Altitude? Onde anda a Colômbia no atletismo e o Quénia no ciclismo?

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Já ninguém fica surpreendido com o domínio do Quénia e da vizinha Etiópia no atletismo de fundo. A maioria assimilou a altitude como explicação coerente para a supremacia destes povos. Um reconhecimento confirmado pela presença de muitos atletas profissionais estrangeiros em Iten – cidade conhecida pelo nome “Casa do Campeões” – para estarem sujeitos às mesmas condições de treino.

Se me perguntarem a mim sobre este assunto, tenho a dizer que acredito na forte influência deste fenómeno, mas que o sucesso destes atletas é resultado de muitos outros fatores. Se a altitude tem uma influência tão grande nos desportos de resistência prolongada, onde andam estas nações no ciclismo? Esta foi uma pergunta-protótipo que me fiz durante o término da última edição da Volta a Espanha em bicicleta.

Digo “protótipo” porque fui mais longe! Concluídas as três grandes voltas velocipédicas de 2019, uma nação sobressaí-se quando olhamos com atenção para os chamados “ciclistas voltistas”. Falo da Colômbia, que neste caso traz o vizinho Equador na sua roda.

No ciclismo, os colombianos estão claramente em ascensão. Egan Bernal venceu o Tour de France, Nairo Quintana e Miguel Ángel López fecharam no Top 5 da Vuelta, sem esquecer o duplo terceiro lugar de López nas edições de 2018 do Giro e da Vuelta. Já oriundo do país vizinho, o equatoriano Richard Carapaz venceu o último Giro d’Italia. Mais uma vez, os analistas apontam para a altitude como a grande vantagem que os sul-americanos têm em relação à concorrência.

Pois bem, olhando a estes e outros resultados de provas também animadas por colombianos, surgiu a versão final da pergunta que me conduziu a esta investigação: se a altitude está a marcar a diferença entre atletas nestes desportos, onde anda a Colômbia no atletismo e o Quénia no ciclismo? Será a altitude da América do Sul diferente da do continente Africano?

 

Uma questão de cultura e de estrutura

Começo pelo Quénia (em representação dos seus países vizinhos) e pela sua ausência no ciclismo. O talento por si só não é suficiente. As coisas só mudam de figura quando a ele se junta o esforço e a dedicação. Porém, num nível competitivo de topo, no qual as forças se apresentam muito equilibradas, podem ser outros elementos a fazer a diferença. Nomeadamente, a estrutura necessária para um projeto profissional de sucesso, à partida mais exigente no ciclismo do que no atletismo. Se um par de sapatilhas e uns calções são suficientes para exercermos a prática da corrida, as bicicletas exigem um investimento muito maior e a logística necessária para o treino é muito diferente.

Ora, não sendo os países da América do Sul propriamente ricos, as nações africanas são tendencialmente mais pobres, o que se torna uma condicionante extra para o ciclismo, pois este requer mais fundos. Todavia, mais do que a riqueza em questão, o potencial do atleta estará dependente da sua componente social e civilizacional. Uma espécie de código genético “manipulado” pelo modo de vida que o envolve. Como afirmei aqui anteriormente, esta parece-me ser uma vantagem muito importante dos africanos em relação aos atletas dos outros continentes. Eles começam a correr desde muito cedo. As pernas são o seu principal meio de transporte e quando chegam a adultos já têm muitos mais quilómetros nas pernas dos que nós, o que lhes é muito favorável em termos de condição aeróbica.

 

A evolução do ciclismo no continente africano

A grande pergunta que fiz na introdução deste artigo não é nova. Muito antes de mim, outras pessoas já a fizeram e reuniram o mínimo de condições para lhes dar seguimento. Isto é, com base na ideia dos africanos serem corredores de topo, tentaram fazer uso das suas vantagens para os transformar também em ciclistas de elite. Um trabalho base ainda sem grandes resultados, mas com o futuro em aberto. Assim se constroem os alicerces de qualquer projeto. Esta aposta irá colocar muitos cidadãos a pedalar mais cedo e com outras condições de treino, permitindo-lhes  mostrar o seu verdadeiro valor. Como diz a expressão: “Roma e Pavia não se fizeram num dia”!

Continuando a generalização do Quénia para África em geral, pequenas conquistas começam a aparecer. Além de um número cada vez maior de atletas em representação das nações da África subsariana nas provas de ciclismo mais mediáticas, de realçar a presença de uma equipa africana no lote das 18 que fazem parte da elite do ciclismo mundial: a Team Dimension Data for Qhubeka.

Pode dizer-se que esta equipa tem vários atletas nas suas fileiras que não são africanos e que lhe favorece este estatuto que media as equipas. Contudo, para o debate em questão importa realçar que a Dimension Data é uma bela “porta de entrada” para os ciclistas africanos no pelotão internacional. Com sede na África do Sul, esta é a nação mais representada neste coletivo do qual faz parte um eritreu: Amanuel Ghebreigzabhier.

Não esquecendo o etíope Tsgabu Grmay, que representa uma outra equipa World Tour, o caso mais curioso é mesmo o de Christopher Froome. Quatro vezes vencedor do Tour de France, Froome nasceu precisamente no Quénia, embora agora tenha dupla-nacionalidade e represente a Grã-Bretanha quando se tratam de provas entre países. Encontrar melhor elo de ligação entre o atletismo e o ciclismo seria impossível.

Tempo agora de viajar até à Colômbia e à cordilheira dos Andes.

 

A paixão colombiana pelo ciclismo

Colômbia, o país onde atualmente se focam todas as atenções dos agentes de ciclismo. Como Andrew Hood frisa no seu artigo publicado no Velo News, por esta altura todas as equipas querem ter ciclistas colombianos nas suas fileiras. Passo a explicar esta atração.

Impregnado no país há mais de 50 anos, o ciclismo tornou-se um modo de vida e uma paixão na Colômbia. Se em África é a corrida que movimenta as pessoas desde crianças, os colombianos recorrem à bicicleta para se mexerem. Com três cordilheiras dos Andes impregnadas no seu território, a zona “Andina” da Colômbia torna o país um verdadeiro carrossel de pressão atmosférica, oferecendo assim as melhores condições de treino para qualquer miúdo que deseje um dia tornar-se ciclista profissional.

Mas não é tudo! Na Colômbia, para lá da bicicleta como meio de transporte, encontra-se o outro ingrediente essencial: a paixão pelo ciclismo! Embora o futebol seja o desporto dominante (quem mais?), o ciclismo é também vivido com muita intensidade neste país da América do Sul. Basta ver a quantidade de bandeiras que aparecem durante as etapas das grandes voltas e que traz tantos colombianos à Europa por essas alturas.

Aliás, se fosse meramente uma questão de altitude, os colombianos não davam ciclistas, pois ninguém quer levar o corpo ao limite durante três semanas se não tiver gosto e vontade em desafiar-se e superar-se a si mesmo.

 

Origens, culturas, condições e paixões

Posto isto, salta a vista a importância da altitude para um maior rendimento desportivo nas provas de resistência prolongada. A par das condições culturais que envolvem o individuo, estes dois elementos demarcam atletas de alguns pontos do mundo em relação à concorrência. Ou seja, eles partem em vantagem ou desvantagem, consoante os casos, quando se dedicam à prática de um desporto.

Depois entram os outros dois fatores que têm uma margem de trabalho e evolução imensurável:

  • as condições de treino a que cada atleta tem acesso, sem contar com os benefícios geográficos de algumas regiões;
  • a paixão incontrolável pelo que se faz e que nos torna disponíveis para trabalhar e aperfeiçoar o mais ínfimo detalhe que possa melhorar o nosso rendimento desportivo;

 

O exemplo do nosso Portugal

Ainda sobre a paixão, e colocando a altitude fora da equação, não temos melhor exemplo que o nosso país. Portugal tem cerca de 10 milhões de habitantes e, no entanto, encontra-se no topo do futebol mundial. Não só temos excelentes condições de trabalho, como daqui saem os melhores jogadores e treinadores para os palcos mundiais mais mediáticos.

O país pára para ver um dérbi, um clássico, ou para apoiar a seleção sénior de futebol quando esta marca presença na fase final de um campeonato importante. Tudo resultado da intensidade e da paixão desmesurada com que os portugueses vivem este desporto e que tantas vezes provoca cegueira. Quero dizer, atos doentios, trágicos, violentos, criminosos e incendiários que nada têm a ver com a festa que deve ser o desporto.

A paixão resulta da inspiração e da admiração por alguém que nos é próximo ou que admiramos por intermédio da televisão, livros, internet, etc. Consoante os casos, o resultado dessa influência pode ser positiva ou negativa. Quantos miúdos portugueses não querem ser como o Cristiano Ronaldo? Ele é uma grande fonte de inspiração nos dias que correm para os mais jovens, sendo assim que uma coisa vive da outra.

De volta ao assunto, a Colômbia tem crescido muito no ciclismo por esta via. A intensidade com que vive o desporto torna os seus melhores ciclistas em influenciadores, potenciando cada vez mais esta prática no país. Por seu lado, este é o ingrediente que falta no Quénia, Etiópia e arredores. O ciclismo ainda diz muito pouco aos seus habitantes.

 

Conclusão

Se parece inquestionável que Quénia, Etiópia, Eritreia e arredores vão continuar a dominar o atletismo de fundo, uma maior aposta destas nações africanas no ciclismo, suportada por novas infraestruturas e condições de trabalho, deixa no ar a possibilidade destes atletas se afirmarem no panorama do ciclismo internacional nos próximos anos. À boleia dos seus representantes que se destacam no dias de hoje, estes países começarão também a viver o ciclismo com mais intensidade.

Continuando no mundo das bicicletas, os sul-americanos não se apresentam em grande número nas provas mais importantes (europeias), mas é caso para dizer que são poucos, mas muito bons! A continuidade desta ascensão e domínio dos colombianos no futuro das grandes voltas é uma possibilidade bastante real.

Apesar de ser europeu e torcer primeiramente por Portugal e pelos amigos do “Velho Continente”, confesso que esta ideia de poder assistir a duelos entre sul-americanos e africanos de topo no ciclismo e no atletismo me deixa entusiasmado e curioso. O cenário velocipédico parece-me o palco mais provável a médio-prazo para esta disputa, já que ver uma Colômbia ou um Equador com grandes resultados no atletismo de fundo nos próximos tempos parece-me improvável.

Porém, à semelhança do que Nicholas Leong tenta fazer no Quénia, alguém poderá executar o projeto inverso nas imediações dos Andes quando menos se esperar.

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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