar a seguir. A partir daqui, a minha mente sossegou. Para além de saber o que aí vinha, entendeu que não adiantava reclamar até que eu chegasse à meta.

 

Não esperava que a montanha se revelasse uma caixa de surpresas desta dimensão.

 

Mais tranquilo, e, em alguns momentos, num estado mais meditativo, fui percebendo várias coisas ao longo dos 5 km finais.

Ao contrário do que julgara, a experiência em Manteigas pouco me valeu. O impacto do Cross da JOBRA foi muito forte. Não esperava que a montanha se revelasse uma caixa de surpresas desta dimensão. Por outro lado, foi um Às de trunfo que recolhi e que agora tenho guardado para usar em momentos de sofrimento de desafios futuros.

 

Na estrada, quando se vai a competir, “caminhar é morrer”. Não em termos físicos, mas psicológicos. Na montanha, a história é outra.

 

Por esta altura, poderia dizer que as provas de montanha exigem mais que as da estrada em termos mentais. Mas será mesmo isso? Apenas isso? Ou uma questão de “mudar o chip” do costume para outro totalmente diferente?

No meu caso, com apenas 2 provas no currículo, ainda não tive tempo suficiente para encontrar o “chip” certo. Um exemplo claro disso mesmo é o caminhar e correr durante a prova. Na estrada, quando se vai a competir, “caminhar é morrer”. Não em termos físicos, mas psicológicos. Na montanha, a história é outra. Em alguns momentos, é mais compensador ir a caminhar do que a correr, como eu próprio vivenciei. Alturas em que iam atletas à minha frente, a trote, enquanto eu, a caminhar atrás deles, continuava sem descolar. Mas isto para entrar na cabeça de um atleta de estrada é complicado.

 

Talvez a grande diferença seja eu ainda não saber lidar com as provas de montanha.

 

As provas de montanha pertencem ao atletismo. Se sou apaixonado por ele, não posso olhar de maneira assim tão diferente para estes desafios que continuam a ter aquilo que tanto me cativa: corrida, competitividade e superação. Colocando as minhas preferências de lado, pois essas existem sempre, talvez a grande diferença seja eu ainda não saber lidar com as provas de montanha.

Um pouco perdido nestas deambulações, com a minha posição final mais ou menos definida, e a cruzar os desafios da segunda metade de forma controlada (dentro do possível), passei bem melhor os 5 quilómetros finais. Mais leve e tranquilo, tive ainda energia para correr bem rápido quando voltei ao meu habitat natural para cortar a linha de meta, naquele que foi mais um dia marcante na minha jornada pelo mundo do atletismo.

 

Foto do Artigo: Sandra Teixeira

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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