O que separa o amadorismo do profissionalismo?

O que separa o amadorismo do profissionalismo

Serei o único a encarar a palavra “amadorismo” – quando associada a alguém – como a falta de capacidade dessa pessoa executar determinada tarefa com distinção em relação à maioria? Que, se assim não fosse, esse indivíduo seria antes caracterizado como “profissional”? Há anos que este automatismo, que agora reconheço como defeituoso, habita na minha cabeça e tem aplicação em qualquer que seja o tema. Mas será só na minha?

Talvez o termo “defeituoso” não seja o mais apropriado. “Incompleto” será mais ajustado, pois na realidade faltavam algumas peças do raciocínio. Nomeadamente, a outra definição de “amador”. Como diz o dicionário Priberam: amador é “o que ama”; “que ou aquele que, por gosto e não por profissão, exerce qualquer ofício ou arte”. Mas pode este raciocínio ser interpretado como uma afirmação indirecta em relação ao profissionalismo? Ou seja, quererá isto dizer que o profissional não faz as coisas com gosto? Em parte, também me parece verdade.

Vejamos o caso do atletismo (quem mais?). Um atleta profissional, com vista a tirar o melhor rendimento de si próprio, não pode treinar apenas quando tem vontade, executar apenas os treinos que gosta, ou mesmo participar exclusivamente em provas que manifesta interesse. Deste lado, os compromissos são mais apertados e, como em tudo na vida, qualquer processo excessivamente repetitivo, por muito que se goste de o executar, satura se não for complementado com outros afazeres e compromissos que permitam, neste caso à corrida, respirar um pouco e suscitar saudade. Se o aborrecimento se instala, o gosto e a vontade desandam, o que se traduz em perdas significativas.

Afinal, e agora de uma perspectiva mais geral, como pode uma pessoa ser considerada profissional em alguma coisa, se nela não aplica o mínimo de gosto e paixão? Não ter estes ingredientes é não ter o essencial para se sobressair na respectiva arte, o que implica despachar os seus compromissos o mais rapidamente possível sem que ninguém se aperceba que o seu trabalho foi mal feito e que está apenas bem disfarçado na cobertura.

Mas voltemos ao atletismo e aos seus profissionais. Como pode um atleta ter rendimento se estiver a correr contrariado ou desmotivado? Como será capaz de suportar treinos bidiários, principalmente se estiver quase sempre ausente o efeito novidade? O resultado só pode ser esse atleta dar em maluco ou entrar em depressão. Consequências? Qualquer possibilidade de mérito desportivo desaparece. O corpo sente toda essa frustração: a falta de vontade de treinar; a ausência daquela alegria que se faz sentir em dias de maior capacidade. Todos os pensamentos puxam o indivíduo para o precipício. Tudo é motivo de desculpa. O cérebro já não corre com o atleta, mas contra ele. Indubitavelmente, quando está na oposição, o cérebro é o inimigo mais brutal que um indivíduo tem que enfrentar. Qual chuva, qual vento forte, qual calor do deserto, qual quê! De igual modo, ele é também o aliado mais poderoso que alguém pode desejar.

Posto isto, sou forçado a concluir que os profissionais necessitam de uma boa dose de amadorismo, ainda que tantas vezes seja complicado conjugar os dois factores. Contudo, se esta perspectiva parece ter apenas um sentido, a verdade é que ela funciona também no sentido inverso. Isto é, há também um grande profissionalismo naqueles que pertencem ao grupo dos amadores. E não poderia ser de outra forma, pois aqui está oculto um outro automatismo, mais afinado e saudável que o supra referido. Não é o amadorismo – na sua definição associada ao amor que cada um de nós tem pelas artes e pelas pessoas – que nos leva a fazer as coisas de forma a roçar a perfeição? Essa qualidade no que fazemos é o que nos distingue, logo, a que nos candidata a profissionais.

Mas então, porque ficam umas pessoas de um lado e outras do outro? Quais os factores decisivos para sermos associados ao grupo do amadorismo ou do profissionalismo? Esta parece ser a pergunta crucial para, de alguma forma, se tentar desfazer a ambiguidade que estas palavras da língua portuguesa suscitam. Serão várias as influências, nomeadamente: a genética, as origens, as pessoas que nos rodeiam, a capacidade de estudo e trabalho, e até mesmo a sorte, que será a variável mais aleatória. Tudo isto culminará nas nossas escolhas, que por sua vez definem o caminho e fecham portas e janelas de oportunidade – algumas, aparentemente, de forma definitiva! – ao mesmo tempo que abrem outras pela primeira ou enésima vez. E com isto somos colocados no grupo do amadorismo em certas coisas, e no grupo dos profissionais noutras. Embora nem sempre estas colocações correspondam às nossas vontades mais profundas, parece-me indiscutível que em nenhuma fase da nossa vida somos amadores em tudo, ou profissionais em tudo.

Aliás, a meu ver, isso corresponderia a um tremendo desequilíbrio no nosso bem-estar. Convicto desta última afirmação, agora sim, parece-me apropriado responder à pergunta que dá título a este texto. O que separa o amadorismo do profissionalismo? Nada! Os dois representam as faces de uma mesma moeda. Os dois asseguram o bom funcionamento do labirinto, repleto de bifurcações, becos sem saída e albergues temporários, que traça o perfil da nossa vida. No meio desta encruzilhada, estão espalhadas as portas e janelas que nós podemos optar por abrir e, em função disso, despoletar alterações no caminho. Tomando consciência que algumas escolhas impedem o o regresso definitivo a caminhos aos quais desejávamos voltar, podemos optar por insistir cegamente nesse reencontro ou afastármo-nos dele o mais possível. Porém, seja qual for a decisão, certo é que pelo meio vão surgir estradas nunca antes calcorreadas. Acessos por via de portas e janelas que vão alargar a nossa percepção do labirinto e revelar outras oportunidades escondidas que estão de acordo com os nossos desejos e vontades. No meio de todas estas aventuras e desventuras, podem surgir descobertas ainda sem qualquer bloqueio ou acesso impedido. Diria mais! Numa dessas novas secções do labirinto, o que impossibilita a existência de uma passagem secreta para um caminho previamente marcado como inacessível para sempre? Nada! A história já deu várias provas que do labirinto mágico da vida tudo se pode esperar. Inclusive sugere que nós não somos os únicos a andar às voltas. Por vezes, instala-se a sensação que o próprio labirinto também gira e reorienta uns, ao mesmo tempo que desorienta outros. Momentos esses que têm tanto de amadorismo como de profissionalismo. Vá se lá saber porquê!

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

Créditos Imagem de Capa: Arek Socha do Pixabay

 

nv-author-image

Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.