Hakone Ekiden – A corrida universitária japonesa com 218 km de extensão

Hakone Ekiden - A corrida universitária japonesa com 218 km de extensão

Há dias atrás, realizou-se mais uma edição da Wings for Life. Uma corrida diferente de todas as outras que, com muita pena minha, deixou de se realizar em Portugal. Porém, aproveitando a onda desta competição original que marca presença nos 4 cantos do mundo, hoje decidi falar-vos da Hakone Ekiden (também designada: Tokyo-Hakone Round-Trip College Ekiden Race).

Só tive conhecimento desta prova nos últimos meses, graças à visualização do anime “Kaze ga Tsuyoku Fuiteiru” (título em inglês: “Run with the Wind“). Uma série sobre atletismo, cuja minha análise podem ler na íntegra no ptAnime, adaptada do livro de Shion Miura com o mesmo nome.

Sem mais demoras, vamos então conhecer melhor este evento que se aproxima rapidamente da centésima edição. A primeira aconteceu no ano de 1920, com as únicas interrupções a surgirem na altura da Segunda Guerra Mundial.

 

O que é a Hakone Ekiden?

Uma corrida universitária de estafetas que liga as cidades de Tóquio e Hakone. A prova realiza-se sempre nos dias 2 e 3 de janeiro, contabilizando um total aproximado de 218 (217.9 para ser preciso) quilómetros de extensão.

No primeiro dia, as equipas percorrem 108 quilómetros exatos. No segundo, a distância de 109 mil e 900 metros (109.90K). Em ambos os casos, as distâncias estão distribuídas por 5 secções, contabilizando um total de 10. As secções têm todas a distância aproximada de uma meia-maratona, mas variam um pouco entre si.

As equipas são compostas por 10 elementos, pois cada atleta não pode correr mais do que uma secção. Contudo, podem ser inscritos mais alguns (desde que cumpram certos requisitos) para o caso de um dos participantes ter algum contra-tempo. A prova é exclusivamente masculina.

Embora se trate de uma corrida de estafetas, não é o habitual testemunho que os atletas passam entre si. Estes transportam uma faixa, de nome original tasuki, que deve ser transmitida nos 20 metros seguintes ao cruzamento da linha que demarca o fim e o início entre uma secção e outra.

 

Hakone Ekiden - Transmissão da tasuki

Transmissão da tasuki na Hakone Ekiden (Anime: Kaze ga Tsuyoku Fuiteiru)

 

No segundo dia de competição, a prova tem início às 8 horas da manhã, com o regresso à estrada da universidade que terminou em 1º lugar no dia anterior. A partir desse momento, as restantes equipas retomam a prova com base no tempo perdido no primeiro dia para a universidade que segue na frente.

Ou melhor, isto não acontece com todas. De forma a tornar a competição mais animada, TODAS as equipas que no final do primeiro dia tiverem um atraso superior a 10 minutos para a frente da corrida arrancam precisamente 10 minutos depois do líder. Quando terminarem a prova, o restante tempo perdido no dia 1 será acrescentado ao tempo final.

Mas não é tudo no que diz respeito a atrasos! Segundo foi possível apurar, em cada secção, os atletas não podem ter mais de 20 minutos de atraso para o primeiro a completá-la. Quando isso se verifica, o atleta da equipa atrasada que aguarda a chegada do companheiro que está em prova acaba por iniciar o seu percurso sem este chegar até si. Como nestes casos a transmissão da tasuki não acontece, o atleta que parte adiantado leva uma outra tasuki que assinala devidamente a situação em que se encontra. Quando o seu colega atrasado completar a secção em que corre, o tempo extra será também somado ao total da equipa.

 

Hakone Ekiden – Lista de Secções

 

 Ponto de PartidaPonto de ChegadaDistância
Secção 1Ootemachi, TóquioTsurumi, Yokohama21.4 Km
Secção 2Tsurumi, YokohamaTotsuka23.2 Km
Secção 3TotsukaHiratsuka21.5 Km
Secção 4HiratsukaOdawara18.5 Km
Secção 5OdawaraLago Ashi, Hakone23.4 Km
Secção 6Lago Ashi, HakoneOdawara20.8 Km
Secção 7OdawaraHiratsuka21.3 Km
Secção 8HiratsukaTotsuka21.5 Km
Secção 9TotsukaTsurumi, Yokohama23.2 Km
Secção 10Tsurumi, YokohamaOotemachi, Tóquio23.1 Km

 

Como nasceu a Hakone Ekiden?

Shizo Kanakuri, atleta olímpico japonês, considerado o pai da maratona no Japão, foi o principal criador e impulsionador da Hakone Ekiden. Esta sua ideia ganhou força em 1917, após Shizo Kanakuri participar numa prova de estafetas de 516 km que ligou Tóquio a Quioto durante 3 dias.

Inspirado por esta sua aventura, e defensor da existência de uma prova de longa distância para os atletas japoneses universitários, Kanakuri conseguiu tornar o seu projeto realidade no ano de 1920. A primeira edição da prova contou com a participação de 4 universidades. O evento é exclusivo da região de Kanto, que engloba várias cidades.

 

Hakone Ekiden – Processo de Qualificação

Atualmente, já são mais de 20 os institutos de ensino que marcam presença nesta prova tão especial. Porém, não são todas as universidades da região. Muito pelo contrário! Existe um processo de qualificação para esta prova, dotada de uma componente fixa e uma outra mais variável. Passo a explicar.

As 10 primeiras classificadas da edição mais recente da Hakone Ekiden ficam automaticamente apuradas para o ano seguinte. Isto é garantido!

Posto isto, outras 9 universidades conseguem a tão ambicionada vaga através da corrida: 20km Hakone Ekiden Yosenkai. Uma prova que se realiza todos os anos no mês de outubro, onde se qualificam as universidades que tiverem menor tempo somado nos registos dos seus primeiros 10 atletas a cortarem a meta.

Por fim, é criada uma última equipa, denominada “Kanto Region University Student United Team“. Esta reúne os atletas com melhores tempos individuais na prova de qualificação, cujas instituições que representam não conseguiram o apuramento para o grande evento.

Segue-se um vídeo amostra da prova: 20km Hakone Ekiden Yosenkai, no qual também é possível verificar a maneira como são reveladas as equipas apuradas para a Hakone Ekiden.

 

 

Acontece que os últimos dois pontos não são assim tão restritos.

Primeiro, porque a “equipa-seleção” de atletas individuais mencionada no parágrafo anterior nem sempre marcou presença. Esta dream team esteve ausente na 90ª edição da prova e quando regressou foi com uma versão atualizada das suas regras de participação. De realçar que os seus atletas mesmo que registem recordes nas secções, ou mesmo que a equipa vença a prova, tais feitos são ignorados, pois o foco são as universidades. Por outras palavras, esta é uma “presença fantasma” que permite a atletas com registos meritórios marcarem presença nesta grande festa do atletismo e da educação.

Segundo, porque por vezes abrem mais vagas. Em 2019, em jeito de celebração da edição 95 da prova, a organização decidiu alargar o número de equipas participantes a 23.

 

O sucesso da Hakone Ekiden

A verdade é que no Japão, um país que vive intensamente o atletismo, não faltam provas semelhantes a esta. Mas então, o que distingue a Hakone Ekiden das outras provas de estafetas de longa distância? O que catapultou este evento para a ribalta, ao ponto de o tornar o maior do ano no Japão, em termos desportivos?

Após toda a investigação que fiz sobre este assunto, as razões parecem-me ser várias. Todavia, com origens diferentes, sendo precisamente isso que lhes dá tanta força quando se interceptam.

 

A projeção institucional

Do ponto de vista institucional, está em jogo a rivalidade entre universidades. A glória e o prestígio possíveis de alcançar na Hakone Ekiden terão certamente grande impacto no marketing positivo da instituição no futuro próximo, assim como nas escolhas dos próximos alunos a atingirem esta fase da vida estudantil.

 

O posicionamento no calendário civil

Ao nível do calendário, o facto da Hakone Ekiden se realizar a 2 e 3 de janeiro é também uma grande vantagem. Numa altura em que se comemora a mudança do ano civil, as famílias encontram-se reunidas em suas casas por estes dias. Uma vez que a prova tem transmissão em direto, e se prolonga por várias horas, para muitos o acompanhamento da mesma já é uma tradição.

Naturalmente que também é reflexo do interesse que este desporto suscita no país, pois o acompanhamento que se verifica na estrada durante a prova também é muito significativo.

 

A internacionalização da prova

Não no sentido da publicidade à Hakone Ekiden fora do país do Sol Nascente. De facto, a maioria de vocês, leitores, provavelmente nunca tinha ouvido falar nesta prova até aterrarem neste artigo. No entanto, resultado dos estudantes estrangeiros que fazem parte das universidades envolvidas, por vezes a prova conta com participações de atletas já conceituados internacionalmente, ou com potencial para isso num futuro próximo, como é o caso de alguns atletas africanos. Felizmente para o Japão, os casos não são assim tantos ao ponto de comprometerem o patriotismo do evento.

 

Hakone Ekiden - Kaze ga Tsuyoku Fuiteiru

Hakone Ekiden (Anime: Kaze ga Tsuyoku Fuiteiru)

 

Especificidades das várias secções

Como vamos ver mais à frente, cada secção do percurso tem as suas particularidades. Deste modo, a prova evita estar sujeita à monotonia que muitas vezes acompanha os trajetos totalmente planos. De referir também as regras cronométricas que se verificam no arranque do segundo dia e na transição entre secções. Estas acabam por aproximar os atletas uns dos outros e injetar-lhes motivação, apesar de mais tarde ser acrescentado ao tempo total da equipa os devidos atrasos.

 

A troca de atletas e o seu carácter emocional

A mudança de atletas entre secções é garantia de ritmos vivos ao longo de toda a prova e de uma maior imprevisibilidade nos comportamentos das equipas de uma perspetiva mais global.

Convém não esquecer que estamos a falar de estudantes universitários. Uma fase das nossas vidas em que já somos adultos, mas ainda se nota a falta de experiência e até de maturidade em muitas das nossas ações e comportamentos. Adaptando isto à parte competitiva do atletismo, tal significa sermos mais susceptíveis ao entusiasmo, às emoções e sentimentos que nos invadem, e uma maior irreverência. Quando em prova nos deixamos dominar por estes fatores, a nossa prestação torna-se muito mais imprevisível e, consequentemente, entusiasmante para o público que está a acompanhar o evento.

 

Hakone Ekiden – Caraterísticas do Percurso

No segundo dia de competição, os atletas fazem o trajeto inverso ao que os seus companheiros percorreram na véspera, ainda que com pequenas diferenças. Basta ver que as distâncias associadas às secções são todas elas diferentes.

Mas há mais! Cada secção tem caraterísticas exclusivas, ao nível do terreno (altimetria), do público, da paisagem, e até das condições climatéricas. Vejamos algumas notas que consegui reunir.

 

[2 de Janeiro – Dia 1]

Secção 1: Ootemachi, Tóquio – Tsurumi, Yokohama (21.4 Km)

Percurso plano na sua grande maioria. Secção muito importante, pois ao ser a primeira define o posicionamento das equipas no início do evento. Com vista a não comprometerem a prova nos 20 quilómetros iniciais, as equipas costumam colocar nesta secção um dos seus melhores corredores. O tiro de partida soa às 8 horas da manhã.

Secção 2: Tsurumi, Yokohama – Totsuka (23.2 Km)

Tradicionalmente, aqui costuma marcar presença o corredor mais rápido de cada umas equipas. Percurso bastante exigente, tendo em conta as duas subidas longas e inclinadas que os atletas têm pela frente.

Secção 3: Totsuka – Hiratsuka (21.5 Km)

Marcada pela forte presença do público e por vistas maravilhosas para o Monte Fuji e para a Baía de Sagami, este não é um percurso fácil, tendo em conta as fortes correntes marítimas que por vezes ali se fazem sentir.

Secção 4: Hiratsuka – Odawara (18.5 Km)

A secção mais pequena de todas. Pautada por um sobe e desce constante, torna-se difícil para os atletas manterem os seus ritmos.

Secção 5: Odawara – Lago Ashi, Hakone (23.4 Km)

Depois da mais curta, a secção mais longa. Na etapa que fecha o primeiro dia de prova, os atletas têm pela frente rampas bastante exigentes que os levam até aos 800 metros de altitude.

 

Hakone Ekiden – Edição 94 (2018) [Dia 1]

 

 

[3 de janeiro – Dia 2]

Secção 6: Lago Ashi, Hakone – Odawara (20.8 Km)

Depois de uma parte inicial em subida, os atletas têm pela frente descidas vertiginosas que massacram com grande intensidade os músculos das pernas. Em pleno inverno, com o retomar da prova agendado para o mesmo horário do primeiro dia (8 horas da matina), os participantes desta secção costumam correr mais agasalhados que os restantes companheiros por se tratar de uma zona particularmente fria.

Secção 7: Odawara – Hiratsuka (21.3 Km)

A secção onde se verifica a maior diferença de temperatura entre os pontos de partida e chegada. Para além disso, após uma primeira parte plana, os atletas têm pela frente algum sobe e desce na segunda parte desta iteração.

Secção 8: Hiratsuka – Totsuka (21.5 Km)

Ainda que tenha bons troços de plano, esta secção tem na sua segunda metade uma rampa que normalmente coloca grandes dificuldades aos atletas. É também por esta altura da prova que as equipas começam a perceber se estão dentro ou fora das 10 primeiras e a reagir ao consequente ponto da situação.

Secção 9: Totsuka – Tsurumi, Yokohama (23.2 Km)

A secção mais longa do segundo dia de prova. Pautada por várias descidas, é por esta altura que as posições finais se começam a fixar.

Secção 10: Tsurumi, Yokohama – Ootemachi, Tóquio (23.1 Km)

A última secção da Hakone Ekiden é praticamente toda ela plana, mas conta muitas vezes com a presença de fortes rajadas de vento. Nesta derradeira etapa, a carga emocional é maior do que em qualquer outra secção. Incentivados e espicaçados pelo apoio do público, os atletas vão ao limite numa luta renhida pelo prestígio das universidades que representam, não esquecendo nunca a importância da qualificação automática das instituições para a edição seguinte da Hakone Ekiden.

 

Hakone Ekiden – Edição 94 (2018) [Dia 2]

 

 

Mapa da Hakone Ekiden

 

 

Hakone Ekiden – Recordes das Secções

A vitória final na Hakone Ekiden não é a única parte da competição a conferir grande prestígio aos seus eleitos. O atleta mais rápido a percorrer cada secção também recebe grande destaque. Atenção! Não confundir com o que termina primeiro o percurso, pois pode ter partido também primeiro. Existe mesmo uma tabela de recordes de cada secção, que todos os anos os participantes tentam superar. Se a maioria dos recordes é relativamente recente, outros já começam a ficar velhinhos.

 

 LigaçãoDistânciaRecordeAno em que foi estabelecidoAtletaUniversidade
Secção 1Ootemachi, Tóquio - Tsurumi, Yokohama21.4 Km01h01m06s2007Sato YukiTokai
Secção 2Tsurumi, Yokohama - Totsuka23.2 Km01h06m04s2009Mogusu MekuboYamanashi Gakuin
Secção 3Totsuka - Hiratsuka21.5 Km01h01m26s2019Homare MoritaAoyama Gakuin
Secção 4Hiratsuka - Odawara18.5 Km01h00m54s2019Akira AizawaToyo
Secção 5Odawara - Lago Ashi, Hakone23.4 Km01h16m15s2019Yuuhei UranoKokugakuin
Secção 6Lago Ashi, Hakone - Odawara20.8 Km00h57m57s2019Yuji OnodaAoyama Gakuin
Secção 7Odawara - Hiratsuka21.3 Km01h02m15s2018Keisuke HayashiAoyama Gakuin
Secção 8Hiratsuka - Totsuka21.5 Km01h04m05s1997Tetsuhiro YoshidaYamanashi Gakuin
Secção 9Totsuka - Tsurumi, Yokohama23.2 Km01h08m01s2008Jun ShinotoChuo Gakuin
Secção 10Tsurumi, Yokohama - Ootemachi, Tóquio23.1 Km01h08m59s2007Genta MatsuseJuntendo

 

O significado de correr na Hakone Ekiden

Para um estudante que tenha a oportunidade de correr a Hakone Ekiden, acredito que o sentimento esteja próximo do sentido aquando de uma participação nos Jogos Olímpicos. Assim sou forçado a concluir. Se a prova em si já é tão especial por todos os aspetos que fui enumerando ao longo deste artigo, então imagine-se o quão mais deve ser para os participantes que têm de passar pela fase de qualificação.

Para lá de tudo isto, e indo um pouco ao encontro das ideias do seu principal responsável, Shizo Kanakuri, a Hakone Ekiden fomenta a projeção e a evolução do atletismo no Japão, em paralelo com a educação. Numa primeira fase, no interior das próprias universidades, mais tarde, na competição entre elas.

Por fim, como já deixei escapar em cima, volto a referir que este evento é considerado o maior em termos desportivos do calendário civil japonês. Para lá da aderência em massa nas estradas, estamos a falar de uma transmissão televisiva com uma longevidade de 10 horas, distribuídas por 2 dias, que atinge valores de share televisivo a rondarem os 30%. Incrível!

 

Fontes:

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.