Ensaio sobre a Competição – Capítulo 1

Ensaio sobre a Competição

Não sei o que aconteceu ou como vim aqui parar. Incompreensivelmente, estou a correr no meio da estrada. À minha frente, um grupo de pessoas faz o mesmo. Correm em fila indiana, de uma maneira tão organizada que, à distância, quem tiver problemas de visão pode facilmente confundi-los com um comboio em movimento. Por mais estranho que pareça, não há carros na rua. As bermas estão ocupadas por alguns curiosos que gesticulam, aplaudem, parecem até gritar algo, à medida que passo por eles, mas não dá para entender o quê.

Ainda incrédulo com a ausência de carros, olho à minha volta, com o último movimento a ser para trás. E é então que fico escandalizado. Uma grande multidão persegue-me! Alguns estão mesmo atrás de mim, outros lá ao longe. Estamos todos malucos? O que nos deu para virmos para a faixa de rodagem?

Logo depois, reparo que toda aquela gente transporta uma espécie de papel com um número, na frente das suas t-shirts. O termo “t-shirts” é, sem dúvida, um exagero da minha parte, pois em causa estão camisolas de alças, no caso dos homens, e tops desportivos, no caso das mulheres. Volto a olhar em frente e, logo de seguida, por mim abaixo. Não é que também tenho um número e uma camisola de alças? Mais estranho ainda, tenho até uma peça rectangular qualquer agarrada ao atacador da sapatilha que uso no pé direito. Mas o que é isto?

Esta onda repleta de surpresas só é interrompida quando, por instinto, volto a olhar para o lado. Um corredor está a ultrapassar-me, e com uma cara de grande sofrimento. Nesse instante, sem saber explicar muito bem o que vai dentro de mim, o meu corpo sente vontade de reagir, de não admitir aquela ultrapassagem. Acelero em jeito de resposta, mas o máximo que consigo fazer é manter-me ao lado daquele indivíduo.

Alguns metros mais à frente, começa a aumentar o número de pessoas nas bermas da estrada. Porém, esses curiosos e entusiastas – assim me parecem pelas suas caras- encontram-se agora atrás de barreiras, com cerca de 1 metro de altura, que alguém decidiu colocar na fronteira que separa as bermas da faixa de rodagem. Mas será correcto chamar “faixa de rodagem” ao chão que piso neste momento? Não há veículos aqui! Sem perceber nada do que se está a passar, uma voz dentro de mim diz-me para não deixar fugir o atleta que está ao meu lado.

Entretanto, no horizonte, começa a ganhar forma uma espécie de pórtico. Não! Ainda que possa condescender e admitir que esteja numa faixa de rodagem, não me parece que chegue ao ponto de isto ser uma auto-estrada ou via rápida para apanhar portagens. Segundos depois, ainda sem entender o significado daquele pórtico ali, verifico que alguns dos corredores que seguiam à minha frente estão a parar logo após o cruzarem.

A minha distracção com aquela espécie de portal só termina quando, num movimento brusco e espalhafatoso – provavelmente devido ao esforço – o corredor que acompanho olha de relance para mim. Ao encará-lo, este faz uma careta ainda de maior sofrimento – quando eu julgava que tal já não era possível – e tenta deixar-me para trás. Ele parece estar no seu último fôlego, como se deixar-me apeado fosse uma coisa de vida ou morte. A voz no meu interior faz-se ouvir outra vez. Desta vez ela grita-me que tenho de cruzar aquele pórtico antes dele. Ignoro-a, mas apenas por uma questão de concordância, pois antes dela berrar já eu sentia ser isso que queria fazer.

A intensidade do momento envolve-me. Apesar das várias acções-reacções para algum de nós ganhar vantagem, eu e aquele corredor continuamos lado a lado. Atrás das barreiras, a multidão gesticula mais efusivamente do que nunca. Continuo sem as conseguir ouvir, não percebo o que querem, e estou meramente focado em cruzar aquele pórtico primeiro que o meu, devo dizer, adversário?! Faltam cerca de 100 metros, e agora consigo ver um contador de tempo por baixo do pórtico, assim como a palavra “Meta”. 80 metros. 50 metros. 30 metros …

Return of the Mack
Get ’em, what it is, what it does, what it is, what it isn’t …

Sinto a cabeça na almofada, o corpo de lado, com uma perna à frente da outra, como se estivesse a meio de uma passada de corrida. Estico o braço para o telemóvel e tento deslizar um dedo no sítio certo do ecrã para desligar o alarme. Como em grande parte das ocasiões, as primeiras tentativas falham e a música continua a tocar:

Looking for a better way to get up outta bed
Instead of getting on the Internet
And checking on who hit me, get up

Mais desperto, mas também mais desesperado por devolver o silêncio ao meu quarto, lá consigo silenciar o despertador que assinala as 8 horas da manhã. Espero algum tempo para voltar a sintonizar-me com a realidade, após várias horas de ausência da mesma, até que me ergo e sento-me na beira da cama. Não sei muito bem o que pensar. Outra vez aquele sonho? Mas porquê?

Continua …

 

Ensaio sobre a Competição – Capítulo 2

Ensaio sobre a Competição – Capítulo 3

 

Nota: Este texto é meramente ficcional. Ainda que alguns aspectos possam ter como base a realidade do autor, o texto não deve ser confundido ou encarado como um reflexo exacto da vida do mesmo.
Ensaio sobre a Competição está escrito em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico.

 

Imagem de Capa: 微博/微信:愚木混株 Instagram:cdd20 do Pixabay

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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