Lidar com o peso? A experiência da ex-atleta olímpica Jennifer Rhines

lidar com o peso Jennifer Rhines

Este é mais um artigo com base na segunda parte do escândalo do Nike Oregon Projct. Para lá do doping, o tema central tornou-se, há dias atrás, os abusos psicológicos de que Mary Cain foi alvo enquanto esteve às ordens de Alberto Salazar, com grande parte destes maus tratos a incidirem sobre o seu peso.

Desde que foi publicada essa revelação, muitas atletas, algumas associadas ao NOP, vieram a público manifestar o seu apoio a Mary Cain e falar das dificuldades e preocupações diárias que envolviam a gestão do seu peso, originavam a perda do ciclo menstrual, e colocavam em risco a sua saúde.

No meu caso, eu estou a milhas de ser um entendido na matéria. Não só não sou do sexo feminino, como sou o único responsável e supervisor do meu peso, pelo que este assunto estava fadado a passar-me ao lado, uma vez manifestada a minha tristeza.

Porém, quando descobri o texto de Jennifer Rhines, três vezes atleta olímpica, a falar sobre isto no seu blog, vi nela o exemplo perfeito como o caminho a percorrer pode ser outro, bem mais saudável, onde os resultados não são descorados, como ela é prova viva. Por outras palavras, senti-me no direito e no dever de dar o meu pequeno contributo e de fazer chegar o seu texto ao maior número de pessoas possível, por via deste meu espaço.

O texto pode ser lido na íntegra aqui, no qual a atleta começa por fazer uma breve apresentação de si e do seu vasto curriculum no atletismo, para depois dizer que foi atleta profissional durante mais de 20 anos e que nunca perdeu um ciclo menstrual. Conquistada a atenção do leitor, Jen Rhines diz logo no parágrafo seguinte algo muito importante que passo a traduzir e a citar:

 

Nunca fui alvo de vergonha (por motivos de gordura) por nenhum treinador, masculino ou feminino. Estou em minoria nesta situação? Não sei, mas sei que existem bons treinadores por aí e que é possível ser uma atleta de sucesso sem estar num sistema de abuso. Não estou com isto a negar ou a desconsiderar a dor que outras atletas experienciaram. Mas assim como elas partilharam as suas verdades, eu quero partilhar a minha.

 

Posto isto, segue-se um relato muito interessante dos seus tempos na universidade, onde numa primeira fase não se privava de vários doces nem de festas. Só mais à frente, quando começou a perceber que o atletismo era mais importante para si e que desejava melhores resultados, é que a norte-americana começou a fazer escolhas que privilegiavam o seu rendimento desportivo. No entanto, e parece-me bastante importante dar destaque, a atleta refere que este foi o caminho que escolheu! Ou seja, que se tivesse optado pelos donuts e pelas festas também não haveria nada de errado nisso, seria apenas uma escolha diferente na sua vida.

Uma vez no trilho do atletismo profissional, Jen Rhines faz uma descrição detalhada de como, ao longo de uma época, fazia a gestão indissociável da alimentação e das várias fase do treino e da competição, a fim de se manter saudável a todos os níveis: físico, mental e emocional. Vale a pena ler!

O relato que se segue é exclusivamente centrado na gestão do peso, começando por aquilo que é um pouco senso comum. Isto é, que o facto de nunca ter sido criticada pelo seu peso enquanto atleta profissional não quer dizer que nunca se tenha preocupado com ele. Evidentemente que sim, mas referindo que este deve ser um parâmetro à atenção do atleta como outro qualquer. Simplesmente, e ao contrário do que alguns treinadores possam manifestar, o peso não deve ser a justificação solitária para o sucesso ou o fracasso de qualquer atleta numa competição.

A parte mais interessante surge quando a ex-atleta olímpica partilha o seu ponto de vista sobre a maneira como os atletas, de uma maneira geral, encaram o valor do peso. Passo novamente a traduzir (livremente) e a citar as suas palavras deveras curiosas:

 

Uma pergunta que faço é o porquê de existir sempre uma componente emocional associada ao peso? Nós temos reações emocionais aos resultados das nossas amostras sanguíneas ou a um teste de uma só repetição, na máxima intensidade, no ginásio? O mais provável é não termos. Não existe motivo para o peso e a composição do nosso corpo não serem analisados e discutidos da mesma maneira que discutimos todos os outros aspetos do nosso treino. É possível encarar um número na balança com a mesma carga emocional que olhamos para os tempos que corremos na pista ou os pesos com que fizemos os agachamentos no ginásio.

 

Por fim, Jennifer Rhines diz acreditar que todas estas lutas e manifestos vão assegurar que as próximas gerações não passem pelo mesmo. A atleta reconhece ainda que existem treinadores que devem ser escorraçados do desporto, mas que ao mesmo tempo é importante não afastar aqueles que desafiam os atletas e os fazem crescer.

 

Acredito que os atletas precisam de pessoas nas suas vidas que os desafiem, mas este desafio tem de vir de um lugar pautado pela compaixão e pelas boas intenções. Por vezes temos de ficar desconfortáveis, pois isso ajuda à mudança e transforma-nos nos atletas que aspiramos ser.

 

Naturalmente – e agora é o autor deste texto a opinar – de uma forma diferente do NOP e dos que privilegiam métodos semelhantes, fazendo mesmo alguns atletas acreditar que este é o único caminho possível.

Em jeito de despedida no seu texto (e também deste artigo), a atleta remata:

 

A minha maior motivação para escrever tudo isto foi a minha vontade em expressar que é possível ter experiências positivas enquanto rapariga e mulher no desporto.

 

Mary Cain e Christian Taylor: Luzes ao fundo do túnel? – Opinião

 

Imagem de Capa: Vidmir Raic do Pixabay

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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