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Correr com o calor do deserto

Correr com o calor para ficarmos amigos

Quem me conhece sabe que não sou nada de fazer amizades por motivos de interesse. Ponto.

Todavia, de há umas semanas para cá que andava a pensar duas vezes em abrir uma excepção para o calor. Não só porque ainda faltam algumas provas até entrar de férias, mas também porque são altas as possibilidades deste moço se manter por cá no último trimestre do ano.

No domingo passado, depois de 15K (Corrida de S. João do Porto 2018) a dar tudo contra o relógio e contra um calor em grande forma, tomei a minha decisão.

Como se costuma dizer, o que “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, portanto, decidi-me a aceitar melhor a maneira de ser deste fulano, na esperança que, daqui a uns dias, o que agora me irritava e deixa desconfortável já não me faça tanta mossa.

Sei de antemão que nunca será uma relação perfeita, pois eu sou um ser humano e nenhum ser humano é perfeito. Bem … whatever, estou para ver o que isto vai dar, mediante os esforços que tenho feito nos últimos dias.

Se eu e o calor nos dermos bem, não só vou ganhar uma nova amizade como as próximas provas de atletismo me vão correr ainda melhor. Para os interessados, passo então a descrever os meus esforços. Quiçá um dia ainda sejamos todos amigos. Eu, vocês e o calor.

 

Correr com o calor - Atletismo

 

Correr em horas de maior calor

Não o faço todos os dias. Porém, tenho dado mais atenção a este indivíduo nas alturas em que ele se encontra em estado de maior euforia. Especialmente quando os meus treinos são mais tranquilos.

Caso contrário, fazer o meu treino a um ritmo exigente e ainda ter que levar com este moço em estado de júbilo, sinceramente não vejo sítio onde a minha mente possa encontrar a tranquilidade necessária para um bom desempenho. Nas provas tenho a minha amiga competição por perto. Já nos treinos, sou eu, o calor e … e … mais ninguém.

Como estava a dizer, tenho então combinado treinos com o calor a meio da manhã e a meio da tarde com relativa frequência. Lentamente, o meu corpo tem despoletado alguns processos de adaptação. Processos que certamente estarão mais afinados daqui a uns dias e que me vão permitir fazer as provas sem ter que me irritar (tanto) com este meu amigo. Ninguém gosta de se zangar com os amigos, não é?

 

Aprender a lidar com o calor – O caso Callum Hawkins

Zanga. Disse eu no ponto anterior. É isso mesmo. Não quero ter “stresses” com o calor. De maneira nenhuma! Já sei que se me salta a tampa com este menino, eu é que vou levar por tabela. Sempre eu. Sempre vós. Nunca ele.

Uma das vítimas mais recentes foi Callum Hawkins, durante a Maratona dos Jogos Commonwealth 2018, realizados em Gold Coast (Austrália). Houve testemunhas e tudo. Ora vejam:

 

 

Agora pensem. Se o nosso corpo aprender a lidar com ele durante os treinos, não só a parte fisiológica estará melhor preparada como o nosso know-how de como gerir as provas será com certeza melhor. Estaremos mais aptos a fazer a melhor escolha dos ritmos a impor.

No caso do Callum Hawkins, ele certamente que se preparou para enfrentar estas condições. O problema é que se Hawkins tinha o calor a falar-lhe no ouvido direito, no esquerdo estava a competição que, pelos vistos, foi longe demais e conseguiu abstraí-lo por completo do seu outro parceiro. O que também nunca deve acontecer.

Mais do que qualquer atleta, se há individuo que nunca, repito, NUNCA, mas NUNCA, deve ser desrespeitado ou menosprezado, é o calor.

Amigos, o calor é mais conhecido que o Cristiano Ronaldo. Os seus comportamentos são conhecidos quer por aqueles que vão nas provas a competir seriamente e a dar tudo o que têm, quer por aqueles que vão em ritmos mais tranquilos. Ou seja, não há desculpa. Aprendam e deixem o vosso corpo aprender a lidar com o calor, ou será perigoso na mesma.

Posso ainda dar um exemplo semelhante. Atentemos nos atletas que fazem uma maratona sem grande preparação. É um facto. Algumas pessoas são realmente capazes de fazer a maratona sem os requisitos mínimos de preparação, independentemente das horas que precisam para a concluir.

Contudo, a grande questão não é a que salta à vista, mas sim a que se esconde por trás. Decidir-se a fazer uma maratona sem o mínimo de preparação poderá deixar graves mazelas no corpo. Afinal de contas, este não teve tempo de criar as adaptações necessárias para a prova. Foi completamente apanhado de surpresa. E depois do susto, pode ser tarde …

 

Correr com o calor

 

O segredo da adaptação ao calor reside em nós

Por esta altura, posso dizer que eu e o calor até nos estamos a entender bem. A confirmar-se que entro no seu círculo de amigos, sei também que não serei o primeiro nem o último a consegui-lo.

Na verdade, esta minha ideia com ponta de interesse teve origem em duas fontes de conhecimento previamente adquiridas.

Primeiro, na especificidade dos treinos de alguns atletas profissionais. Treinos específicos que hoje em dia podemos acompanhar e ter conhecimento a partir dos vários meios de comunicação. Falo dos estágios em zonas com caraterísticas especiais, viagens antecipadas para o local da competição, ou até mesmo treinos em salas, câmaras ou compartimentos que de forma artificial conseguem reunir as condições pretendidas para levar o corpo à adaptação pretendida.

Segundo, pelas provas dadas pelo nosso corpo às quais temos acesso. Não existem melhores provas do que as sensações do nosso corpo. A nossa máquina é fantástica! Pessoalmente, tenho vindo a ter uma maior noção disso mesmo desde que ingressei no atletismo. A nossa máquina tem uma capacidade de adaptação incrível à adversidade e aos estímulos exteriores.

Ora, o calor é apenas mais uma dessas situações a que a nossa máquina se consegue adaptar, a partir do momento que lhe são dadas condições para isso. Por outras palavras, se nas provas em que este meu amigo marcar presença eu já souber como lidar com ele, então aí tudo será mais fácil. Será menos um obstáculo e mais um apoiante durante a minha jornada em busca do sucesso naquele dia.

Amigos atletas, fica a dica. O calor não é assim tão irritante ou desagradável quão certas pessoas o pintam. Se assim fosse, não suspirávamos pela sua chegada durante boa parte do ano. Simplesmente, quando fica eufórico é mais complicado meter-lhe um travão e mostrar-lhe que está a ser desagradável para connosco. Mas nada com o qual não consigamos lidar com uns treinos junto dele a juntar à nossa experiência acumulada.

Bons treinos ao Sol!

 

Referências:

1. Burning with desire: training your body to perform in the heat

2. The Psychological Side of Heat Exhaustion

 

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