Mundiais Atletismo Pista Coberta: Birmingham 2018 – Análise Final

Campeonatos Mundiais Atletismo Pista Coberta - Birmingham 2018 IAAF

Os Campeonatos Mundiais de Atletismo de Pista Coberta, disputados em Birmingham, terminaram no passado domingo. Pela primeira vez, tive oportunidade de acompanhar um evento destes bem de perto.

Uma experiência nova para mim que, inclusive, me permitiu publicar aqui um artigo diário para manter todos os interessados atualizados. Além disso, foi também uma oportunidade de conhecer melhor alguns atletas. Assim como outros novos que podem vir a dar muito que falar no futuro.

Posto isto, deu-me vontade de elaborar um artigo de retrospectiva. Um texto com referência à participação portuguesa e ao que mais me marcou neste evento mundial.

 

Avaliação da comitiva portuguesa em Birmingham

Estiveram de acordo com as expectativas criadas. Será o que vou responder a quem me pedir opinião sobre a representação portuguesa nestes mundiais de pista coberta.

Realisticamente, Nelson Évora era mesmo o único para o qual olhava com boas perspectivas de ser medalhado. O bronze é um grande resultado. No final, o atleta mostrou mais ambição do que o terceiro lugar. De facto, quando se fica a 3 centímetros do Ouro e a um mero centímetro da Prata, aquela sensação ingrata de saber a pouco parece inevitável de contrariar. Porque patamares mais altos ficaram ali tão perto.

Tsanko Arnaudov terá sido aquele que mais fugiu à minha previsão, para menos. Apenas um lançamento válido (19.93m) em três possíveis. Um arremesso longe dos 21.27m, alcançados em Pombal ainda no mês passado. Uma medalha seria muito difícil. Mas uma melhor lugar seria satisfatório.

Uma nota final sobre Portugal. A estafeta feminina. Um recorde nacional acompanhado por um último lugar é bastante estranho. Seja como for, não foi nada disso que mais me despertou a atenção. Foi sim ver o nosso país ali representado. Considero a estafeta uma prova muito agradável de se assistir. Ver as portuguesas em ação naquela prova foi motivo de contentamento para mim.

 

 

Quem será capaz de bater Genzebe Dibaba?

A dobradinha de Genzebe Dibaba nos 1500m e 3000m femininos esteve longe de ser uma surpresa. Depois de tudo o que esta atleta já demonstrou no passado e no presente, a etíope parece ser imbatível. Um estatuto conseguido por mérito próprio. Alguém quer arriscar um nome capaz de a bater no futuro? Não é uma aposta nada fácil.

 

Dibaba venceu, Laura Muir encantou

A presença de Dibaba nestes Mundiais terá sido um dos principais motivos que me levou a vê-los. No entanto, não foi por ela que torci em ambas as provas. Parece incoerente, mas não o é. Até porque tenho muito a tendência de torcer pelos outsiders. Se ganhar sempre o mesmo e com clara superioridade, a prova não tem tanta emoção. Desculpem-me os favoritos.

Adiante. Foi por Laura Muir que torci nas provas em que a atleta escocesa esteve presente. Cada vez mais gosto de ver as suas corridas.

Pela maneira como gere as situações de corrida e põe em prática as várias estratégias.

Por não ser africana. Racismo? Não! Apenas uma prova viva de como os europeus conseguem fazer-lhes frente. Nem que seja só contra os naturalizados. Não estamos assim tão longe. Somos capazes! E continuo na minha. Não fosse Sifan Hassan a colocar-se à frente dela em cima da meta nos 3000m e Muir chegava à Prata.

 

Laura Muir - Mundiais Atletismo Pista Coberta Birmingham 2018

Foto: filip bossuyt

 

Laura Muir e a viagem de táxi entre Glasgow e Birmingham

Agora um bónus, com o qual nem eu contava. No dia anterior aos 3000m femininos, Laura Muir teve pela frente uma viagem de 6 (SEIS!) horas de táxi, para fazer a ligação entre Glasgow e Birmingham. Segundo declarações da própria atleta, foi a solução encontrada pela Federação de Atletismo que representa, depois do forte nevão que se fez sentir ter impossibilitado a viagem de avião que estava programada.

Um imprevisto que podia ter afetado negativamente a parte psicológica da atleta. A reação terá sido mesmo a contrária. Mentalmente, parecia mais forte do que nunca, tendo em conta os desempenhos em pista da atleta escocesa.

 

Pavel Maslák renova título dos 400m com muita polémica

 

Mesmo sendo Ouro, tem sabor a Bronze.Pavel Maslák

 

Estas foram as palavras do checo Pavel Maslák, após renovar o título dos 400m de pista coberta. Desde as eliminatórias que o detentor em título aparentava não ser o atleta mais forte, no momento presente. Mas uma final é uma final e por vezes muita coisa muda. Não mudou. Pelo menos não em pista. Maslák foi apenas terceiro, atrás de Lugelín Santos (República Dominicana) e de Óscar Husillos (Espanha).

Depois de um novo recorde pessoal na meia-final, o atleta espanhol lançou-se no comando do pelotão e viria mesmo a ser o primeiro a cortar a linha de meta, desta vez com um novo recorde europeu. As más notícias chegariam poucos momentos depois. Hussilos e Lugelín eram desqualificados pela organização. O Ouro voltava assim a ficar na posse do atleta checo.

Entre tantas desqualificações, os 400m masculinos foi de longe a prova mais massacrada por esta decisão. Já na primeira ronda de eliminatórias, a organização desqualificou todos os atletas de uma das séries. Nela estava incluído o atleta de Granada, Bralon Taplin, grande candidato ao Ouro.

 

 

Jarret Eaton e Andrew Pozzi – Grande exemplo de companheirismo

Uma das imagens de marca destes Campeonatos Mundiais de Pista Coberta. O companheirismo entre atletas. Não se chama a isto fair-play. É muito para além disso! Entre as várias situações, achei por bem destacar a da final masculina dos 60m barreiras.

Jarret Eaton (E.U.A.) perdeu a vantagem que tinha para Andrew Pozzi (Reino Unido & Irlanda do Norte) na última barreira. A dúvida sobre o vencedor permaneceu até a organização divulgar os resultados. Enquanto estes não chegavam, os dois possíveis vencedores estavam juntos e de mãos dadas. Uma imagem com tanto de invulgar como de espírito desportivo.

 

Chuva de desqualificações com favorecimento caseiro à mistura

O que se passou nos 400m masculinos foi o ponto alto no que diz respeito ao impacto das desqualificações na Arena de Birmingham.

Todavia, muitas outras provas ficaram manchadas por esta posição dos juízes. A meu ver, decisões exageradas em muitos casos. Sanções que levaram atletas do Reino Unido à posição de medalha. Coincidência ou favorecimento? Quem viu as provas que tire as suas ilações. Eu não fiquei convencido pelas decisões tomadas.

A desqualificação da equipa jamaicana na final da estafeta feminina (que ficaria com a Prata), permitiu colocar a equipa da casa no pódio. Algo semelhante aconteceu nos 800m masculinos. Drew Windle, que em alguns sítios ainda é dado como Medalha de Prata, também foi desqualificado por um alegado empurrão. Decisão que permitiu a mais um atleta em representação do Reino Unido & Irlanda do Norte chegar ao bronze (Elliot Giles).

 

O que fica na memória destes Campeonatos Mundiais de Pista Coberta?

Para além de tudo o que já disse aqui:

  • Danil Lysenko a silenciar o público para chegar ao Ouro no salto em altura.
  • O jogo de parada e resposta no salto com vara feminino, protagonizado por Sandi Morris (E.U.A.), Anzhelika Sidorova (ANA) e Katerina Stefanidi (Grécia).
  • A dobradinha da Costa do Marfim nos 60m femininos (Murielle Ahouré e Marie-Josée Ta Lou), contrariando habituais potencias como a Jamaica e os Estados Unidos. Na verdade, a nação norte-americana nem conseguiu ter atletas na final.
  • A prova final de estafeta masculina, que levou a Polónia ao Ouro e a um novo recorde mundial no percurso (3:01.77). Uma corrida cuja indecisão em todas as posições cimeiras permaneceu até final.

 

 

O que diz a tabela de medalhas de Birmingham 2018?

Os Estados Unidos da América voltaram a dominar. Num total de 18 medalhas conquistadas, 6 foram de Ouro, 10 de Prata e 2 de Bronze. Tudo normal até aqui.

Ainda num panorama de contabilização total, a parceria Reino Unido & Irlanda do Norte surge em segundo lugar, com 7 medalhas angariadas. Porém, apenas duas foram de Ouro. As mesmas que a Polónia conquistou, num total de 5. A meu ver, esta nação europeia é a surpresa agradável do topo desta tabela.

Por seu lado, a Etiópia também não surpreende em surgir nos lugares cimeiros. Também com um total de 5 medalhas, esta pode ser mesmo considerada a segunda melhor nação destes mundiais. Quatro dessas medalhas são de Ouro e a que sobra de Prata.

Uma curiosidade para fechar, também ela relacionada com este país africano e com o medalheiro destes campeonatos. Todas as medalhas da Etiópia foram conquistadas nas provas mais longas do evento, em ambos os géneros. Ou seja, nos 1500m e 3000m. Uma demonstração clara do seu domínio neste tipo de corridas. Nem o Quénia, que pode ser considerado o seu maior adversário, foi capaz de lhe fazer frente. O país de Eliud Kipchoge ficou empatado com Portugal (uma de bronze).

 

nv-author-image

Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.