Skip to content
Correr uma Maratona em modo Treino: Experiência em Barcelona

Correr uma Maratona em modo Treino: Experiência em Barcelona

Quando me inscrevi para a Maratona de Barcelona deste ano, a minha intenção era fazer uma boa preparação para a prova e tentar melhorar o meu recorde pessoal na distância. E quando já tinha inscrição feita na prova e a parte logística essencial alinhavada, eis que surge uma lesão que me impede de correr por cerca de 3 semanas, seguidas de tantas outras cheias de limitações e de cautelas, até finalmente repor a “normalidade” do treino, em tempo e intensidade, e regressar às provas de 10K.

Logo após o virar do ano, tive boas sensações na São Silvestre de Espinho (num ritmo ainda controlado), mas duas semanas depois, na Meia-Maratona Manuela Machado (Viana do Castelo), ficou claro que, em distâncias maiores, estava fortemente condicionado. Em resumo, a faltar menos de dois meses para a Maratona de Barcelona, eu não só estava longe da minha melhor condição para competir, como ainda tinha muitas incertezas sobre como o meu corpo iria reagir à sucessão de treinos longos e de intensidade moderada-forte que por norma preenchem o meu plano para uma maratona. Com este cenário em cima da mesa, que juntava a possibilidade de voltar a lesionar-me (se corresse demasiados riscos durante o treino) com o meu fraco momento de forma, pareceu-me sensato “mudar o chip” logo ali.

Assim sendo, e para não coabitar com a dúvida e o stress diários (a meu ver desnecessários) sobre que abordagem fazer no grande dia, optei (com excepção de um ou outro treino mais longo, que também serviram para reavaliar a minha recuperação/ausência de dor em treinos mais prolongados) por ir à procura da minha forma de outros tempos em distâncias mais curtas, orientando os meus treinos específicos para aí. À medida que o tempo passava, a tentação de inverter o processo e ainda arriscar na maratona foi-se mitigando, já que a ausência de uma preparação específica reforçava a minha intenção de ir apenas treinar a Barcelona.

As coisas acabaram por correr bem. No entanto, fazer esta abordagem, numa mente competitiva e mais orientada para os resultados, numa distância como a da maratona (que é muito longa e, seja feita a correr no limite ou em ritmo moderado, nunca está isenta de momentos mais complicados) tem algo que se lhe diga. É uma decisão que parece fácil, mas que envolve alguma resiliência e capacidade de reorientação, que por vezes só a experiência nos concede. Afinal de contas, o “mudar de chip” que menciono em cima era mais um “desligar”. Eu não estava a mudar de um objectivo para outro que fosse realmente importante para mim, nem estava “em missão” para alguém, pelo que, na primeira parte da prova fiquei ali um bocado a navegar. Então (e mesmo estando a par da grande satisfação que é cortar a meta de uma maratona, depois de percorridos os 42 quilómetros e 195 metros), como manter a motivação numa distância tão longa? Como reorientar a mente para a “qualidade da experiência”? Bem, antes de mais, tinha boas expectativas em relação ao ambiente na cidade, durante a prova, e tentei focar-me nele desde o princípio: por via de pequenas interacções com o público; a observar a cidade, com alguma minúcia, à medida que corria e passava pelos locais ou grupos de pessoas; Depois, o facto de ser a primeira vez que ali estava conferia um efeito de oportunidade que tentei valorizar, pois não sei quando vou regressar àquela cidade. Por estas vias, lá consegui desfrutar.

Porém, a parte mais específica do rendimento trouxe mais algumas razões para estar ali, pois descortinei aspectos importantes que são muito complicados de replicar fora da maratona propriamente dita.  Nomeadamente:

  • A “programação” do intestino. Como a maratona é uma prova tão longa, a possibilidade de ter de ir à casa de banho durante a corrida é sempre um cenário em cima da mesa. Pessoalmente, no que toca a este assunto, já tive várias complicações em maratonas anteriores, pelo que o stress vai sendo cada vez maior, a não ser que se consiga inverter o processo e recuperar algum alívio. Em Berlim não tive problemas, e desta vez também não. Por mais que se treine, o intestino é sempre uma incógnita nestas alturas, porque não é apenas a prova que é diferente, como também, no caso de viagens ao estrangeiro, as rotinas dos dias e das horas que rodeiam a prova acabam por ser diferentes do quotidiano. Para se criar e afinar uma estratégia que funcione no meio de todas estas modificações, só mesmo uma simulação real de correr uma maratona num local diferente.
  • Ainda dentro do mesmo tema, há também o treino do organismo, no que diz respeito à absorção da alimentação ingerida durante a prova. Olhando mais uma vez para o meu caso pessoal, em algumas das maratonas que corri nos últimos anos, acabei por prescindir do gel que tinha programado para uma altura próxima dos 35 quilómetros. Tal aconteceu porque nessas alturas sentia o meu organismo a rejeitar qualquer coisa que lhe desse. Num dos casos, estava mesmo com uma ligeira sensação de vómito e a regurgitar qualquer resquício de géis anteriores. Ora, num treino longo, onde por norma não vou além dos 34K, fica mais difícil de chegar a este ponto de stress na parte do treino alimentar.
  • A experiência da distância: o corpo, sobretudo as pernas, precisam de correr a maratona para afinar as sensações. A teoria é sempre muito diferente da práctica e, numa distância que corro tão poucas vezes, toda a experiência acumulada no corpo é bem-vinda, para a gestão do esforço e reconhecimento dos sinais, em futuras maratonas. Aliás, no que toca a sensações, só na estrada se percebe que tudo pode mudar muito rapidamente. Ainda agora em Barcelona, para lá dos 30 quilómetros estava bem e senti-me tentado a aumentar significativamente o ritmo, para acabar mais depressa. Acabei por não forçar o andamento e deixar o corpo regular esse aumento, que acabou por ser mais subtil. Só decidi assim porque na minha primeira maratona também estava muito bem nesta altura da prova, forcei um bocadinho, e nem dois quilómetros depois estava a sofrer para manter o ritmo que tinha antes de aumentar a velocidade. Essa foi uma experiência que ficou bem gravada.
  • (Outra vez) a experiência da distância, mas agora na mente. Não me refiro à questão da mentalidade forte, até porque quem treinar com muita dedicação para a prova, no dia vai ter como combustível toda essa resiliência que desenvolveu durante os meses de treino. Estou antes a apontar à questão da paciência e à moderação do entusiasmo. Numa prova destas com tanto público, é fácil o atleta deixar-se envolver pelos gritos de apoio e correr demasiado rápido. Uma condição que é difícil encontrar em treino, e que em provas mais curtas não castiga o atleta da mesma maneira.
  • A parte logística e da meteorologia também requerem uma simulação real e exigem adaptações que podem ser diferentes a cada aventura. Dos meios de transporte a utilizar para a partida (na impossibilidade de se ir a pé), passando pelo pequeno almoço e pelo acordar ainda mais cedo que o normal, além das inspecções que algumas provas têm antes de os atletas poderem aceder aos recintos onde se encontram os blocos de partida, não esquecendo a parte da meteorologia (ainda desta vez foi inédito: com sol forte na 6ª feira, muita chuva no sábado, e sol outra vez no dia da prova, pelo que é preciso ter cuidado com estas mudanças). Tudo isto requer tempo e cuidados, a fim de minimizar incidências e stress exagerado nestas alturas: ter passado por diferences situações ajuda a reagir melhor a cada nova adversidade.

Concluindo, no que ao meu caso em particular diz respeito, não estou nada arrependido de ter adoptado esta estratégia para Barcelona, dadas as sensações que tive durante a prova e a qualidade desta aventura. Mas fica a interrogação: correr uma maratona completa como treino pode ser um exagero? Para um atleta que esteja em boa forma, a treinar bem, com bons níveis de confiança, e cujo histórico recente de maratonas seja positivo (ou seja, não tem nada a moer-lhe o juízo de provas anteriores), um treino deste tipo pode não se justificar. Contudo, para quem: não corre uma maratona há muito tempo e tem uma que lhe é muito importante em vista (como um Campeonato de Maratona); precisa de recuperar confiança antes de voltar a correr uma maratona mais perto do limite do esforço; ou até para treinar alguns dos pontos positivos de treino que aqui elenquei e que não são fáceis de treinar fora de uma simulação real, este tipo de abordagem (que no meu caso foi a consequência de uma adversidade) parece-me muito útil. Tudo isto, nunca desconsiderando o tempo que cada atleta precisa para completar a distância dos 42 quilómetros: três horas nas pernas não é igual a 5 ou 6 horas de esforço ininterrupto.

Boas corridas!

 

Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto.

O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

Back To Top