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Maratona de Sevilha 2020 – Análise

Quando em 2018 participei na Maratona de Budapeste, publiquei neste espaço um artigo de análise à minha prestação e um outro de avaliação do evento em si. Com a minha presença na Maratona de Sevilha deste ano, a ideia manteve-se. Assim, depois de reflectir sobre o meu comportamento na prova, chegou a altura de partilhar a minha apreciação do evento.

 

Véspera da Maratona de Sevilha

O sábado é aquele dia típico de visita à exposição da Maratona. O dia em que nos vemos rodeados por atletas dos vários cantos do mundo, que por sua vez faz a nossa motivação e entusiasmo disparar em igual medida com o nervosismo. Na exposição de uma maratona, não há como passar indiferente ou perder a vontade de correr, como se em causa estivesse um treino aborrecido.

No caso da Maratona de Sevilha, a história não é diferente. Instalada num grande pavilhão, a expo ganha forma pelas tradicionais tendas ocupadas por  diversas entidades, a maioria de vertente publicitária a eventos ou produtos. Esta não é uma exposição do tamanho da de Valência ou Amesterdão, mas ainda assim bastante considerável.

Em termos logísticos, fiquei com a ideia de estar bem organizada e dos seus voluntários estarem devidamente preparados para esclarecer os atletas. E digo isto porque tive contacto com eles, pois precisei de reajustar a minha box de partida, com recurso ao dorsal e pulseira que é entregue. Aqui, a única dificuldade pode ser a língua. Se não entenderem espanhol, pode haver uma quebra na barreira de comunicação, pois o inglês não será solução, e o português só às vezes.

Em relação à famosa pasta party, realiza-se no pavilhão ao lado do que acolhe a exposição propriamente dita. Ambos dentro do Palácio de Congressos e Exposições de Sevilha. A ementa é a tradicional massa, havendo espaço e voluntários suficientes para as filas de atletas e acompanhantes progredirem com celeridade na fila de atendimento e comerem à vontade. Aqui, nada de relevante a criticar ou elogiar.

 

Dia da Maratona de Sevilha

Logística

A organização das entradas e saídas nos recintos junto do pórtico de partida são bastante apertadas. Não num sentido de espaço físico, mas de rigor no que toca às autorizações concedidas. Os membros da organização validam os dorsais para concederem acesso ao espaço interior.

Esta situação verifica-se também no pós prova. O acesso às tendas para levantamento dos pertences que lá podemos deixar é feito, mais uma vez, através do dorsal. Se tivermos alguém a acompanhar-nos, essa pessoa continua sem poder aceder àquele espaço no pós-prova, pelo que o rigor mantém-se do princípio ao fim.

Por falar em rigor e em logística, o mesmo se verifica na entrega dos sacos com os nossos pertencentes para a organização guardar durante a prova (o famoso guarda-roupa). Na exposição, quando levantamos o dorsal, tudo a que temos direito é entregue num saco transparente. Esse saco deve ser o utilizado para entregarmos os nossos pertencentes ao guarda-roupa da prova. Existe uma referência a isso mesmo no próprio saco. Todavia, ela não é assim tão visível. Pelo menos eu não reparei, e acabei por levar um saco de cor com os meus pertences. Quando chegou o momento da entrega, não aceitaram o meu saco, pelo que tive que o guardar no transparente de um amigo.

Um aparte. Dentro do próprio recinto criado em torno da partida para os atletas, existe um parque apenas acessível aos atletas de elite/convidados pela organização, no qual estes podem aquecer livremente para a prova. Os “restantes” participantes não podem invadir essa zona.

 

Evento exclusivamente dedicado à Maratona

Em Sevilha, o evento só inclui a distância da maratona, desta feita em duas vertentes. A prova de atletismo, e a da cadeira de corras, que parte um minuto antes dos corredores, salvo erro.

Nesta edição de 2020, segundo a organização, o número total de participantes rondou os 13 mil e 700, distribuído por cerca de 90 nacionalidades diferentes.

 

Pacers para os atletas das 2h45

Das maratonas que conheço, a maioria delas costuma ter os famosos pacers, ou “balões”, se antes preferirem, a partir do registo das 3 horas de prova. No entanto, em Sevilha, confirma-se a existência de lebres para os atletas que têm como objectivo um tempo na casa das 2 horas e 45 minutos. Uma característica que merece ser destacada.

 

Abastecimentos

Zonas de abastecimento não faltam e todas elas têm o essencial: água! Depois entra a parte das bebidas isotónicas (também em todos os postos, segundo o regulamento), e alguns postos têm também géis e fruta.

Mais importante será salientar que os abastecimentos se verificam em intervalos inferiores a 5 quilómetros e que a água, na maioria dos postos, é oferecida em copo. Nos primeiros abastecimentos ainda se encontra água em garrafa, o que não se verifica mais à frente. Uma situação um pouco estranha, pois podiam espaçar os postos com água em garrafa ao longo do percurso em vez de colocarem sempre água em copo após os primeiros quilómetros.

Seja como for, quem falhar um abastecimento não tem de esperar muito até chegar ao próximo.

 

Percurso

A Maratona de Sevilha argumenta ser a mais plana da Europa. Bem, não andei com regra e esquadro e não conheço todas as maratonas da Europa, mas fiquei com algumas dúvidas em relação a isto. Primeiro, porque os atletas cruzam 2 vezes um túnel com um sobe e desce claro. Nada de muito exigente, embora suficiente para pôr logo o slogan da organização em causa. Para além disso, existem alguns falsos planos ao longo do trajecto. Inclinações ligeiras, mas ainda assim notórias a olho nu. Isto para dizer o quê? Que, por exemplo, quando corri a Maratona de Valência em 2017, fiquei com a sensação do percurso ser mais plano do que este.

Contudo, que isto não seja motivo de más interpretações ou de dúvidas. A prova não tem troços duros e sim, é quase sempre plana. De facto, quem procura melhorar o seu recorde pessoal na distância, tem aqui um excelente evento para isso. Simplesmente, o slogan da corrida deixa-me dúvidas quanto à sua veracidade como a “maratona mais plana da europa”.

De salientar também os monumentos e praças belíssimas que compõe a cidade de Sevilha. Sítios pelos quais os atletas têm o privilégio de passar e, se tiverem capacidade para isso, apreciar toda a sua beleza.

Ao contrário dos anos anteriores, desde a edição 2019 que a prova não tem contacto com o Estádio Olímpico de Sevilha, devido às obras em curso neste monumento. A partida e a chegada são agora no mesmo pórtico, situado no Paseo de las Delicias, que é bastante largo. Embora existam diversas “caixas de partida”, esta largueza é sempre importante para uma corrida com tantos participantes que não querem perder ali segundos preciosos na procura por um recorde pessoal.

 

 

Público

Muito bom! Fantástico! Especialmente no último terço de prova que, claro, é quando os atletas mais precisam. Na verdade, os primeiros 12 quilómetros têm muito pouca gente. A partir daí, o percurso conduz os atletas para o outro lado da cidade, na qual o público vai, aos poucos e poucos, começando a fazer-se sentir. Seja em presença, seja em animação e incentivo aos atletas.

Mais uma vez, tenho que tirar uns pontinhos em relação a Valência, e equiparar a Maratona de Sevilha à de Amesterdão neste aspecto. A prova holandesa também tem uma passagem por um canal que é um pouco deserta. Porém, em relação a provas como a do Porto ou de Budapeste, não há comparação possível. Reforço! Especialmente no último terço, o apoio é fantástico e quem ainda tiver forças (ao contrário do que aconteceu comigo), vai sentir-se galvanizado e um claro boost de energia nesta altura. Qual gel energético, qual quê!

Quero ainda acrescentar que li um ou outro relato a mencionar que em 2020 não esteve tanto público em Sevilha como em anos anteriores. Não posso reforçar ou revogar este ponto. Muito menos posso avaliar se o COVID-19 teve algum impacto neste aspecto. Acredito que não. Na altura do evento, já existiam casos confirmados em Espanha, embora um número muito reduzido. Mas se a prova costuma ter ainda mais gente, isso é animador para quem faz intenções de lá ir nas próximas edições.

 

Medalha e T-Shirt Finisher da Maratona

Neste tópico encontram-se os aspectos menos positivos da prova. A medalha da prova é bastante discreta. Quer isto dizer que não é bonita nem feia, sendo assim incapaz de agarrar o nosso olhar.

Relativamente à T-Shirt Finisher, verifica-se uma espécie de dilema entre garantir retorno financeiro com a sua venda e, ao mesmo tempo, tentar fazer alguma justiça ao seu nome: finisher. Passo a explicar.

No acto do processo de inscrição para a prova é possível pagar um valor extra para ter direito à t-shirt finisher da corrida. Quem optar por esta via, levanta logo a t-shirt na exposição da maratona, pelo que não entra nas contas o facto de terminar ou não a prova. Por outro lado, quem não “reservar” a t-shirt fnisher no processo de inscrição, não a pode comprar na exposição. O que pode fazer naquele pavilhão é comprar uma t-shirt igual, mas sem a palavra finisher. Porém, pode comprá-la no dia da prova, precisamente depois de terminar os 42 mil 195 e metros.

Ou seja, tendo em conta o sentido da palavra finisher, esta segunda possibilidade tem toda a lógica. Já a primeira, é apenas uma maneira de garantir um recebimento extra de cada inscrição, mesmo que isso signifique que alguns atletas recebam a t-shirt sem garantia de que vão terminar a prova. Resumindo, este duelo financeiro-logístico versus verdade desportiva fica a meio caminho de cada uma das partes, tentando não desiludir nem gregos nem troianos.

Nota: A t-shirt finisher da Maratona de Sevilha é de uso normal e não a pensar na práctica desportiva. Para o treino, é oferecido aos atletas um corta-vento impermeável.

 

 

Conclusão

De Sevilha voltei com o espírito completamente divido. Se da parte pessoal-competitiva regressei bastante triste, em termos de participação neste evento que Sevilha preparou para os atletas só tenho que dizer bem. Uma mistura explosiva que, quem sabe, me faça lá voltar para sobrepor a parte negativa que trouxe comigo desta vez.

Situações individuais à parte, esta é uma Maratona com o meu selo de recomendação. A etiqueta de Ouro que a World Athletics (ex-IAAF) atribui a esta prova parece-me adequada. Em cinco maratonas que participei, coloco a Maratona de Sevilha no pódio, numa disputa renhida com a de Amesterdão.

Por fim, para lá de tudo o que mencionei ao longo deste artigo, resta-me transitar para a prova a diversidade de atletas que naqueles dias se faz sentir na cidade espanhola e na exposição da maratona. Correr no meio de tantos atletas nacionais e internacionais é uma sensação incrível e que poucas provas conseguem oferecer aos atletas que não são de elite.

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

 

 

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