Cross Curto em Castelo de Paiva – Inspiração, Expiração e Transpiração

Cross Curto Castelo de Paiva 2022

Não tenho memória se assim foi em anos anteriores. Certo é que, nesta última edição do Campeonato Distrital de Corta-Mato Curto, logo após a linha de meta, tive direito a uma bela dor abdominal. E desculpem-me o paradoxo, mas ao encarar aquele desconforto como uma medalha do esforço exercido nos 14 minutos anteriores, o orgulho que sinto torna toda a sensação mais elegante. Como aquelas cicatrizes horrendas, mas de significado muito especial, cuja camada de simbolismo adultera qualquer apreciação estética.

Adiante. O percurso deste carrossel de Castelo de Paiva é fácil de explicar. Uma primeira parte sempre a descer, e uma segunda (por um sítio que não é o mesmo por onde se desce), sempre a subir. Pelo meio, há apenas uma ou duas centenas de metros para fazer a ligação entre os sectores. A meu ver, a origem do problema (dor) está na mudança repentina de uma descida vertiginosa para uma subida bastante exigente. Até porque, como o declive se faz em menos tempo que a ascensão, torna-se muito complicado estabilizar a respiração a cada volta, resultando daí o grito do abdómen. De facto, em relação às pernas, nem se dá pelo cansaço.

Não sei bem como cheguei até aqui, mas esta especificidade do circuito faz-me lembrar dois momentos (semelhantes) com que me deparo regularmente na minha vida. A saber: o excesso de estímulos informativos que preenchem o meu dia-a-dia e aguçam a minha curiosidade; o apelo ao consumo, natural desta sociedade; Este acumular de informação, absorvido de forma sôfrega e quase sem filtro, para mim faz-se representar pela subida deste corta-mato. Açambarcar, tantas vezes inadvertidamente, tudo o que os meus olhos vêem, origina uma sobrecarga de consumo (dióxido de carbono), e uma perda de energia (oxigénio).

Por seu lado, a descida deste carrossel é o momento do despojo. A altura de seleccionar o que realmente interessa e descartar o prescindível. E à medida que se faz isso, libertar e organizar o espaço para a próxima vaga de consumo. O problema, já identificado em cima, é que este processo não se demora o suficiente para dar vazão a todo o acumulado, do qual tanta coisa é descartável. Com nova subida no horizonte, essa secção dos pendentes torna-se cada vez maior, recondicionando as suas vizinhas. Uma apropriação de território que dificulta cada vez mais a distinção entre o que realmente é importante e o seu contrário.

Resumindo a viagem deste elevador: a subida é uma espécie de processo de inspiração (consumo), e a descida de expiração (despojo). Quando se absorve em exagero e se descarta a menos, a dor abdominal aparece. Mas não esquecer que pelo meio há um outro processo envolvido: a transpiração. Sobre a qual, para o bem e para o mal, não posso escolher o conteúdo libertado. Ou melhor, serão sobretudo os resquícios resultantes das minhas decisões. Os seus efeitos secundários. E se ainda consigo tomar consciência de algumas dessas perdas, de outras, nem me ocorre que se foram.

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

Créditos Foto: ACD os Ílhavos – Atletismo

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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