Corta-Mato, Pista, Estrada, Montanha: Tudo reuniões de trabalho!

corta-mato - reuniões de trabalho no atletismo

Continuo na inevitável senda dos paralelismos entre o atletismo e a vida em geral. Desta vez, viro-me para o mundo do trabalho. A “culpa” é da COVID-19 que, por esta altura, tem as costas (demasiado) largas para tudo o que é problema. Com o (tão desejado) regresso das competições, já participei em corta-matos, provas de pista e, no passado dia 25 de abril, regressei à montanha. Como tal, fica apenas a faltar o meu piso favorito: a estrada.

Enquanto isso não acontece, dou por mim a absorver estas últimas aventuras e a reflectir sobre elas. Nomeadamente, sobre as exigências físicas e psicológicas, naturalmente diferentes, de cada uma. Talvez um dia escreva um texto sobre isso. Por agora, quero apenas chamar à atenção, segundo o meu entendimento, que todos estes eventos representam, à sua maneira, importantes reuniões de trabalho. Em todos estes lugares, através da força do colectivo, é possível: desenvolver competências individuais, partilhar ensinamentos, reforçar ou purificar o estado de espírito de um colectivo (empresa), ou mesmo publicitar um produto/activar uma marca no mercado. Seguem-se as explicações.

 

A Montanha – Team Building

O espírito de camaradagem é muito evidente no atletismo, na grande maioria das disciplinas. Todavia, algumas sobressaem pela negativa, outras pela positiva. Neste último grupo, englobo as provas de montanha, onde existe uma força maior que o espírito competitivo. Refiro-me às grandes dificuldades dos percursos (em concreto, “paredes”, cujas diferenças de ritmos entre os atletas que correm ou caminham chegam a ser nulas), que nos roubam toda a concentração. Os atletas percebem o “inimigo” que têm pela frente, esqueçendo quaisquer querelas que possam ter entre si. Portanto, quando houver mau ambiente no seio de uma equipa, ou necessidade de fortalecer a força do seu colectivo, o melhor é o seu responsável proporcionar um evento de “team buiding” (muito em voga por estes dias) na montanha. O prolongamento dos efeitos está garantido para as 72 horas seguintes, nas quais o “andar novo” a descer degraus será também partilhado por todos.

 

A Pista – Congresso Interno

Caro leitor, peço-lhe agora que tente ter uma ideia dos congressos dos partidos políticos, das ordens profissionais, ou de outro tipo de organizações. Eventos que às vezes duram por mais do que um dia e onde existe espaço para vários discursos e debates sobre assuntos que estejam na ordem do dia. Pois bem, o atletismo de pista, parece-me, pode ser visto dessa forma. Isto é, uma reunião desta comunidade desportiva, com exibições dos seus vários departamentos (disciplinas), ao mesmo tempo que nas bancadas do recinto, os congressistas que não estejam a discursar (actuar na pista), estão a criar novas relações, a fortalecer outras, e a transmitir ensinamentos. Tudo isto, ao mesmo tempo que vão deitando o olho ao que se passa nos vários púlpitos (tartan, relva, caixa de areia, etc …)

 

Corta-Mato – Entrevista de Emprego

Estes desafios, bastante versáteis, tanto podem realizar-se num terreno plano e fofinho como, por força da chuva, em autênticos pantânos. Além disso, obstáculos e valas podem ser acrescentados ao percurso, numa espécie de marca pessoal dos seus criadores. Ou devo antes dizer, entrevistadores? Sim, porque, ao contrário da montanha, este terreno pode ser comparado com a fase (por vezes longa) de entrevistas para um cargo numa empresa. Quando os candidatos são muitos e as vagas são poucas, costuma ser um conjunto de testes a fazer a selecção dos mais aptos para a função a preencher. Neste contexto, e ao contrário da montanha, o indivíduo descarta o seu espírito de camaradagem e concentra todas as energias nas tarefas que tem pela frente, na esperança de se afirmar como o melhor. Os terrenos planos e secos podem ser vistos como as entrevistas menos exigentes, onde não existe grande probabilidade do candidato ser surpreendido pelas dificuldades (perguntas) que tem pela frente. Já no caso de pântanos e lamaçais, existe uma mensagem tácita do tipo: vai pelo meio do trilho, pela esquerda, pela direita, por onde quiseres. Mas safa-te! Se ficares enterrado em algum buraco ou poça, temos pena, voltas a casa para afinar as tuas capacidades e recandidatas-te na próxima oportunidade.

 

A Estrada – Vertente Comercial

As corridas de estrada podem ser vistas como aquelas exposições que, ao longo do ano, as empresas participam a fim de divulgarem os seus produtos e angariarem novos clientes. Por outras palavras, este tipo de competição traduz-se no momento em que os atletas saem à rua para, de alguma forma, conquistarem o público presente (mais fãs, ou mais atletas para o desporto). E, mediante a capacidade de persuação (seja pelos resultados ou pelo carisma), a venda do “produto” atletismo pode atingir patamares de nível nacional e internacional e, como consequência, a chegada de novas partes interessadas (stakeholders), melhores condições de treino e de vida para os seus profissionais, entre outras benesses.

 

Termino apenas com uma nota para o segmento de Trail, ao qual peço imensa desculpa por não fazer referência. Sendo essa uma actividade na qual ainda não pousei os pés, não quero falar sem primeiro sentir a terra e a pedra que fazem parte dessas aventuras. Sem respirar esse ar puro, sentir-me insignificante ao ser engolido pelas paisagens belas, e espreitar cá para baixo do alto das montanhas. Fica para um dia destes.

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

 

Créditos Imagem do Artigo: farmama do Pixabay

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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