Bem-estar diário ou rendimento desportivo? O duelo!

Bem-estar diário ou rendimento desportivo? O duelo!

Afirmar que o bem-estar diário é um factor fundamental para que, em dias de prova, o atleta esteja apto a dar o melhor de si, parece-me um argumento com a qual a maioria das pessoas concordará. No entanto, este assunto, desde há uns meses para cá, tem levantado dúvidas na minha cabeça, visto que, em determinados momentos, o excesso de regularidade e o poder do hábito pode causar danos significativos em dias de competição.

Na realidade, pode parecer muito estranho que esta reflexão se tenha intensificado numa altura em que nem houve competição. Ora, como será esclarecido mais à frente, tem a sua razão de ser, pois a falta de competição acentuou este “problema”.

Mas uma coisa de cada vez. Começo pela competição. O hábito e as rotinas de treino dos atletas impregnam-se de tal modo na sua personalidade que, quando falha com esse compromisso, este é mesmo capaz de fazer, aos olhos dos outros, o que se conhece por “tempestade num copo de água”. Arrisco mesmo dizer que alguns atletas encaram isto como o “fim do mundo”, revelando uma tendência obssessiva para com o treino. Como consequência, o humor da pessoa muda radicalmente, as refeições são encaradas de maneira diferente porque falta o gasto de energia habitual, entre outros comportamentos irritantes e reveladores de frustração (calma, que no dia seguinte já passa tudo).

Uma quebra de rotina que também se sente noutros aspectos da vida. Neste caso, e ainda que falhar um treino porque a vida profissional ou familiar não permitiu, ou decidir “folgar” por livre vontade não seja a mesma coisa, impera sempre uma sensação de estranheza, pois está-se a quebrar um hábito muito forte. Quando, em determinados dias, um atleta se força a descansar ou a abrandar a quilometragem, para obter uma maior sensação de frescura, parece que o treino nem existiu.

Mas, inevitavelmente, a escolha tem que ser feita. Ou se mantém a rotina e o bem-estar diário, e, no dia da competição, as expectativas tornam-se uma miragem. O que pode originar uma tristeza profunda e grande desmotivação para treinar, nos dias seguintes. Ou então, reduz-se o bem-estar de alguns dias pré-competição, reunindo-se melhores condições para se fazer uma grande prova e andar feliz e contente nos dias seguintes. Quando a competição é mais importante e lá se querem fazer diferenças, a escolha terá de ser a segunda.

Por seu lado, a ausência de competição, por estranho que pareça, é ainda mais contraproducente nesta matéria. E aqui se encaixa o porquê deste dilema ter sido intensificado nestes tempos de pandemia. A ausência de provas, para aqueles que se mantiveram motivados para treinar, redobrou a atenção no compromisso com o treino. Todavia, o facto de não haver um treino que conquiste a importância de uma prova (salvo um treino verdadeiramente competitivo, entre amigos, que, como sabemos, também está comprometido), leva o atleta a menosprezar e a riscar do seu plano os dias de folga, ou mais leves, que por norma inseria em vésperas de provas. Por outras palavras, tenta-se o melhor de dois mundos.

Ou de três! No meio deste duelo entre o bem-estar diário e o rendimento desportivo, existem ainda os objectivos para as estatísticas. Porque, hoje em dia, quer-se tudo e não se quer nada. E, sem a presença daquela “força maior” que são as provas – e que fazem o atleta considerar 4 ou 5 vezes se quer mesmo abusar do treino (e, já agora, da comida!) – os objectivos mais secundários (seja em termos pessoais, sociais ou virtuais) ganham presença, ao mesmo tempo que se deixa de ouvir o que o corpo tem para dizer. A máquina até pode berrar “hoje, preciso mesmo de descanso”. Porém, seja porque ainda não se cumpriu o objectivo de passos diário apontado pelo relógio, porque ainda não se falhou um dia de treino neste ano civil, ou porque desde 2020 todas as semanas tiveram mais de 100 quilómetros semanais e esta não pode ser diferente, adensa-se o nevoeiro sobre o objectivo que realmente importante, sendo ele o grande prejudicado da situação.

Concluindo, o importante será o atleta esclarecer na sua cabeça (e relembrar sempre que necessário!) que não se pode “jogar e ganhar em todas as frentes”. Da mesma maneira que é muito complicado ganhar velocidade e resistência ao mesmo tempo, ou fazer dois treinos em dias consecutivos no máximo das capacidades.

O bem-estar diário continua a ser fundamental para o rendimento competitivo, e este texto não procura pôr isso em causa. Contudo, em determinados momentos, é necessário sacrificar um pouco desse bem-estar do dia (o “presente”), para se “colher os frutos” desse esforço mais á frente. Nomeadamente, em dias de prova. Infelizmente, na sociedade actual, parece-me, existe uma agravante: vive-se demasiado o momento, esquece-se facilmente o passado, e pouco se preocupa com o futuro, pelo que fica ainda mais difícil ser competitivo a longo prazo, por mais que se tenha consciência de ser essa a prioridade. As distracções são demasiadas.

Por outro lado, após reflexão sobre o assunto, tomar uma decisão é meio caminho andado para se definir estratégias, a tempo e horas, que tornem mais positivos os dias em que se sacrifica o seu bem-estar (originado pelo hábito do exercício), em favor daqueles que podem marcar uma vida desportiva. Bons treinos!

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

 

Foto de Capa: Pexels do Pixabay

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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