O domínio dos africanos nas provas de atletismo – As minhas conclusões

Geoffrey Kamworor - Vencedor Maratona Nova Iorque 2017

Os recorrentes desempenhos extraordinários de atletas oriundos de países da África Oriental, como Quénia, Etiópia, Uganda, Somália, têm cavado um fosso cada vez maior em relação a atletas de outros países e continentes, no que diz respeito às provas de atletismo do meio-fundo e fundo.

As diferenças tornaram-se tão óbvias e tão naturais que no grupo do “resto de mundo” parece ter-se impregnado a mentalidade derrotista que considera a elite africana de uma outra galáxia. Não! Não pode ser assim! Caramba, eles são nossos vizinhos, não são extraterrestres.

Ouçam lá. Se vos colocarem à frente dois artigos da internet, dos quais um esconde o plano de treinos de um atleta africano e o outro de um atleta do segundo grupo, em qual deles se vão sentir mais tentados a clicar? Não é no do africano? Então, meus caros, é porque vocês lá no fundo reconhecem a igualdade entre as duas partes, apenas aliada ao reconhecimento pelas melhores prestações dos africanos. Se eles fossem de outra galáxia, o plano nem serviria para nós, logo para quê o ler?

Posto isto, e tendo em conta que todos nos interrogamos e estamos sempre à espreita para descobrir os “segredos” dos atletas africanos para o seu domínio neste tipo de provas, cá estou a fazer uso deste meu espaço para também dizer o que penso sobre o assunto. Isto é, para salientar os aspetos que para mim estão a pautar esta diferença tão grande entre os dois grupos.

 

Alimentação

Desprovida de alimentos processados. Desprovida de alimentos cuja produção é cada vez mais artificial e menos natural. Hoje em dia, é nos cada vez mais difícil escapar a este tipo de alimentos. Por muito que se queira! A fast-food por vezes sabe bem, é barata, e super acessível. O marketing sobre a chamada “alimentação desportiva” ganha força a cada dia que passa. A carne e a fruta em particular já não vem dos nossos campos e animais. Sabemos lá de onde é que vem …

No caso dos africanos, embora este possa ser um cenário de certa forma indesejado (reflexo da pobreza que se faz sentir sobre o continente!), a verdade é que a alimentação deste povo é muito mais simples e natural que a nossa. O corpo agradece e o rendimento desportivo sobressai.

 

Estilo de vida

Os relatos que fui lendo ao longo dos últimos anos levam-me a usar a seguinte palavra para caracterizar o estilo de vida dos atletas desta região do globo: simplicidade! Um compromisso de cada vez e a apreciação de coisas tão simples como uma sesta, uma refeição, o convívio com os nossos vizinhos e familiares.

Já nós, não só temos a mania que somos multi-tarefa, como ao mesmo tempo somos vítimas de uma das doenças do século (o stress!), dado o conjunto de compromissos que urgem a todo o momento. O próprio trabalho, em muitos casos, antecipa-se e estende-se muito para lá do horário acordado.

Por outras palavras, o que ganham eles e perdemos nós com tudo isto? Tranquilidade, relaxamento, repouso e, muito importante mesmo, a capacidade de concentração e apreciação daquilo que estamos a fazer a cada instante das nossas vidas.

 

Altitude

Esta era inevitável, não é verdade? Os resultados estão mais que comprovados. Eles devem-se sentir às mil maravilhas quando chegam cá abaixo. O fator que estará a incrementar o “turismo desportivo” naquele território, pois cada vez mais atletas procuram garantir condições para lá estagiarem.

Este será o tópico deste artigo que nos poderá fazer sentir incapacitados para fazer frente aos atletas africanos. Porém, não pode servir como justificação para tudo. Não pode servir como justificação para um domínio tão avassalador deste grupo.

O atletismo é como os outros desportos, no que toca a albergar atletas mais talentosos e aptos do que outros. De igual modo, terá também atletas de trabalho árduo, capazes de marcar a diferença em competição para outros dotados destas vantagens. Se isso quase nunca acontece, poderemos ter aqui um indício que, para além da altitude, o compromisso com o treino dos atletas africanos poderá ser maior que o nosso.

 

Treino Conjunto

Treinar em grupo é sempre mais fácil que treinar sozinho. No que aos treinos mais duros e intensos diz respeito, o ideal é termos alguém com ritmo semelhante ao nosso. Dessa forma, e tal como nas provas, não só temos alguém a nosso lado para competir e dar um bocadinho mais de nós (adrenalina!), como mais facilmente nos conseguimos abstrair do esforço. Contudo, se por algum motivo um dos atletas estiver num dia mau, o treino já não terá o efeito desejado. Quer para ele, quer para o amigo.

Pergunta. Quantos de nós treinam sozinhos? Muitos. Quantos de nós treinam em dupla? Alguns. Quantos de nós treinam em grupo? Pouquíssimos!

Outra pergunta. Como são alguns dos treinos dos africanos? Com 40 e 50 corredores! Resumindo, ali há sempre alguém com quem competir, esteja o atleta num dia mau ou num dia excelente. Há sempre companhia naquele vasto pelotão, independentemente do ritmo praticado. Como em competição, há sempre motivo para lutar, para sofrer mais um bocadinho. Porque se não for possível ficar à frente do atleta X, atrás vem o atleta Y que não pode passar à frente de maneira nenhuma. O jogo da presa e do predador está sempre ativo.

 

Os quilómetros (descalços) acumulados desde cedo

Se colocarmos um miúdo português de 10 anos a correr ao lado de um africano da mesma idade, o mais certo é o segundo já ter o triplo ou o quádruplo dos quilómetros nas pernas em relação ao seu concorrente. Uma vantagem imediata que poderá ser atenuada ao longo dos anos, pois a certa altura deixará de ter interesse (ou mesmo qualquer efeito!) acumular quilómetros nas pernas, passando a ser unicamente importante o foco na intensidade do treino.

O que fica a faltar então? O fortalecimento das solas dos nossos pés! A moda do correr descalço! A qual não temos que ser adeptos ou praticantes, mas que nos deve alertar para a importância do fortalecimento dos nossos pés.

Somos corredores, preocupamo-nos com tantos músculos e, de maneira quase incompreensível, descuidamos a parte do nosso corpo que faz a ponte entre nós e o solo. Resultado? Não temos a estabilidade e conforto que os nosso amigos africanos têm, resultantes de muitos quilómetros descalços que obrigaram os seus pés a desenvolverem-se, enquanto os nossos estiveram sempre protegidos pelo conforto do calçado.

 

Conclusão

Assim termino a minha opinião sobre os fatores que originam diferenças tão grandes nos desempenhos dos atletas africanos em relação aos seus adversários no atletismo do meio-fundo e fundo.

No entanto, ficou-me ainda a faltar um tema neste artigo: a mentalidade que predomina em cada um destes grupos! Um tópico que deixei de propósito para futuro, quando fizer uma investigação mais aprofundada sobre ele. A parte psicológica tem um grande impacto no rendimento de qualquer atleta, pelo que adivinho um artigo exclusivamente dedicado a este ponto. Os interessados fiquem atentos 😉

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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