Quando o Atletismo e a Escrita se cruzam

Arte de Escrever

Outro dia, fui fazer um exame médico, no qual o doutor me disse, sobre o assunto em questão:”isso não é defeito, é feitio”. Hoje, não vejo melhor expressão que esta para falar da ligação entre correr e escrever. Porque, das duas, uma: ou é defeito meu (entenda-se: resultante do meu código genético ou do meu ambiente cultural) procurar interligar os vários assuntos que dominam a minha vida. Ou, em alternativa, é feitio meu, ao estilo da teimosia, estabelecer paralelismos entre tudo e mais alguma coisa, como este espaço tem testemunhado. E também este texto. Onde a escrita e a corrida são duas linhas paralelas, como as do comboio (segundo me diziam na primária), com a diferença que mais à frente se cruzam. Mas vamos começar alinhados.

Os treinos do atletismo podem ser de vários tipos: longos, curtos, rápidos, lentos, ou moderados em tudo o que é ingrediente. O mesmo se pode dizer dos textos que se escreve. Entre muitas e poucas palavras, o ritmo empregue nessas passagens pode ser lento e até aborrecido, dotado de uma grande adrenalina, ou variável em termos de fôlego.

Por seu lado, os treinos mais específicos são normalmente divididos em segmentos. Por exemplo, um treino intervalado é composto pelo aquecimento, pelas repetições (esforço e repouso), e pelo arrefecimento. Ora, quem diz segmentos, pode também falar em parágrafos do texto. Da mesma forma que num treino de séries, quando se fala dele a alguém, verifica-se uma tendência para dar atenção quase exclusiva aos ritmos dos intervalos e desvalorizar o tempo do repouso, também na escrita só o escrito fica visível, esquecendo-se aqueles momentos em que, uma vez completo um parágrafo, se parou para pensar (repouso) sobre como arrancar com o seguinte.

Na mesma onda, de lembrar os treinos de recuperação e activação, que permitem a condição física necessária para os treinos mais exigentes, mas aos quais poucas pessoas prestam atenção quando se revê um plano de treino já executado. Isto faz lembrar os parágrafos escritos que, por bons ou maus motivos, acabam no lixo, ou que nunca passarão de meros esboços, mas que desempenham um papel importante no aparecimento de versões melhoradas dos seus conteúdos.

Porém, e ainda na fase dos rascunhos, convém lembrar não apenas os condenados a este estatuto para a vida toda, mas aqueles que vêem a luz do dia: os textos publicados, como é o caso deste. Publicar um texto, no meu caso, é como competir no atletismo. Normalmente, só acontece quando sinto a escrita em boa forma e o conteúdo conexo, ou quando tenho gosto pelo assunto em questão. Por vezes, os resultados são bons. Noutras alturas, desanimadores, tal como numa prova de atletismo. Embora, claro, isto seja muito subjectivo e dependente da perspectiva a que está sujeita essa avaliação. Nem sempre isso corresponde à verdade, isto é, a um possível mau texto. Da mesma forma que uma má prestação não significa necessariamente um mau momento de forma. Pode ser apenas resultado de más decisões tácticas, condições de corrida desfavoráveis, entre outras coisas. Adiante.

Antes de arrumar com este assunto das influências externas, tenho necessidade de falar na importância das pessoas que nos (e agora sinto-me mais à vontade para generalizar) são próximas e/ou que nos apoiam e incentivam. É inegável a sua contribuição para o nosso bom desempenho numa prova (estejam lá de corpo presente, ou na nossa cabeça), tal como as histórias das suas vidas, que tantas vezes nos incitam a escrever sobre algo, ou mesmo a quebrar a resistência que nos tem afastado da escrita. Mesmo não dedilhando nas teclas, são essas pessoas que nos ditam as palavras.

Por falar em resistências, há um terceiro motivo para a minha escrita pública e que me parece ser mais susceptível à influência da preguiça. Refiro-me a textos que não tenho grande vontade de escrever, mas cujos assuntos devem ser abordados. É uma espécie de sentido do dever a falar mais alto (esteja ele certo ou errado), que de algum modo me faz lembrar aqueles treinos e provas à chuva, ao frio, na lama, e debaixo de um vendaval. Nessas ocasiões, embora possa haver alianças com outros motivos, o que me leva a sair porta fora é a consciência de que não treinar ou competir nesse dia equivale a dar um passo atrás na minha aventura desportiva.

Posto isto, ainda que este texto tenha nascido por força dos vários pontos em comum entre o correr e o escrever, as suas origens e propósitos são bastante diferentes. O meu grande interesse pelo desporto, acima do bem estar físico, é a sua vertente competitiva, o que faz do atletismo uma actividade muito objectiva para mim. Por seu lado, a escrita cativa-me pela sua subjectividade. Ou seja, por aqueles textos que fogem de uma componente técnica. É fascinante como às vezes começo a escrever sobre determinado assunto, ou a abordá-lo de uma certa maneira, para depois derivar por caminhos bem diferentes, com o resultado final da reflexão a quebrar as barreiras que eu tinha imaginado.

Contudo, mesmo que ambas, por si só, sejam importantes para o meu bem-estar, é o cruzamento da subjectividade de uma com a objectividade da outra que fazem de mim alguém mais completo. Porque é esta ponte que desfaz o paralelismo e intercepta as duas linhas a meio do caminho que me permite fazer trocas de um lado para o outro. De forma intuitiva, dou por mim a passar a subjectividade da escrita para o atletismo nas alturas em que os objectivos ou as linhas traçadas estão a comprometer a minha motivação para a práctica desportiva. Em sentido contrário, posso escrever sobre a minha frustração ou sobre as minhas alegrias competitivas. Quando o intuito é este, visto que se trata de despojar o que me vai na alma (aliviando-a), transformo-me num fiscal que se limita a fazer o inventário das coisas que saem cá de dentro, o que torna tudo muito mais objectivo.

Por outras palavras, combinar a arte e o desporto desta forma, na minha perspectiva, é primeiro descobrir (primeira travessia da ponte), e depois começar a polir (vaivém de um lado para o outro), uma capacidade, um talento, que desconhecíamos ter e que pode ser de grande utilidade nas mais diversas situações. No meu caso, e saltando dos exemplos do presente para o futuro, se algum dia me quiser transformar num atleta mais irreverente e menos estratega, numa prova em concreto, precisarei de toda a subjectividade que a escrita me oferece “para trocar o chip” de abordagem à competição. De igual modo, se um dia almejar escrever um livro, precisarei da objectividade implícita à longa preparação para uma maratona e de assumir esse compromisso com a mesma vontade férrea com que me preparo para a distância mítica.

A terminar, seja esta divagação um defeito ou feitio exclusivamente meu, agora que descobri este cruzamento, não me posso dissociar dele. E não me importo nada.

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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