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O que significa Correr? - Atletismo

O que significa Correr?

Todos temos gostos e paixões diferentes. Umas mais compreendidas do que outras. Este artigo também não visa obter aceitação. Na verdade, trata-se de um desabafo alegre, profundo, e isolado do exterior. Curiosamente, tudo começou com uma lamentação, como relata o parágrafo seguinte.

Na procura por um melhor rendimento no atletismo, um dos meus focos mais recentes tem sido o treino aprofundado de força ao nível de braços, tronco e pernas. Flexões, pranchas, squats, burpeeslunges, abdominais, enfim, toda uma panóplia de exercícios que agora nem me quero lembrar. Nestes treinos, não sei até que ponto estou a colocar máxima intensidade, dada a falta de motivação para os mesmos. E é por estas alturas que dou por mim a pensar. Como é que há gente que gosta de fazer estes exercícios? Puxar ferro, horas a fio? Como é que existem concursos de pranchas com concorrentes em tal posição durante horas e horas? Eu não consigo compreender …

Porém, foi quando tentei inverter as posições que fiquei certo de uma coisa. Essas pessoas têm gosto naquilo que fazem. Olho para mim. Se consigo correr durante horas, sem obrigação, é porque tenho gosto e vontade de tal. Portanto, esta é a minha convicção!

Por sua vez, isto fez-me lembrar os meus amigos não ligados à corrida, quando me perguntam: “Como é que consegues correr durante tanto tempo?“; “Em que é que tu pensas?“; E eu dou por mim a meditar no assunto, sem uma resposta na ponta da língua. Depois lá vai saindo, aos poucos. Porque nisto do atletismo, às vezes dá para pensar em tudo, noutras dá para apreciar a paisagem que nos rodeia, e noutras o foco é tão grande que não dá para ir além do treino a ser executado no momento.

Esta reflexão levou-me a percorrer a pista interior da minha cabeça mais vezes que um treino de séries. Corri a mente em ambos os sentidos dos ponteiros do relógio, a levar ideias e interrogações para trás e para a frente, e onde fui eu terminar esta demanda? Na linha de partida, claro está. Se é uma pista, esperava acabar noutro lado? Tolo, eu.

Ultrapassado o aparte, estacionei então no cerne de questão. Ou seja, a olhar para dentro de mim e a tentar perceber porque gosto de correr. O que significa para mim o atletismo para mover a minha vida com tanta força? A verdade é que à medida que fui meditando no assunto, fui descobrindo mais e mais respostas.

Ainda antes de as enumerar, devo dizer que percebi ainda mais uma coisa. Que as respostas que encontrei são mais do que aquelas que imaginava. Isso deixou-me uma certeza! Daqui a uns tempos, se eu ou alguém me voltar a fazer esta pergunta, provavelmente vou ter ainda mais respostas para dar que as aqui apresentadas. Será bom sinal. Será muito bom sinal! Será sinónimo de novas descobertas, aventuras, e de novos desafios superados por essas estradas fora.

 

O que significa Correr?

Por onde começar … Correr significa:

  • Descobrir a fantástica capacidade de movimento do corpo humano;
  • Descobrir o potencial imensurável da minha mente, quando o corpo começa a falhar;
  • Dar por mim a fazer coisas que antes nunca imaginaria fazer;
  • Ver os traços mais fortes da minha personalidade a virem ao de cima e a assumirem o controlo das minhas prestações nas corridas mais exigentes;
  • Acreditar (MUITO!) em mim;
  • Transformar o impossível em possível;
  • Ganhar capacidade de perseverança, que mais tarde se reflete em outras situações da minha vida;
  • Descobrir e ouvir vontades interiores;
  • Travar batalhas com a minha mente com regularidade e sair vencedor (ok, confesso, devemos andar empatados …);
  • Disciplina ao mais alto nível;
  • Ter mais amigos (verdadeiros!);
  • Ter mais motivos de alegria para partilhar com a minha família e amigos;
  • Competir com os carros que estão a arrancar do sinal vermelho ou parados nos cruzamentos quando vou rápido;
  • Fazer mais quilómetros a correr do que de carro, em alguns dias;
  • Descobrir o mundo;
  • Desafiar-me constantemente;
  • ESTAR VIVO!

 

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6 comentários

Ângela Gaspar 29 Novembro, 2018 - 18:18

“Enquanto corro,vou dizendo a mim mesmo para pensar num rio. Pensa nas nuvens, digo. Mas no fundo não estou a pensar em nada de concreto. Continuo, pura e simplesmente, a correr neste confortável vazio que me é tão familiar, no interior do meu nostálgico silêncio. E isso é qualquer coisa de profundamente maravilhoso. Digam o que disserem” – Haruki Murakami “Auto retrato do escritor enquanto corredor de fundo”
Quando vou é isto que eu sinto, é isto que me acontece e acho que é só por isso que quando chego e quando paro consigo ter a capacidade de ver em mim tantas da coisas que estão nessa lista ( menos competir com os carros parados nos semáforos 😛 ) e que fazem de mim uma pessoa bem mais feliz 🙂

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Renato Sousa 30 Novembro, 2018 - 21:23

Olá Ângela,
o seu relato faz-me lembrar “meditação”. A corrida muitas vezes também é uma forma de meditar e essa descrição levou-me para este campo. Purificação total 😀
Já agora, desconhecia esse senhor (Haruki Murakami) e a lista de livros em espera é um pouco grande, mas vou apontar sim senhor, despertou-me a atenção 🙂
Ahahah, a dos semáforos eu confesso que estava mortinho por a deitar cá para fora, porque é algo que tem realmente influência em mim. Eu gosto muito de correr na estrada porque creio ser bastante afetado pelas várias variáveis que se fazem sentir em cada treino.
Mas partilho a mesma conclusão, estas situações e sensações fazem de mim uma pessoa mais feliz 😀

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Ângela Gaspar 5 Dezembro, 2018 - 10:14

Nunca tinha pensado nisso, mas de facto, muitas vezes é nada mais do que uma forma de meditação 🙂 Uma pessoa começa contrariada ou sem vontade, a cabeça a mil, e depois quando dá conta, chega ao fim e não sabendo bem como já pensa nos problemas de uma maneira diferente, já encontra uma força e uma solução para lidar com eles. Se isso não é só maravilhoso, então não sei o que será! ( Bom, alguns dirão que a terapia também fará isso, mas eu refuto com um “mas, não sai tão barato!!” 😛 )
Se puder, leia o livro…tenho a certeza que vai gostar e rever-se em muito do que ele conta.
Eu cá acho que essa coisa dos semáforos é uma daquelas coisas designadas como “mesmo à gajo” (com o devido respeito na utilização do termo)…vocês até com o vento arranjam uma desculpa para meterem a competição ao barulho!!! 😀 Eu não posso dizer que estou em melhor estado … posso não competir com “o nada”, mas sou bem menina para me embalar em videoclips super “girlpower” quando junto à música que estou a ouvir, o reparar na minha sombra a correr e o quanto mais magra me pareço assim! (Obviamente, se alguém afirmar que alguma vez disse isto, eu desminto categoricamente e na hora!). Valha-nos o facto de não fazermos mal a ninguém e de assim sermos felizes 🙂

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Renato Sousa 6 Dezembro, 2018 - 20:43

Exato, a terapia não só não é tão barata como acho que não nos faz sentir tão bem. Digo eu … nunca fiz xD Mas sim, acho que uma coisa ajuda a outra. A corrida acaba por nos dar clarividência para os nossos problemas. Seja o “durante a corrida” como o pós treino. Aliás, este último costuma ser um momento de relaxe por norma, e devo dizer que esse relaxamento me costuma conferir uma maior criatividade e inspiração nessas alturas, o que por sua vez também ajuda aos problemas e às tarefas que têm que ser superadas em cada dia. Assim como a ter ideias para escrever aqui claro 😛

Eu não sei se é “à gajo” se é a pura adrenalina do desafio com os carros, mas de facto mexe muito comigo quando vou a treinar a sério. A estrada tem as suas variáveis e as suas surpresas. Lá está, o vento também é uma dessas coisas, mas eu esse sinceramente dispenso a companhia. De todas as condições meteorológicas para treinar, ele é aquele com quem menos gosto de me cruzar :/

Ahahaha, gostei de ler essa última parte e acho que isso é o mais importante. Se nos faz feliz é porque nos faz bem, e a partir do momento em que a nossa felicidade não prejudica ninguém, o mundo está no seu estado perfeito 😀

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Brito 29 Novembro, 2018 - 19:34

ESTAR VIVO!
Texto excelente , so mudava a ultima frase para : VIVER COM QUALIDADE FISICA E MENTAL !!! para mim é isso …

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Renato Sousa 30 Novembro, 2018 - 21:24

Olá Sr. Brito!
Não é necessário mudar, mas sim acrescentar 😉
Abraço!

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