Corrida Portucale 2021 – O Dever de Ser Solidário

Corrida Portucale 2021 - Eventsport

21 de Novembro de 2021. Vila Nova de Gaia. Quilómetro 5 da Corrida Portucale. Após a imposição de um ritmo vivo na prova, a fim de deixar alguns potenciais rivais para trás – e com o custo indesejado de alguns companheiros de equipa também – eu e o Hélder Pires, ambos atletas do CAO, seguimos na liderança da prova. Como se isso não fosse alegria suficiente, aos poucos, a diferença para os perseguidores parece aumentar, pelo que abre-se no horizonte a possibilidade de vitória para o clube.

Em contrapartida, com este cenário, outros pensamentos tornam-se mais irrequietos na minha cabeça, relegando os do início da prova para segundo plano. E uma vez que as sensações sugerem que a gasolina do meu depósito irá durar até à meta, são dois os mais interventivos, ambos relacionados com o vencedor individual. Primeiro, de todos os rivais que poderia escolher para estar na liderança de uma prova comigo, o Hélder Pires não seria uma hipótese. Estou cansado de perder para ele na velocidade, seja em treinos ou em provas, nos momentos decisivos da disputa. Por outro lado, e em segundo lugar, não podendo ganhar eu, mais contente não podia ficar do que perder para alguém que não ele.

Enquanto penso em tudo isto, apenas dei mais meia dúzia de passos na estrada. A reflexão prossegue, e sei que aquele ainda não é o momento de comentar com ele o seguinte: “Hélder, tu tens grandes probabilidades de ganhar. Contudo, no que depender de mim, vais ter que fazer por o merecer.” Então puxei o comboio durante quase toda a prova, a ver se ele vacilava, até que nos separámos. Tais palavras nunca viriam a sair da minha boca, pois ao quilómetro 9 ele “pôs-se ao fresco” e eu já não consegui reagir.

Hoje, ao recordar aquela aventura, a minha postura durante a prova traz-me um sorriso interior de satisfação. Lembro-me de aceitar (o primeiro passo em tantsa coisas) as minhas escassas probabilidades de vitória, sem com isso melindrar o meu incoformismo e capacidade de luta. Não sei de onde é que isto veio, mas ainda bem que me acompanha.

Estamos a chegar ao Natal. Possivelmente a época do ano em que mais se utiliza a palavra “solidariedade”. Esta composição de 13 caracteres, em dezembro, transpõe uma ideia de boa acção, que por sua vez a coloca mais no lugar dos direitos do que dos deveres. Porém, depois de reflectir bastante sobre isto, resultado desta disputa na Corrida Portucale, chego à conclusão que ela sempre foi um dever, e que é precisamente o facto de a encararmos como um direito que origina desiquilíbrios na sociedade.

Passo a explicar. Quando se trata das igualdades básicas e fundamentais para todos, a solidariedade parece-me claramente um dever. Por outro lado, quando existe uma competição, seja ela de que tipo for, cujos participantes estão todos nas mesmas condições de partida, ser solidário já me parece mais um direito. Quero dizer, deve haver espaço para o mérito fazer a sua “selecção natural” entre eles. Tanto é que cheguei mesmo a pensar em titular este artigo como “A Cultura do Mérito”, pois é algo que eu genuinamente aprecio. Só mais tarde, depois de muito pensar sobre o assunto, apareceu diante de mim a ideia do mérito genuíno nascer precisamente da nossa solidariedade para com os outros, continuando assim a ser um dever, mesmo depois de garantidas as mesmas armas a todos os intervenientes.

Vamos voltar à corrida, e à disputa entre mim e o Hélder. Como disse em cima, o meu inconformismo não permitiu facilitar-lhe a vida em nada. Contudo, esta atitude resulta apenas de me ter colocado na posição de “não-favorito”. Se me tivesse colocado no lugar de “favorito”, além desta resiliência, teria também percebido que abdicar da luta significaria destruir parte do mérito que esperava pelo vencedor na linha de meta. Um pouco à imagem do que acontece quando uma equipa está a vencer outra, e a segunda decide desistir antes do tempo acabar. Ou de duas crianças estarem a jogar um jogo e a que está a perder abandona a meio porque o desenrolar dos acontecimentos não lhe está a agradar. Com decisões destas, além de darmos razão às probabilidades antes da decisão final, estamos a reduzir o mérito que é do vencedor por direito. Afinal de contas, quem gosta de subir ao primeiro lugar do pódio, sem que haja um segundo e um terceiro classificado, porque estes decidiram desistir a meio ou nem apareceram, sabendo que havia alguém mais favorito? Ninguém.

Portanto, tudo isto me leva a pensar que quando desistimos ou “baixamos os braços” numa prova porque não somos favoritos ou as coisas não nos estão a correr bem, isso não é mais do que um acto de egoísmo, seja ele consciente ou inconsciente, e um claro condicionador do mérito de quem tanto o procura e o merece. Como tal, nestas situações de “desvantagem” importa (e muito!) sermos solidários. Porque é essa solidariedade que confere justiça aos que mais mérito têm na disputa em questão. Quando não alinhamos nesta ideia, devemos ter a clara noção que estamos a prejudicar essas pessoas e que isso pode ter repercussões a longo prazo, tendo em conta que um desfecho ligeiramente diferente por vezes muda todo o nosso percurso dali para a frente.

Na mesma linha de raciocínio, a questão das escalas não deve ser menosprezada. Quanto maior a nossa responsabilidade ou reputação, mais importante se torna a nossa solidariedade. Imagine-se, ainda em cenários de corrida, dois atletas a disputarem uma prova, sendo um claramente “favorito”, mas que está em perda. Se, apesar das dificuldades, lutar até ao fim, o mérito atribuído ao vencedor “não-favorito” vai ser totalmente diferente do que se o “favorito” desistir ou abdicar a meio da prova. A divulgação e comunicação do mérito do vencedor será completamente diferente, e isso tem muito impacto social, mas também no próprio vencedor, que ficará sempre com “Ses” na sua cabeça em relação ao que teria acontecido se não houvesse um “baixar de braços”.

De volta a Vila Nova de Gaia e à minha disputa com o Hélder, eu lutei como pude, mas ele nunca vacilou. Logo, é um vencedor com todo o mérito. Como resultado desta atitude, o que eu sei melhor que ninguém é que ali não ficaram “Ses” a orbitar à nossa volta. Sobretudo eu, derrotado, mas interveniente directo e estimuladores desse mérito, sei, com toda a certeza, que a vitória do Hélder (que aqui representa todos os vencedores) não tem nada de facilistimo ou de fictício, pelo que a sua alegria e confiança pode e deve ascender livremente.

E a nossa autoestima (dos “vencidos”, termo mais acertado que “derrotados”) também! Quando alinhamos num desafio de mérito, não é para perder. Se somos vencidos, é porque não tínhamos o suficiente para ganhar. O nosso “melhor” daquele dia não foi suficiente. Todavia, há a entrega total ao desafio, e isso traz retroactivos. Seja porque saímos obrigatoriamente da nossa zona de conforto, e, portanto, estaremos mais capacitados na próxima tentativa. Ou porque o nosso trabalho e dedicação será utilizado como pára-quedas quando nos depararmos com momentos difíceis e caírmos na escadaria que temos vindo a subir. Afinal de contas, para cada escorregadela de um crescimento que foi meritório até ali (ainda que na maior parte das vezes – como quando somos segundos – esse mérito possa ter saído pela porta das traseiras), há sempre um pára-quedas pronto a abrir-se e a controlar a altura da nossa queda. E em qualquer que seja o degrau que aterremos, estará lá escarrapachado o que ali alcançámos, quando por lá passámos. Logo, voltar a subir um caminho que já superámos anteriormente torna-se mais fácil e, por vezes, bem agradável, pois há espaço para refinar algumas aprendizagens que na altura não ficaram bem afinadas.

Concluindo, da próxima vez que lutarmos por mérito nas nossas vidas, talvez seja importante colocarmo-nos nos lugares de “vencedor” e “vencido”, “bem-sucedido” ou “mal-sucedido”, a fim de percebermos que o mérito dos outros depende da nossa resiliência, e vice-versa. De termos noção das implicações do nosso conformismo com a derrota, e do que sentíriamos se fizessem isso connosco quando somos os melhores. Se isto não faz da solidariedade um dever, será apenas porque todas as partes envolvidas tiram dividendos do seu esforço e dedicação, ainda que não da mesma forma. Para uma sociedade que procure ser mais justa e equilibrada, este parece-me um caminho bastante solidário.

Boas Corridas!

 

Créditos Foto: Organização da Prova

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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