Uma questão de ganhar bagagem!

velocidade - atletismo de pista

Assim o recomenda Mário de Carvalho. Sobre a escrita de ficção que, por sua vez, vai desaguar à literatura. Ora eu, enquanto leitor, tenho o privilégio (ou a limitação; é uma questão de perspectiva) de interpretar e imaginar aquilo que leio segundo a minha personalidade, a minha memória, e as minhas ideias. Como resultado, acabo muitas vezes por transpor os textos com que me deparo para os principais temas da minha vida. Não de uma forma forçada, mas automática, sendo eu obrigado a parar a leitura para reflectir sobre isso. Da última vez que tal se verificou, estava a reler uma passagem do livro “Quem disser o contrário é porque tem razão”, do supra citado autor. Mas porquê na segunda e não logo na primeira vez? Bem, esse já é um acontecimento que vem de trás. Um leitor minimamente experiente saberá que, quando se lê um livro duas vezes (neste caso, uma passagem) , a primeira leitura nunca é igual à que lhe sucede. Neste caso em concreto, fica a ideia que era o chip do meu lado atlético que estava mais activo (talvez porque tinha prova no dia a seguir) quando reli as seguintes palavras.

 

É importante que o leitor constitua o seu próprio pecúlio, e com essa bagagem parta apetrechado para a escrita, convocando, além da sua própria vivência, todas as obras de arte que leu e viu e que andarão, algumas, perdidas e baldeadas nos refegos da memória.*

 

Felizmente, à data da publicação deste artigo (não da ideia de escrever o texto), já tive oportunidade de competir em corta-mato, montanha, pista, e até em estrada, em época de pandemia. À excepção desta última superfície, antes de 2021, contabilizava poucas aventuras nas outras vertentes. Agora, esses números já melhoraram. Voltando a Mário de Carvalho, este acumular de experiências corresponde ao tal ganho de bagagem que dá nome a este texto e que o autor menciona no seu livro.

Na realidade, mesmo no asfalto, onde já corri tanta vez, há sempre algo a aprender. Estas lições acumuladas, este virar de páginas, aumentam o nosso potencial de sermos melhor sucedidos do que anteriormente. Apenas por experiência própria, arrisco até generalizar: na segunda vez em que corremos uma distância, melhoramos o registo em relação à primeira. Ou porque na estreia “partimos o motor”, ou porque fomos demasiado conservadores. É difícil colocar o ritmo certo quando nunca se sentiu nas pernas as dificuldades do percurso ou da extensão do evento. Por outro lado, quando temos uma bagagem e um pecúlio repleto de dicas e apontamentos (às vezes até por excesso, ao ponto de ofuscarmos os mais importantes no meio de tanta informação; mas antes isso do que não ter qualquer referência) é mais fácil regular a máquina para se chegar a um melhor registo. Em último caso, isso acontece por intervenção do conhecimento que anda perdido nos tais “refegos da memória” e que não deixa a parte consciente correr a seu bel-prazer.

Posto isto, a pergunta a fazer é: como alargar e desenvolver essa experiência, tão benéfica para os nossos desempenhos? Ou, se antes preferirem, como potenciar esse “amadurecimento desportivo”? Mais uma vez, pego nas palavras de Mário de Carvalho:

 

Leia muito, leia por gosto, leia por curiosidade, leia por desfastio, leia por obrigação, leia por indignação, mas leia, leia, leia de tudo, sem preconceitos nem reservas. Há quem diga que com os livros maus se aprende mais do que com os bons. O leitor que vai iniciar-se na escrita literária precisa de um património, precisa de recursos, precisa de provisões, como alguém que vai enfrentar uma rota esplendorosa de paisagens, mas de longo curso e piso acidentado.*

 

Traduzindo isto para a vertente desportiva, onde as conjugações do verbo “ler” dão lugar ao “correr”, o resultado que me surge é o seguinte. Apresento-o em novas, visto que me parece ser de mais fácil entendimento:

  • O treino tem de ser contínuo quando se ambiciona chegar a algum lado;
  • Deve existir um amor genuíno pela modalidade. Caso contrário, por maior que seja o potencial, quando a cabeça não quer, nada feito. Acredito que só com este sincronismo seremos capazes de dar o nosso melhor, entender o que isso significa em termos de sensações, e até perceber o quanto somos capazes de aguentar em momentos de maior dificuldade ou sofrimento.
  • Quando a cabeça está infestada de preocupações e o corpo electrificado com stress, a corrida será dos melhores medicamentos para limpar a cabeça e purificar a alma. E até temos duas escolhas: um treino onde se leva a máquina ao limite (não há como distrair do treino, pois o esforço físico é grande), com vista a exterminar temporariamente os assuntos que nos estão a azucrinar a cabeça; ou então correr com tranquilidade e aprecisar a paisagem, caso as “dores de cabeça” não sejam assim tão grandes e baste uma dose mais leve do “comprimido”.
  • Há também que competir naquelas provas que não gostamos, ou onde não somos bons, mas que reconhecemos serem importantes para o nosso progresso ou acumular de vivências.
  • De igual modo, correr sem preconceitos e sem reservas é tapar os ouvidos às vozes que só nos mandam competir quando achamos que estamos bem. É enfrentar os dias menos bons, atravessá-los de cara levantada, pois só assim é possível perceber que nem sempre tudo corre como estava em perspectiva, quer isto se converta num resulto acima ou abaixo das expectativas.
  • Os resultados não fazem de nós melhores ou piores pessoas, sendo muito mais importante alargar horizontes. Insisto: competir sem reservas, nas diversas distâncias, em várias situações, em diferentes momentos de forma, com competidores aleatórios e trazer lições de todas essas aventuras.
  • De facto, aprendemos muito mais com as provas más do que naquelas onde obtemos bons resultados. Há corridas cujos registos podem não valer um chavo, mas os ensinamentos que trazemos de lá podem significar recordes pessoais em corridas futuras, bem como soluções para outros problemas da nossa vida.
  • Por último, mas igualmente relevante: não esquecer (nem menosprezar!) as amizades que surgem no seio de todo este aglomerado de experiências a partir das quais a nossa bagagem cresce. Em cada distância existem faixas etárias predominantes. Ao percorrermos todas elas com o mínimo de regularidade, estamos a contactar com pessoas mais velhas do que nós, mais novas, da nossa geração, e a aprender com todos eles. E não sejamos modestos: estamos também a ensinar alguma coisa.

 

Isto foi o que eu extraí da citação de Mário de Carvalho e decidi partilhar convosco. Todavia, ainda em termos pessoais, permitam-me partilhar algo mais no que toca a constituir um pecúlio. Em todos os momentos maus, há sempre algo de positivo que podemos tirar. A pandemia (por mais que eu tivesse já a ideia em equação) veio reforçar a minha participação no atletismo de pista de uma maneira que eu não previa. A pista é um lugar acolhedor, divertivo, mas onde, até agora, não me sinto totalmente confortável a competir (é possível que atinja esse conforto no futuro). No entanto, está a proporcionar-me grandes aprendizagens, pelo que, nos próximos anos, conto passar boa parte do meu tempo lá, mesmo que as provas de estrada regressem em força. Quando não venho encantado com a minha prestação, venho com a alegria da diversidade de provas a que assisti, e das lições novas que aprendi (de borla!).

Boas corridas!

 

Bibliografia:

Mário de Carvalho (2014). Quem disser o contrário é porque tem razão. Porto Editora; p.28

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

Imagem de Capa: Vlad Vasnetsov do Pixabay

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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