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10 Anos de Atletismo

10 Anos de Atletismo: O que mudou?

2015 – 2025. Uma década de atletismo, marca alcançada já no passado mês de Abril. Acontece que, ou por falta de tempo, ou por falta de convicção sobre ter algo de útil para dizer, fui protelando este texto. Agora, com o aproximar do final do ano civil, e numa espécie de sensação de: ou escrevo sobre isto agora, ou não escrevo mais, lá fui considerando mais perspectivas e acabei por fazer uma escolha. Em concreto, pareceu-me interessante passar esta década em revista na minha cabeça, com o intuito de identificar transformações evidentes, ocorridas ao longo da jornada. Ao colocar-me a pergunta: “o que mudou, ao longo destes 10 anos?”, deparei-me com algumas respostas com substância, que partilho já de seguida. É o que tenho para vos “oferecer”, nesta data comemorativa (atrasada).

 

A corrida, enquanto actividade de bem-estar diário, passou a equilibrar os tempos em relação ao tempo da competição.

No início era tudo sobre competição. Com o passar dos anos, as coisas foram mudando.

A corrida tornou-se um pilar de estabilidade no meu dia-a-dia, o que significa que alguns treinos diários nem sempre correspondem à devida poupança para a competição. A corrida tem a capacidade de mudar o meu estado de espírito (para melhor) e a maneira como encaro o dia, pelo que ter a satisfação do exercício é importante para gerir as questões pessoais, profissionais, e outras com que me deparo. Assim, salvo competições realmente importantes, habituei-me a privilegiar o bem-estar do quotidiano, a troco de algum cansaço extra. A mente compensa.

No entanto, devo também destacar dois momentos que me fizeram reflectir mais a fundo sobre esta dualidade: competição-actividade física, e o querer proteger mais o lema: correr com saúde e em boa forma o maior número de anos possível. Imaginar o impedimento de correr, por alguma lesão grave ou condição de saúde, assusta-me, e a competição exige mais riscos nesse sentido. E quando digo correr riscos, não me refiro a deixar de treinar com intensidade, mas sim ao arriscar demasiado quando os sinais vão em sentido contrário. Algo que fiz recentemente e que me atirou para fora da estrada durante umas boas semanas. Mas este alerta, sobre o privilégio de correr diariamente e todos os benefícios associados, já tinha surgido num momento anterior. Lembrar que não foi há muito tempo que tivemos uma pandemia. Nessa altura, longe da competição, deu para perceber muito bem a diferença entre o ir lá fora dar umas voltas, mesmo sem sair da freguesia, e o ficar fechado em casa.

 

A colaboração em plena competição, sobretudo nas longas distâncias. Sinto-me mais humano.

Talvez por vir de um desporto cujo ambiente em seu redor está muitas vezes “inflamado”, quando cheguei ao atletismo, a cada tiro de partida, assumia que estava por minha conta, quer estivesse bem, quer estivesse mal. Porém, pouco depois, as coisas começaram a mudar. Comecei a perceber que, no meio de tanta individualidade, o atletismo era muito colaborativo, o que foi uma surpresa muito agradável. Constatei-o por via da observação, e por via de gestos de auxílio e apoio de “desconhecidos” (mais tarde, “conhecidos”) que me foram endereçados durante as provas, quando eu já ia em sofrimento. Com o passar das aventuras, fui acumulando mais experiências reais onde esta camaradagem era evidente, pelo que também eu me sinto agora mais humano nesse sentido, e mais responsável por continuar a passar e a manter esse espírito vivo.

Uma outra nota importante sobre este assunto diz respeito à distância que estamos a percorrer em competição. À medida que esta aumenta, o espírito colaborativo, por norma, também cresce. Ou isso, ou em provas muito exigentes em termos de altimetria, pois também notei isso nas poucas provas de montanha que fiz. Por outras palavras, com mais dificuldades pela frente em termos de percurso e de quilómetros a percorrer, o foco da dificuldade começa a mudar da parte humana para essas dificuldades que trazem consigo um maior respeito e uma maior apreensão para com o desafio.

 

A experiência ganhou espaço em relação à irreverência. Agora, tenho as duas opções.

No princípio, era tudo irreverência e ingenuidade. Era o ir à boleia do entusiasmo do tiro de partida; era o correr qualquer prova para um recorde pessoal: fosse o percurso plano ou mais exigente, estivessem 10 ou 30 graus Celsius, tivesse a prova 9600 ou 10000 metros; era competir com muita frequência; Mais tarde, quando alguns dissabores e aventuras começaram a mostrar que nem sempre era ajuizado correr no limite, em troca de se colher melhores frutos a longo prazo, quando estes estivessem prontos a cair da árvore, comecei: a ser mais incisivo nos objectivos; a não insistir com os momentos de forma; a perceber que há muito mais variáveis que podem influenciar um excelente dia de competição, e que essas circunstâncias, contra todas as probabilidades, podem só aparecer no decorrer do esforço;

Isto para dizer que por vezes é bom ter aquela dose de insensatez que nos tira de alguma redoma a que possamos estar acomodados, mas que a experiência, mesmo em troca com alguma frescura existente em anos mais jovens, é também uma bela arma para se gerir todo este projecto de bem-estar e de competição, tanto a curto como a longo prazo. Dito de outro modo, tenho agora uma procura maior pela consistência, para assim abrir espaço para os recordes pessoais aparecerem naturalmente (e dentro de um período mais alargado), em vez de tentar fazer isso por via de um “atirar o barro à parede” em todas as provas que, a cada fracasso, corresponde a um golpe duro na motivação. Como indicio no ponto seguinte, hoje em dia, já não é tanto a motivação que me move, mas muito mais o hábito, o compromisso e o processo. Todavia, deixo esta referência, pois para quem vive mais da competição, a motivação que se perde ou se ganha nesses dias tem de facto um peso muito significativo.

 

Finalmente, o processo a sobrepor-se aos objectivos finais. Os treinos primeiro, as provas depois.

Há uma frase célebre que, numa ou noutra versão, já todos teremos lido algures. Diz mais ou menos assim: “o mais importante é a jornada, não o destino final”. Pessoalmente, isto sempre me fez sentido. Todavia, entre o concordar e o sentir que estou a viver dessa maneira, vai uma grande diferença.

Ora, para meu regozijo, sobretudo nos últimos dois anos de atletismo, comecei a sentir isso em mim. Os objectivos traçados (provas e marcas pessoais) continuam a ser importantes, até porque é sempre necessária alguma clareza naquilo que se pretende a longo prazo. Contudo, se antes havia vários treinos cuja motivação estava fortemente alicerçada no facto de ter esses objectivos competitivos no calendário, hoje em dia, tudo se passa de maneira diferente. Estou muito mais em paz e focado no processo diário, do que obcecado e “alimentado” pelos objectivos traçados. Dito de outro modo, se me parecer sensato passar umas boas semanas longe da competição (embora não goste de exagerar, pois o ritmo competitivo também faz falta), seja por que motivo for, isso já não me assusta ou desmotiva.

A verdade é que ainda não consigo explicar como é que esta “transformação” aconteceu. É possível que a supra referida intenção de privilegiar o “correr bem e com saúde a longo prazo” possa ter aqui o seu impacto. Ou que isto resulte da força de um hábito que foi reforçado quase diariamente ao longo de 10 anos. Seja como for, e onde quer que andem as explicações, certo é que estou a desfrutar e a tirar mais satisfação do processo.

 

O número de caras conhecidas aumentou com o virar dos anos, e daí nasceram boas amizades.

Acumulei milhares de quilómetros nas pernas ao longo destes anos. Mas também “fotografei” muitas caras que, com o passar das provas, passaram de desconhecidas a conhecidas. E isso traz dividendos com muita frequência. A corrida, enquanto exercício para colocar o corpo em movimento, é anti-depressiva por si mesma. Porém, a socialização que a corrida proporciona, seja em dias de prova, seja em dias de treino (onde passamos a cruzar-nos com outras pessoas que correm, caminham, ou pedalam nas suas bicicletas, e que partilham connosco os horários e locais de treino), também o é.

Passado todo este tempo, olhar para trás e recordar os tempos em que me metia em provas sozinho e sem clube, não conhecendo ninguém, para depois regressar ao presente e constatar o retorno que hoje tenho a este nível (há sempre alguém com quem falar e meter a conversa em dia, desde atletas, dirigentes, ou público conhecido), sobressai o sentimento de pertencer efectivamente a uma comunidade, o que ajuda a dar um sentido à vida.

 

Com 2026 aí à porta, faço já os meus votos: haja saúde, discernimento para tomar boas decisões, e vamos para mais uma década!

 

Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto.

O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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