Ensaio sobre a Competição – Capítulo 3

Ensaio sobre a Competição

De costas para o portão da rua de minha casa, tenho duas escolhas: ou vou para a esquerda, ou vou para a direita. Para não estragar a consistência dos últimos dias (ou serão já semanas?!), viro à direita e começo a correr. Os muros e as habitações que rodeiam a estrada afunilam o ambiente e, de certa forma, sinto-me enclausurado, sem vista para o horizonte. Costumo pensar que não ver o horizonte é não ver o futuro, é estar fechado numa bolha do presente. Uma bolha que é apenas benéfica quando não lhe é sugada a esperança do que está para lá do agora.

Ainda não passou um minuto de corrida e o cenário muda de figura. Agora sim, bom dia mundo! Uma visão de cerca de 180º, num grande raio de acção, pois foram-se as construções que me apertavam o cerco. Já esperava esta mudança, pelo que o impacto não dura muito e a minha concentração vira-se para outro lado. Não para a estrada, a qual já conheço de cor e os meus pés sabem onde têm que pisar. As minhas atenções focam-se na “minha máquina”, numa tentativa de perceber o que posso esperar ou tentar na corrida de hoje.

Porém, não tenho tempo de chegar a conclusão nenhuma. Logo na primeira curva após iniciar este processo, o meu raio de visão capta, do outro lado da estrada, uma rapariga a correr. O tempo de cruzamento é uma mera fracção de segundo e não permite qualquer reacção, pois, enquanto eu curvo para entrar nesta nova estrada, ela curva, do outro lado e na direcção oposta, precisamente para sair dela. Dá apenas para ter um vislumbre da face daquela jovem, o suficiente para eu ficar em choque. Aquela rapariga estava no sonho que tive esta noite! No pelotão de atletas que seguia atrás de mim. Tenho a certeza!

Posto isto, qualquer que fosse o treino que estivesse à minha espera neste dia, ele bem que esperou por mim até ao dia seguinte, ou depois. Porque aquele vislumbre tudo mudou! Entrei em piloto automático – o que quer que isso tenha implicado – e continuei a correr, perdido em pensamentos e reflexões. É mais forte do que eu! Isto já aconteceu anteriormente, com mais 2 ou 3 caras, mas não consigo deixar de ficar intrigado a cada repetição, precisamente porque me falta a explicação. Aquele sonho tem de ser mais do que isso, tem de ser outra coisa qualquer!

Então interrogo-me: estas pessoas, que marcam presença no meu sonho e que também encontro a correr nas bermas das estradas, será que estão no sonho porque as vi primeiro na realidade? Ou será que todas elas existem mesmo – embora eu não identifique muitas daquelas caras – e cruzar-me com elas na vida real é um mero acaso? Não existe nevoeiro naquele sonho! Os detalhes das pessoas e dos objectos são todos perceptíveis à luz do belo dia de Sol que o pinta, o que me permite perceber outra coisa: também existem corredores com quem me cruzo na realidade e que não identifico naquele sonho tantas vezes repetido.

Quanto mais penso em tudo isto, mais confuso fico. Por mais que tente, não consigo perceber qual das partes é a origem e qual é o reflexo. Contudo, a recorrência daquele sonho – por si só anormal – lado a lado com a sua clareza, leva-me também a ponderar se o dito cujo não será uma espécie de profecia? Ou um conjunto de memórias perdidas dos meus antepassados? Esta segunda hipótese cai logo por terra, pois se vejo algumas destas pessoas nos dois lados da contenda, então tem de ser presente ou futuro. Aliás, eu estou lá a correr também, o que reforça esta minha ideia.

Assim, a teoria da profecia sobrevive. Mas poderá isto acontecer mesmo? Num futuro próximo? Volto a recordar todo o cenário. Um grupo enorme de pessoas – todas elas com expressões bastante estranhas nas suas faces e a remeterem para o sofrimento – a correrem na direcção de um pórtico como se não houvesse amanhã, vestidas de maneira diferente do dia a dia desportivo, no meio da estrada e sem sombra de carros, e com um grande número de curiosos nas bermas a manifestarem-se de diferentes formas.

Da mesma maneira que fico entusiasmado quando sonho com isto, agora sinto essa mesma excitação sem saber explicar porquê. Estou quase convencido que isto poderá ser mesmo uma profecia. Espera – digo para mim, mas não para as minhas pernas, pois estas continuam a correr – será que estas caras que encontro nas duas dimensões também são invadidas por este mesmo sonho? Quem sabe … Os cruzamentos com estas pessoas são escassos, e eu não sou propriamente uma pessoa com irreverência para, do nada, me colocar a correr ao lado de alguém e lhe perguntar se tem sonhos recorrentes com várias pessoas a correrem no meio da rua. Isso soaria bastante estranho a quem está do outro lado, não?

Acabo por deixar a última pergunta sem resposta. Estou a chegar a uma das zonas mais movimentadas do meu percurso e,  cerca de 30 metros à minha frente, um carro está a buzinar incessantemente para um grupo de ciclistas. Reparo que o sítio está com mais movimento que o normal, até que se inicia uma troca de insultos verbais desagradáveis entre o condutor e os ciclistas e a minha atenção volta-se novamente para eles. Todavia, são apenas os meus olhos que estão a apontar para o conflito, visto que a última constatação começa a fazer eco na minha cabeça: o sítio está com mais movimento que o normal … mais movimento que o normal … mais movimento que o normal!!! Então, digo em voz alta para quem quiser ouvir: “Hoje é domingo!”, só me apercebendo da minha estupidez depois de terminar a frase. Mas para quê preocupar-me com isso, quando tinha chegado à conclusão que eu sentia ser a mais importante de todas? Agora que puxava a cassete da memória atrás, era capaz de jurar que aquele sonho, aquela profecia?!, só me invadia em noites do fim de semana. Dava até para ir mais longe! O sonho surgia quase sempre ao domingo, ainda que me lembrasse de o ter num ou noutro sábado, em jeito de excepção. Mas sempre ao fim de semana. Porque seria?

FIM?!

 

Ensaio sobre a Competição – Capítulo 1

Ensaio sobre a Competição – Capítulo 2

 

Nota: Este texto é meramente ficcional. Ainda que alguns aspectos possam ter como base a realidade do autor, o texto não deve ser confundido ou encarado como um reflexo exacto da vida do mesmo.
Ensaio sobre a Competição está escrito em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico.

 

Imagem de Capa: 微博/微信:愚木混株 Instagram:cdd20 do Pixabay

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.