O impacto das lebres na Maratona

O impacto das lebres na Maratona

A presença das chamadas “lebres” nas maratonas mais conceituadas de todo o mundo já se tornou um hábito. Pelos dedos se contam as grandes organizações que ainda se recusam a adoptar esta “estratégia” nos seus eventos.

Como qualquer escolha, optar ou não pela presença de lebres tem as suas implicações. Quando há dias me deparei com um artigo sobre este tema, associado à próxima Maratona de Londres, percebi que este era o momento certo para também eu manifestar a minha opinião sobre o assunto.

 

As lebres vieram tirar emoção à Maratona

A presença de lebres numa maratona significa que os atletas de elite se vão limitar a seguir os ritmos impostos até ao último terço da distância, ou mesmo depois disso. Por outras palavras, o que isto representa do ponto de vista do espectador e adepto da prova é que só vale a pena prestar atenção à sua parte final.

A partir daí, tudo se resume a uma questão de quem tiver pernas para fazer a diferença para os restantes elementos que estiverem no grupo. Quanto mais tarde as lebres saírem de cena, menor a probabilidade de haver surpresas ou alteração de posições na frente do pelotão. Enquanto não chega esse momento, os potenciais candidatos à vitória “limitam-se” a correr atrás das lebres e a guardarem as suas energias para os quilómetros finais.

Este é o cenário dos últimos tempos. Maratona após maratona. O espectador começa a ficar com a sensação de que está apenas a clicar no replay para ver o mesmo filme. Só muda o protagonista. Quando muda!

 

Veteranos? Eles continuam a andar que se fartam!

Foto: Dirk Ingo Franke

 

As lebres beneficiam os africanos?!

No momento atual do atletismo, não há como colocar em causa o domínio quase absoluto dos atletas africanos na maratona. Longe de mim estar a colocar aqui em causa o seu trabalho e o seu talento. No entanto, acredito que a escolha das lebres é uma opção táctica que traz ainda mais vantagens a quem já é favorito. A imposição de ritmos altos desde o tiro de partida beneficia, obviamente, os que melhor combinam a resistência e a velocidade.

Por outro lado, se as lebres forem postas de lado, aumenta a probabilidade da história ser diferente. As decisões táticas e os jogos psicológicos podem ser bem diferentes. Como consequência, também os resultados finais. Ora vejamos.

 

O caso Shalane Flanagan

Maratona de Nova Iorque 2017. Depois de uma primeira parte de prova bastante lenta, as probabilidades de Shalane Flanagan sair vitoriosa subiram consideravelmente. Nenhuma das africanas quis assumir o desgaste de comandar o pelotão e a americana aproveitou para surpreender o mundo pela positiva. Se a prova tivesse lebres, provavelmente a prova teria tido o desfecho mais habitual dos últimos anos.

Agora pergunto. Isto faz de Shalane Flanagan uma atleta inferior? Nem por sombras! O que possa ter a menos na parte atlética poderá ter a mais na parte mental. Na inteligência tática. Na frieza das decisões durante a corrida.

O estatuto de favorito não é sinónimo de vitória ou de superioridade. Ambas demonstram-se durante a corrida. Como em qualquer atleta, cada um tem os seus pontos fortes e fracos. No final, é juntar tudo e tirar o melhor partido das nossas capacidades e potencial.

 

O impacto das lebres na Maratona

Foto: Amelia Gapin

 

A obsessão pelo registo abaixo das 2 horas

Dois minutos e 58 segundos separam o Homem de um feito que vai eternizar aquele que o conseguir. Assim como o evento onde tal acontecer. Falo do primeiro registo na maratona abaixo das duas horas de prova.

Nesta distância mítica, esta separação ainda é considerável. Apesar disso, as organizações com bons percursos não escapam à ilusão do objetivo estar mais perto do que realmente está.

O projeto recente da Nike, intitulado “Breaking2”, veio “incendiar” ainda mais este tema. Mesmo que tenha deixado claro que ainda não é possível baixar as duas horas. Nem sequer em condições artificiais como as que deram vida a este projeto.

 

O que acontece na ausência de lebres?

É por esta altura que volto a dar valor à Maratona de Nova Iorque. A qual nem sou grande fã do percurso. Todavia, a não existência de lebres e a partida separada da elite masculina e feminina torna tudo mais imprevisível e emocionante. Neste formato, nem a secção feminina consegue tirar proveito de potenciais lebres masculinas.

Para além de alguns exemplos nas grandes maratonas, também os Campeonatos do Mundo e os Jogos Olímpicos não fazem uso de lebres. Ghirmay Ghebreslassie foi uma surpresa agradável quando deixou os favoritos para trás e conquistou o Campeonato do Mundo de Maratona em Pequim 2015.

Além deste caso, Ghirmay já me marcou com outro momento. Nos Jogos Olímpicos do Rio 2016. Depois de ter ficado para trás, fez uma recuperação fantástica e criou a dúvida até aos metros finais se chegaria ou não a Galen Rupp e à medalha de bronze.

 

Veteranos? Eles continuam a andar que se fartam!

Foto: Katie Chan

 

Sacrificar várias páginas de história por uma só!

Resumindo, não sou adepto da presença de lebres nas provas. Em todos os sentidos!

Todavia, quando me coloco do lado das organizações (com bons percursos), percebo que, por esta altura, estejam mais preocupadas em escrever o seu nome na história. Todas querem ser primeiras no que toca a um registo abaixo das duas horas.

Já o meu lado atleta e adepto dispensava toda esta obsessão. Este é um feito que virá a acontecer naturalmente. Até chegar esse dia, a emoção e a imprevisibilidade de muitas provas vai ser sacrificada em prol deste acontecimento. O que é extremamente negativo para os amantes do atletismo e para o desporto em si! A ser assim, que chegue rápido este momento tão desejado.

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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