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Saltar barreiras no Atletismo

Quando ainda é demasiado cedo para se correr a Maratona

Nota introdutória: este texto não visa “dar uma de moralista”. Ele é apenas o resultado da análise dos erros – ou talvez o termo “más decisões” seja mais adequado – que cometi até agora no atletismo, em particular nos primeiros anos de participação, e daquilo que observo noutros atletas à minha volta. E como a maior parte das pessoas inicia a sua aventura nas provas de estrada ou no trail, sendo o primeiro caso o que conheço melhor, opto por usar esse como exemplo. Dito isto, e sem mais demoras …

… tenham calma nos “saltos” que dão entre provas, com especial atenção das distâncias mais curtas para a maratona. Evitem queimar etapas, e, de preferência, tentem passar algum tempo nas distâncias intermédias. O corpo precisa de tempo para se preparar (fortalecer toda a sua estrutura, não apenas a muscular) para uma prova de 42 quilómetros, e isso leva tempo, em particular naqueles que começaram a correr recentemente e estiveram vários anos sem qualquer práctica desportiva.

Em paralelo com isso, todos nós, atletas, precisamos de ganhar experiência. Muitas peripécias podem acontecer numa prova mais longa, pelo que os desafios são vários, a todos os níveis. Há que perceber: como o organismo se comporta; como lidar com a meteorologia, pois não é igual correr com calor, frio ou chuva; quando os momentos de sofrimento em prova são temporários ou se vão arrastar até à meta, se não for feito um abrandamento e melhor gestão do esforço; lidar com o entusiasmo, sobretudo em provas com muito público e de bom nível competitivo; e encontrar estratégias durante os desafios para convencer a mente a puxar pelo corpo; Todos estes planos, entre outros, requerem a práctica e não apenas a teoria. Para os melhores resultados, as duas partes são necessárias. Para um bom resultado (ou uma boa gestão), a experiência é uma grande aliada. E a melhor maneira de a ter a nossa favor, parece-me, é precisamente não saltar etapas, passando algum tempo em cada uma delas, para assimilar (no corpo e na cabeça) diferentes cenários, e assim estar melhor preparado para o degrau seguinte. Até porque, por exemplo, correr uma maratona, em termos de desgaste e consequências no corpo, não corresponde à multiplicação por dois do desgaste que se possa ter numa meia-maratona. É muito mais do que isso, e quem já é maratonista sabe-o.

Tempo agora para um caso pessoal, já que (também) eu fiz asneira. Em novembro de 2015, corri a minha primeira maratona … depois de ter feito a minha primeira corrida (10K), apenas uns meses antes (abril 2015). Sendo certo que me preparei bem, em termos de carga, para essa maratona, e que chegara ali com uma vida pautada por uma actividade desportiva regular, reconheço, sempre que falo no assunto, que fui um inconsciente. As articulações, os tendões, os ligamentos e os músculos precisam de tempo para se fortalecer para uma prova tão longa. Felizmente, correu tudo bem. Se fosse hoje? De certeza que tinha esperado mais tempo até me tornar maratonista.

Uma vez feita a confissão, importa perguntar: porque quis correr tão cedo a maratona? Porque me deixei entusiasmar, o que não é nada complicado de acontecer: quando temos uma grande vontade de correr; quando ouvimos as pessoas do atletismo que conhecemos (e que já são maratonistas) a falar com entusiasmo sobre a prova; quando o marketing das maratonas é cada vez mais “agressivo” e incisivo (basta participar numa ou duas provas do circuito mais popular do mundo – Abbott World Marathon Majors – para se perceber a loucura que é);

Tudo isto somado, do lado do atleta, é necessária uma boa dose de racionalidade e calma para adiar a estreia na maratona, quando ainda se está a dar os primeiros passos numa aventura como a do atletismo ou do running. Sejamos racionais: há tempo de sobra para se fazer os 42K, pois a maratona não tem limite de idade e a corrida encontra-se disponível (na maior parte dos casos) quase para a vida toda. Casos de longevidade não faltam por estas estradas fora. Portanto, a não ser que tenham um motivo muito forte para o fazer, não se inscrevam na vossa primeira maratona por impulso ou por entusiasmo (podem-se divertir por mais uns tempos nas distâncias mais curtas). Se o fizerem, e não treinarem o suficiente ou o corpo não estiver devidamente preparado, as consequências que arriscam não vale o título precoce de “maratonista”. Título esse que podiam ter ido buscar mais à frente, e com mais segurança, nas vossas vidas. Três, quatro, cinco horas de esforço – num corpo que não está devidamente preparado, a diversos níveis, para a distância (além da possível lacuna de experiência em ambiente competitivo e de uma mente forte) – tem pouco que se pareça com um esforço de uma meia-maratona ou que vá até aos 30K.

Fica a minha opinião sincera, que me senti um pouco no dever de escrever, seja pelas minhas convicções de hoje sobre o assunto, seja pelo que vou observando à minha volta. Tenham calma. Numa sociedade, como a de hoje, que é feita de estímulos constantes e marcada por uma grande intolerância ao aborrecimento, a paciência vale ouro.

Boas corridas!

 

Imagem do artigo gerada por IA

 

Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto.

O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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