Skip to content
Infocracia - Byung-Chul Han

Infocracia – Byung-Chul Han

Da democracia para a infocracia, passando pela mediacracia.

É este o trajecto que o filósofo sul-coreano percorre neste livro, ainda mais curto que o habitual, com vista a expor o contributo da digitalização para o enfraquecimento da democracia. Ou melhor, será mais correcto dizer que este é apenas o caminho principal, numa estrada repleta de derivações, já que este conjunto de ensaios tem muito por onde se pegar e reflectir.

E começo já por aqui, pelo reflectir. Onde está o espaço, o tempo, e a energia, para a reflexão no nosso dia-a-dia? Se não há mais esse período na nossa agenda, como podemos criar ideias, desenvolver argumentos, ou chegar a convicções, com o mínimo de solidez e substância? E ao apontar esta questão para a esfera pública, que é termo central neste livro, penso, como podem as pessoas que ocupam esse espaço apresentar boas ideias e tomar boas decisões, quando passam o tempo em conferências, reuniões e certames, para além da presença nas redes sociais?

Se por vezes temos a convicção, ou a mera percepção, de que os tempos mudaram muito, desconfio que em poucas dessas ocasiões paramos para explorar as origens dessa percepção. Logo num dos primeiros ensaios, Byung-Chul Han dá uma ajuda nesse sentido. Em 1854, antes do aparecimento dos meios de comunicação de massa, Abraham Lincoln e Stephen A. Douglas protagonizaram aquilo que talvez seja melhor qualificar como uma série de discursos (em vez de debate), organizados da seguinte forma: Douglas falou cerca de 3 horas; depois Lincoln teve também 3 horas para falar e responder; e, já depois disso, Douglas teve ainda mais uma hora para falar. Com público presente! Um exagero? Possivelmente. Todavia, percebe-se por aqui como era possível desenvolver ideias e fundamentá-las, quer pela longevidade das exposições, quer pela ausência de interrupções do outro lado, que parecem estar implícitas.

Adiante. Com a chegada dos meios de comunicação de massa, e a televisão é o caso mais óbvio, a substância dos temas começou a perder relevância, porque a própria televisão, entenda-se, nunca foi um meio para suscitar reflexões, mas sim para embotar os espectadores e/ou diverti-los. As suas características conferem-lhe esse potencial (assunto explorado mais em detalhe no livro “Amusing Ourselves to Death“, do Neil Postman, que é onde Han vai buscar a história de Lincoln e Douglas), e a vertente humana alinha-se com isso, já que o mais importante são os lucros, e não propriamente a qualidade ou a importância dos conteúdos para a sociedade. Este filme, com a televisão no papel principal, teve uma sequela bem recente, desta feita com as redes sociais.

De volta à televisão, conseguimos visualizar este caminho quando, por exemplo, no caso português, constatamos que o debate político entre Mário Soares e Álvaro Cunhal, em 1975, teve mais de 3 horas. Já nos dias de hoje, temos debates de cerca de 30 minutos, repletos de berros e interrupções, com questões que muitas vezes não se debruçam sobre o que realmente importa debater e esclarecer, mas que têm como objectivo incendiar o debate e criar polémica para, dessa forma, se proporcionar verdadeiro entretenimento ao espectador. Em suma, procura-se desenvolver a performance, e corta-se na fundamentação e no tempo de debate das ideias e convicções, quando estas existem.

E ainda em relação à passividade do espectador, esta sai muito reforçada, por exemplo, pelo grande número de comentadores que ocupam os canais de notícias e cujo comentário (não esquecer, estamos na televisão), por vezes, procura mais causar sensação entre os espectadores, do que propriamente revelar aquilo que essas pessoas sinceramente pensam. Seja como for, entre tantas vozes, haverá certamente alguma opinião com a qual, sem grande análise, poderemos concordar, absorver, e repetir quando o tema cair em debate com alguém. Sendo isto tão mais fácil, para quê nos darmos ao trabalho de reflectir, em isolamento e com recurso apenas à nossa cabeça, para ver onde o pensamento nos leva em relação a esse assunto? Quase não nos damos conta, mas são estas areias que vão entrando na engrenagem da democracia e a vão denegrindo e enfraquecendo, já que esta, para se manter robusta, precisa de indivíduos que desenvolvam as suas ideias e argumentos, para que mais tarde, em debate, as possam apresentar com substância, ouvir outras que sejam divergentes das suas, e depois aceitá-las, refutá-las, ou melhorar as suas a partir destas.

Por outro lado, e dando um passo à frente no tempo, com a digitalização, não só a passividade se parece ter agravado (e aqui visualizo um ser humano a deslizar roboticamente o dedo sobre um ecrã do telemóvel, perdido no infinite scroll), como começamos a derivar da mediacracia para a infocracia, tema central deste livro.

A infocracia pauta-se pelo excesso de informação (demasiado ruído), com muitas fake news e teorias da conspiração à mistura, onde: fica complicado “separar o trigo do joio”; é fácil encontrar uma notícia que diz algo e outra que diz o seu contrário; se esquece rapidamente o noticiado ontem, pois hoje já chegou mais uma avalanche de informação, impedindo assim a ponderação aprofundada: como é referido no livro, a racionalidade requer tempo, mas o que se exige por estes dias é uma reacção imediata (que é sempre mais emocional), mesmo que ainda se esteja na ignorância de conteúdo importante para se manifestar opinião. Ora, quando se cai nessa armadilha, dá-se muitas vezes “uma no cravo e outra na ferradura”, pelo que depois é só surfar essa onda de comentários desnecessários e anedóticos, ficando para segundo plano o que realmente importa.

Dito de outro modo, seja estratégia ou inocência (dependendo dos momentos), certo é que falta contexto à informação. Não apenas sobre o que está a ser noticiado, que muitas vezes se limita ao básico e/ou ao que pode causar sensação, como a notícia também não traz “atrelados” os acontecimentos prévios que, lá longe, ou num passado recente, estiveram na sua origem. É como ver um excerto de uma declaração de alguém, cortado da fonte em pontos cirúrgicos, que nos muda completamente a análise desse conteúdo. Quando falta conhecimento e experiência sobre o tema, a ignorância revela-se e naufragamos (todos, arrisco dizer) neste mar de informação, onde nem nos apercebemos que a infocracia nos permite validar qualquer que seja o nosso viés. Uma pesquisa no Google na procura de validar a nossa convicção X é nos satisfeita. No entanto, se procurarmos validar a convicção Y, ele também não nos deixa ficar mal. Portanto, qualquer que sejam os nossos vieses, a digitalização não nos desilude. É um cata-vento moderno, que nos mostra sempre aquilo que procuramos validar, sem qualquer tipo de resistência, ao contrário de um debate entre indivíduos, que tem as vantagens mencionadas em cima, no que toca à melhoria das nossas ideias e convicções.

Hoje, a inteligência artificial, suportada pela big data, é endeusada de uma maneira surreal, ao ponto de não se equacionar onde faz sentido a sua utilização. Logo que ela possa ser aplicada em algum lado, assume-se que é a melhor solução para o caso, sem uma reflexão ponderada ou um tempo de experiência. Dentro deste tema, o autor expõe aquilo que intitula de “racionalidade digital”. Suportada pelos dataístas, esta defende a tomada de decisões sobre a vida social com base nos dados que estas ferramentas tecnológicas revelam sobre os nossos perfis (particulares e de grupos), em oposição à racionalidade discursiva e comunicativa que sustenta a democracia. Diz o autor: «A inteligência artificial não fundamenta, mas calcula. Em vez de argumentos, entram em cena os algoritmos.», passando depois ele mesmo a citar o que diz Shoshana Zuboff, no seu livro “Capitalismo de Vigilância”: «o que aqui está em jogo é a expectativa humana de soberania sobre a nossa própria vida e de autoria da nossa própria experiência». Portanto, para lá do amontoado de dados que podem ser seleccionados, ou não, para alimentar a big data (da mesma forma que nós escolhemos como alimentar o nosso organismo), passando por quem tem poder para definir as regras e estabelecer a informação que a IA deve prioritizar e ignorar, temos em aberto a hipótese de no futuro substituir a política (diálogo e tomadas de decisão que daí resultam) por aquilo que possam ser as conclusões de uma máquina.

A terminar, nota para o ensaio final do livro, intitulado “Crise da Verdade”. Com este mar de informação, que se diz e contradiz num abrir e fechar de olhos, como podemos desenvolver convicções que se prolongam no tempo? Em vez disso, não só parece que andamos aos ziguezagues, como fica fácil aceitar ou desconfiar de tudo. Gera-se uma indecisão e um embotamento que torna o individuo muito mais suscetível de manipulação, dada a, e passo a citar o autor: «falta de distinções conceptuais claras». E quando assim é (novamente, é Byung-Chul Han e não eu quem faz a associação seguinte), os lemas do Partido do famoso “1984”, de George Orwell, não causam confusão a quem os lê: «Guerra é paz. Liberdade é escravidão. ignorância é força.», pois não?

Nota final: ainda que este meu texto seja longo, e o livro “Infocracia” seja curto, a verdade é que muito pouco do livro foi aqui aflorado. Ou seja, a experiência da leitura não ficou comprometida, além de que, dada a complexidade dos temas, é relativamente fácil as interpretações de cada leitor poderem ser muito diferentes.

Artigo adaptado do originalmente publicado na plataforma Goodreads.

 

Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto.

O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

Back To Top