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Maratona de Barcelona 2026

Sobre a Maratona de Barcelona 2026

Após a minha participação na edição deste ano da Maratona de Barcelona, escrevo este texto para partilhar a minha perspectiva pessoal sobre o evento. Em concreto, sobre as características que normalmente são de maior interesse dos participantes, entre outras que, por algum motivo, despertaram a minha atenção. Sem mais delongas, passo aos detalhes, começando pelos pontos neutros.

A expo do evento é bastante discreta, quer em dimensão, quer nos expositores que agrega no seu interior. Não é um espaço que tenha facilidade em agarrar as pessoas por muito tempo. Pelo menos no seu interior. Do lado de fora, a história é outra, já que a expo está localizada num sítio bonito da cidade (junto ao Museu Nacional de Arte da Catalunha). A medalha da prova encaixa também nesta secção, embora isto seja muito relativo, pois o design costuma mudar a cada edição. A deste ano é satisfatória e fica-se por aí.

O último ponto neutro, que indirectamente pode ser bom, diz respeito ao preço das inscrições. A não ser que estejamos a falar da última fase (100€), os preços practicados nas primeiras fases de inscrição estão dentro daqueles que encontramos em provas de nível semelhante, ou até mesmo em maratonas de nível inferior: ou seja, há uma boa relação qualidade/preço. Dito isto, avanço para os pontos positivos que identifiquei, e que são vários.

O primeiro diz respeito ao espaço para os atletas aquecerem. Há uma longa avenida entre a zona de partida e a zona do guarda-roupa (sendo que esta última coincide, mais tarde, com a zona da meta) com bastante largueza e comprimento para os atletas aquecerem devidamente, além de outras ruas paralelas. Um espaço que nem sempre é fácil de encontrar em maratonas com um número de participantes acima dos 20 ou 30 mil.

O segundo ponto, que é inédito para mim desde que participo em maratonas, mas que talvez não seja caso único, diz respeito aos abastecimentos. Considero-me uma pessoa moderada e que geralmente tenta encontrar pontos de equilíbrio. Derivado disso, também aqui, o facto de em provas longas como a maratona se dar uma garrafa de água a cada atleta, em cada abastecimento, parece-me de facto um grande desperdício. De igual modo, o uso do copo em toda a linha não me parece um bom princípio, não só pela quantidade inferior, como pela facilidade de entornar boa parte dessa água (desperdício) durante o processo de agarrar o copo e beber. [Menos ainda, aquilo que a Maratona de Paris pretende fazer este ano de ter torneiras para abastecimento e obrigar os atletas a levar as suas garrafas e a parar para encher. Há muito mais gente a competir, ou a desafiar-se, nestas provas, para lá do pequeno grupo da elite (que tem abastecimento próprio), pelo que essas pessoas também têm direito a ter as melhores condições competitivas.] Em Barcelona, encontrei aquilo que me parece o mais ajustado para ambas as partes (competição e ecologia). Com abastecimentos a cada 2.5km (a partir do quilómetro 5 da corrida), a maior parte deles tinha água em copo, com alguns pelo meio em que os atletas tinham direito a uma garrafa. Pela minha percepção na prova, e pelo que está no guidebook do evento (nem sempre totalmente exacto), a relação deverá ter andado perto de 2/3 em abastecimentos com copo para 1/3 em garrafa.

Continuando (e não sei se é pelo que vou dizer a seguir que fazem dorsais tão grandes), correr uma maratona em Espanha tem um sabor especial porque o público lê os nomes dos atletas nos dorsais e depois incentiva-os com recurso a eles. Isto já me tinha acontecido em Valência e Sevilha, há uns anos, e agora em Barcelona não foi diferente, a não ser no termo utilizado. Dessas aventuras passadas, a memória traz-me o «ánimo, Renato». Desta vez, o que ouvi mais foi o (e espero estar a escrever bem) «venga, Renato». No entanto, o que me surpreendeu realmente foi este “uso do nome” nos abastecimentos da prova. Não sei se isso foi uma indicação da própria organização, mas, para lá do público que estava espalhado pelas ruas, este apoio diferenciado estava também muito presente nas pessoas que estavam ao serviço nesses locais. Claro que tudo ali se passa em escassos segundos. Seja como for, apraz-me dizer que estar a receber um abastecimento de alguém e ainda ter essa pessoa a chamar pelo meu nome, cria uma sensação (de muito curta duração) de proximidade entre as duas partes.

Um outro aspecto das maratonas que interessa sempre a muita gente é o seu percurso. Pois bem, em termos de dureza, o circuito da Maratona de Barcelona não tem nada de significativo a registar. Ele é maioritariamente plano, contendo apenas um ou outro pontão de curta distância, e algumas rectas em subida muito suave que os atletas depois também fazem em descida, igualmente suave e ainda mais agradável. De facto, creio até que o vento poderia ser um factor mais diferenciador do que as estradas em si, não houvessem as mudanças de direcção regulares ao longo do trajecto, pois em algumas zonas sente-se um vento frio e desagradável que oferece alguma resistência.

O último traço positivo a salientar, e que já abordei ligeiramente em cima, tem que ver com o público. Além das palavras endereçadas aos atletas, este apoio estende-se a toda a linha da prova, ainda que haja um crescimento notório à medida que os atletas avançam na distância. O que pode ter que ver com vários factores, tais como: o avançar da manhã, que automaticamente puxa mais gente para as ruas; o aumentar dos atletas em prova, pois nem todos partem logo às 8 horas e 30 minutos; o facto do público se concentrar mais na zona da chegada ou nos quilómetros que a antecedem; o aumentar das claques e grupos “contratados” pela organização para zonas específicas da maratona, com o avançar dos quilómetros, pois há bastantes mais na segunda metade da prova; e, por fim: na segunda parte do percurso, antes do regresso ao centro da cidade para se concluir a distância no Arc de Triomf, o circuito desloca-se para a zona da praia, onde há muitos outros corredores e ciclistas que andam por ali a treinar e que se juntam ao público presente para dar o seu apoio;

No que à parte negativa diz respeito, o único ponto que identifiquei na prova foi o controlo dos blocos de partida. Apesar dos dorsais terem diferentes cores e horários de partida, eu não encontrei “caixas fechadas” com seguranças a validar se o meu dorsal correspondia à zona que estava a aceder e se já estava na minha hora de partir. Aliás, à minha volta, na zona de partida, estavam dorsais de outras cores e, possivelmente, alguns deles associados a outros horários. Portanto, tendo em conta a experiência que tive ao dirigir-me para a zona da partida (livre acesso), com excepção para o bloco da elite, penso não houve qualquer tipo de separação ou controlo entre os restantes grupos, nem validação (por via de comprovativo) dos tempos submetidos pelas pessoas no processo de inscrição para pertencerem a determinados blocos.

Em jeito de conclusão, e para ser mais fácil situar esta prova em termos comparativos, a Maratona de Barcelona parece-me estar ao nível (ou muito próxima) daquilo que é a Maratona de Sevilha. Claro está que depende daquilo que cada pessoa procura neste tipo de eventos, e para isso servem os detalhes apresentados neste longo texto, mas sem dúvida que esta é uma prova com muita qualidade, sobretudo no que diz respeito à experiência durante a corrida, e com um preço que está na média, ou abaixo, dos practicados hoje em dia por outras organizações de nível semelhante. Além, claro, de Espanha ser vizinha de Portugal e dos custos logísticos extra-prova também serem, por norma, menores do que no caso de se ir correr para mais longe. Pessoalmente, estou grato a Barcelona pela experiência que me proporcionou.

Boas corridas!

 

Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto.

O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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