O Atletismo segundo as Regras de Moscovo

O Atletismo segundo as Regras de Moscovo

Em plena Guerra Fria, Moscovo era uma cidade famosa pela sua vigilância extremamente apertada. Como tal, e isto num modo simplificado, os espiões que lá entravam, oriundos de outros países, tinham regras específicas para aquela região, a fim de evitar serem apanhados durante as suas operações. Eram as chamadas “Regras de Moscovo”, que dão nome ao livro de Daniel Silva que ontem acabei de ler.

Ora, apesar do título, e do vasto conhecimento que o autor expõe sobre a Rússia, a Guerra Fria, e o mundo a espionagem, as regras propriamente ditas acabam por cair para um plano muito discreto com o avançar do thriller. Talvez tenha sido uma decisão do próprio autor, tendo em conta que, segundo consegui apurar, as regras tiveram grande destaque em livros do mesmo estilo do consagrado John Le Carré. Um escritor que, antes de o ser, teve uma curta carreira como espião do MI5 e MI6. Por outro lado, é de salientar que as ditas regras, segundo o próprio Daniel Silva, nunca foram escritas num documento oficioso, apesar de agentes clandestinos da CIA terem confirmado a sua aplicação durante os treinos.

Mas onde é que eu ia? Ah, quando terminei o livro, e confrontei a capa pela enésima vez, senti que havia ali um vazio por preencher. Afinal de contas, continuava sem saber as regras. Decidi pesquisá-las, e acabei no Museu Internacional da Espionagem (localizado em Washington D.C.), onde existe uma lista declarada das Regras de Moscovo. Depois de as ler, percebi que, não sendo o atletismo uma Guerra Fria, a utilização deste código de conduta, para quem procura o sucesso em ambientes exclusivamente competitivos, encaixa com relativa facilidade. Ora vejamos (com recurso à minha tradução):

 

Não deduzas nada (Assume nothing)

Em qualquer prova, especialmente quando se luta por pódios ou prémios, existe uma tendência de, antes da corrida, se inspeccionar os atletas presentes e avaliar as hipóteses de entrar ou não nessas classificações de topo. Assumpções que, por sua vez, levam alguns corredores a mudar a sua estratégia inicial. Todavia, a realidade é que nem sempre os momentos de forma dos atletas coincidem. Enquanto uns estão “na mó de cima”, outros podem estar “na mó de baixo”, a recuperar de lesões, do desgaste de alguma maratona, entre outros dilemas, pelo que o melhor conselho talvez continue a ser o de nos preocuparmos exclusivamente connosco, dar o nosso melhor, e logo ver o que dá. Nunca sabemos o dia em que podemos surpreender alguém (teoricamente) mais forte, ou até sermos surpreendidos por atletas que não contávamos.

 

Segue os teus instintos (Never go against your gut)

Pelo menos é desta forma que me aparece apropriada a tradução, em vez da forma literal de “gut” (intestino). Pessoalmente, e ainda de acordo com a regra anterior, em especial na estrada e em provas onde o objectivo não é o RP na distância, eu (por esta altura) sou muito de correr sem olhar para o relógio. De ouvir o corpo, as sensações, e ajustar o ritmo com base nisso. Os resultados costumam ser bons. Também é verdade que já me sai bem em provas onde quebrei esta regra, mas em regime de excepção. Em termos gerais, esta continua a ser a situação mais vencedora.

 

Toda a gente está, provavelmente, a ser controlada (Everyone is potentially under control)

Se é competição, não é uma “corrida a feijões”. Logo, quando estão lugares em disputa, o melhor a assumir é que todos são nossos adversários na luta pelos lugares que nos podem dar destaque. Aliás, esse será sempre o sentido mais básico da palavra “competição”, independentemente do adjectivo que lhe possamos colocar à frente.

 

Não olhes para trás. Nunca estás sozinho. (Don’t look back. You are never completely alone)

Esta é das minhas favoritas, tendo em conta que me parece ser o maior sinal de intranquilidade que podemos dar a quem nos está “a espiar”. Olhar para trás, regra geral, não é um bom indicador. Revela receio, preocupação, que podem ser fruto de uma possível chegada ao limite do esforço. Quem nos vê nesses momentos, se vier em nossa perseguição, mesmo que também não esteja a passar muito bem, pode ganhar algum alento e acreditar que ainda nos pode alcançar. Assim sendo, melhor olhar em frente.

 

Insere-te num grupo (Go with the flow, blend in)

Mais uma tradução que não é literal, mas que julgo ter acertado no seu contexto. Se na espionagem misturar-se com outras pessoas é uma maneira de passar despercebido, no atletismo é sinónimo de nos proteger-mos do inimigo. Seja por via da redução do desgaste físico, seja pela menor exposição ao contacto visual com os rivais que procuram o nosso posicionamento na disputa. Ou seja, fica mais fácil passar despercebido. Então para quem é pequenino … uma maravilha!

 

Varia os comportamentos e mantém-te protegido (Vary your pattern and stay within your cover)

É o chamado jogo das aparências. Se a ausência de um padrão (pattern) permite a um espião não levantar suspeita, para um atleta que seja capaz de assumir diferentes comportamentos durante uma prova (proteger-se, assumir o comando do grupo, atacar, defender-se, etc), tal significa confundir os adversários. Estes terão muito mais dúvidas (e até receios) sobre o próximo passo que hão de dar, pois não conseguem prever uma reacção daquele corredor. É como se o comportamento imprevisível desfizesse a nossa confiança em relação a qualquer tentativa mais arriscada que estivessemos a equacionar. Num caso concreto, isto faz-me lembrar o Mo Farah, salvo erro, nos 10,000 metros dos Jogos Olímpicos de Londres, quando, durante a prova, oscilava entre a cauda do pelotão e a frente do comboio, por vontade própria. E pelo meio ainda caiu.

 

Conduz-los a um estado de complacência (Lull them into a sense of complacency)

Esta regra é visível ainda antes da competição propriamente dita. Parece pandémica. Naquele pequeno convívio que se instala antes da prova, não falta quem se queixe e dê explicações a perguntas que nem chegam a ser feitas. Dores, doenças, poucos dias de treino, é um fartote de justificações para um possível mau rendimento. Chegado o momento do tiro de partida, tais oradores estão bem como sempre estiveram, ao ponto de os perdermos de vista durante a corrida. Uma manobra com a qual até os mais novatos nestas andanças aprendem a lidar rapidamente. Já no que toca às estratégias durante a prova (“vai tu que eu já não posso”, “estou no limite, não consigo puxar”), a história é outra.

 

Não “piques” os adversários (Don’t harass the opposition)

Já dizia um dirigente político, ainda há bem pouco tempo: “quando me picam eu vou melhor”. E é verdade, que eu já assisti a isto. Infelizmente, comigo funciona menos. Mas conheço alguém que quando se sente “picado” por alguém, o seu rendimento sobe de forma considerável. Aliás, até já vi essa pessoa picada por um transeunte, durante um treino, que em tempos de pandemia nos inquiriu (em tom desagradável) pela máscara. Picada, neste caso pela abordagem agressiva, acelerou logo o ritmo do treino. Quem pagou a factura fui eu, que também tive que aumentar o ritmo. Portanto, não piquem!

 

Escolham o tempo e o lugar para a acção (Pick the time and place for action)

Ou devo dizer, para o ataque?! Levar em mente um sítio para entrar verdadeiramente em acção (mudar o ritmo) pode resultar muito bem. De igual modo, não ser demasiado obtuso e fazer algum ajuste a essa decisão, se necessário, consoante as circunstâncias e sensações de corrida. Por si só, a existência desta escolha, que se pode traduzir por plano, pode levar-nos (inconscientemente) a gerir melhor a primeira parte de uma prova, com vista a estar bem no momento-chave, que está sempre mais próximo do fim do filme que do seu início.

 

Mantém as tuas opções em aberto (Keep your options open)

Uma regra que vem complementar a anterior. Manter as opções em aberto é, a meu ver, uma questão de não ceder ao entusiasmo nem tomar decisões por impulso. Uma partida controlada e uma gestão moderada nas respostas aos adversários parece-me a melhor forma de chegar aos momentos decisivos e ser capaz de alcançar o inimigo ou de fugir a quem persegue. Mas estas serão apenas as duas opções mais básicas. Os atletas mais versáteis e em forma podem perfeitamente conquistar mais do que isto.

 

Boas corridas!

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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