Atletismo na Pista: porque corremos no sentido contrário aos ponteiros do relógio?

Estabelecer objetivos para 2018 - Atletismo

Certamente que já todos vocês viram provas de atletismo de pista na televisão, na internet, ou até mesmo ao vivo. Pelo menos num destes casos. Questiono-vos então: alguma vez se interrogaram do porquê das provas serem todas realizadas na mesma direção? Quero dizer, no sentido contrário aos ponteiros do relógio?

Eu nunca me tinha perguntado. Nem mesmo depois de começar a ir fazer treinos à pista e ler que o aquecimento e arrefecimento podiam ser feitos em sentido contrário às séries, de forma a não forçar o mesmo lado do corpo nas curvas. Talvez o meu inconsciente, por ter visto sempre as provas no mesmo sentido, tenha assumido que era assim e também não me tenha chamado à atenção para este facto.

Porém, há cerca de um mês atrás, um acontecimento fez-me refletir sobre o assunto. Estava eu a realizar um treino de 13 repetições de 400m, com base na percepção do esforço e não em tempos estipulados.

Ora, pelo sentido de oportunidade – a pista estava praticamente livre – e também por brincadeira com um amigo meu que estava a abandonar o recinto, decidi inverter o sentido das repetições quando me faltavam 4 para concluir o treino. Isto a pensar em forçar os dois lados do corpo de forma equitativa nas repetições.

Inverti então o sentido, tive a mesma percepção do esforço, e os resultados foram totalmente diferentes.

Ora espreitem a imagem que se segue, na qual ordenei o meu treino pelos ritmos mais rápidos para ser de mais fácil apresentação. O número da coluna (Parciais) indica o número da repetição de 400m. Ou seja, as linhas com parciais mais elevados correspondem às últimas repetições do treino.

 

Séries na Pista de Tartan - Repetições 13x400m (Garmin Connect)

 

Ainda que sejam séries curtas e uma ligeira diferença no tempo faça mudar o ritmo médio por completo, definitivamente, não estava à espera disto.

Notas importantes. As sensações das últimas repetições eram iguais ou, quanto muito, de maior cansaço pelo prolongar do treino. As repetições (400m) corresponderam a uma volta completa na pista, pelo que o vento não podia estar a condicionar uns intervalos e a favorecer outros. Não desta forma! As repetições foram feitas com relógio programado, pelo que não foram necessários quaisquer cliques durante os intervalos e os descansos que pudessem provocar oscilações.

Posto isto, ainda hoje continuo sem resposta para o que aconteceu. O meu plano de treinos e as circunstâncias também ainda não me permitiram voltar a fazer um teste semelhante.

Todavia, algo que me ocorreu imediatamente foi a diferença de força nas pernas, até porque joguei futebol durante muitos anos. Sem garantias de nada, foi este o acontecimento que me fez interrogar e investigar o porquê das provas serem todas no mesmo sentido.

Após investigação, a resposta a esta pergunta mantém-se igual à minha dúvida pessoal. Ou seja, inconclusiva. Ainda assim, decidi elaborar este artigo para por em órbita as principais razões apontadas. Alguma delas poderá estar na real origem da decisão que ainda hoje se mantém, ou até mesmo uma conjugação de forças de várias.

 

1. Efeito de Coriolis

A força de Coriolis faz-se sentir quando um referencial não-inercial circular (A) atua em relação a um outro inercial (B), consoante este segundo se afasta ou aproxima do centro do movimento rotativo.

Um exemplo muito utilizado é o cruzamento do movimento das fortes massas de ar (furacões, tornados, etc) sob o efeito de rotação (sentido contrário ao dos ponteiros do relógio) do planeta Terra. Sabiam que os furacões giram em diferentes sentidos, consoante se verifiquem no Hemisfério Norte ou Sul? Pois …

A chave do entendimento deste fenómeno está na velocidade de rotação da Terra, que está longe de ser igual à medida que viajamos do Equador para os Polos. O que faz sentido, pois se o planeta é mais largo perto do Equador, para estar em sintonia com os Polos tem que girar a uma velocidade mais rápida no seu “meio”.

Desta forma, o reduzir da velocidade de rotação da Terra do Equador para o Polo Norte acaba por provocar no referencial inercial circular (neste caso, nos furacões ou tornados) um movimento em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.

Vamos um pouco mais a fundo. Imaginem-se no Equador a atirar uma bola em linha reta para um amigo vosso que está no Polo Norte. Esta vai parecer aterrar à direita do vosso amigo, porque ele (velocidade da Terra no Polo Norte) se movimenta de forma mais lenta que vocês que estão no Equador.

Agora, invertam as posições e atirem-lhe a bola do Polo Norte para o Equador. Mais uma vez, vai parecer aterrar à direita do vosso amigo. Vocês atiraram-lhe a bola em linha reta, mas como ele no Equador anda mais depressa, já está mais à direita da bola. Se aplicarmos isto no Polo Sul, a bola aterra à esquerda.

 

Efeito de Coriolis no Atletismo de Pista

Posto esta explicação, que espero ter sido a mais correta e clara, voltemos ao atletismo na pista.

O sentido giratório que percorremos sobre a pista de tartan é idêntico ao dos furacões. O facto de grande parte da população do planeta habitar no Hemisfério Norte (por seu lado atletas) parece ter tido impacto na escolha do sentido de realização das provas de pista (sentido contrário ao dos ponteiros do relógio).

Com a confirmação do Efeito Coriolis, só seria contra producente estar a correr em sentido contrário a este, prejudicando o desempenho da maioria dos atletas e respetivas marcas das competições. Apesar de tudo isto, mantém-se a recomendação dos atletas no Hemisfério Sul correrem no sentido dos ponteiros do relógio.

Por esta altura, reflito sobre o seguinte.

Uma coisa é a velocidade dos furações, tornados e outro tipo de massas de ar. Outra coisa é a nossa velocidade. Será que o Efeito de Coriolis se faz mesmo sentir quando corremos na pista a grande velocidade? E no meu caso? Fui mais rápido contra o efeito de Coriolis que se faz sentir neste Hemisfério?

 

2. A predominância dos destros

A maior parte dos cidadãos e, consequentemente, atletas, são destros, quer nas mãos, quer nos pés. O mesmo que dizer que este nosso lado é mais forte e desenvolvido que o outro.

Aliás, muitos corredores podem vir a ter problemas físicos com este desnível. Existe o ter um lado mais forte que o outro e existe o ter um lado forte e um lado excessivamente fraco, o que por sua vez poderá levar o corpo a tentar ajustar-se para melhor se movimentar, sempre com o risco disso ser prejudicial para a nossa saúde.

Mas voltando ao que estava a dizer, no caso da nossa perna direita ser a dominante (a mais forte) naturalmente será melhor esta percorrer a maior distância. Fica mais fácil puxar com a perna esquerda no lado mais curto.

Eu que tenho a perna direita claramente mais desenvolvida, estranhamente fiz as séries mais rápidas no sentido inverso. Como se este caso já estivesse pouco confuso …

 

3. O público e os juízes de prova

Coloquem-se como espectadores de uma prova de pista. O que vos parece mais natural? Acompanhar a prova da esquerda para a direita? Ou da direita para a esquerda? A primeira opção parece ganhar com distinção.

Agora coloquem-se no lugar dos juízes que tiram os apontamentos dos tempos. Não será maior a probabilidade de erro ao acompanharem a prova da esquerda para a direita, ao mesmo tempo que fazem os apontamentos no papel da direita para a esquerda? Fazer ambas as coisas na mesma direção será naturalmente mais fácil.

 

4. Porque corremos contra o relógio

Deixei o ponto mais irónico (e cómico!) que encontrei para o fim. Então, se queremos correr o mais rápido possível, não faz todo o sentido irmos em sentido contrário ao que o relógio nos manda?

 

Caros atletas, na próxima vez que correrem ou assistirem a provas de pista, lembrem-se destes motivos e deixem-se convencer por cada um deles. Mais por uns do que por outros.

Quanto a mim, vou continuar a pensar sobre este assunto e no meu caso em particular (teorias e sugestões aceitam-se!). Pode ter sido apenas um reflexo psicológico da inversão de sentido, ou não! Quem sabe descubra algo interessante nos próximos tempos, que depois possa também partilhar aqui convosco.

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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