Piratas: dos mares para os desportos de resistência?!

Piratas: dos mares para os desportos de resistência?

O tempo dos piratas dos mares já lá vai. O tempo dos piratas informáticos vai chegando, mas ainda não está totalmente cimentado, pelo menos na esfera pública. Entre este passado e futuro, quem podem ser os piratas dos tempos actuais? A meu ver, os corredores de fundo. Ou mesmo aquele grupo de desportistas associados aos desportos de resistência. Pelo menos, foi neste papel que eu me revi, enquanto practicante de atletismo, numa das minhas reflexões mais recentes: um pirata da terra, e não dos mares.

Tudo começa com a ambição mais tradicional de um pirata: encontrar tesouros! Ouro, artefactos antigos, jóias, enfim, o mais diverso tipo de coisas valiosas. Ora, enquanto corredor, eu também tenho como objectivo alcançar vários “tesouros”: por vezes, é um recorde pessoal; noutras, é vencer uma prova; às vezes, é superar rivais; em certos momentos, superar distâncias; Comecei pelo fim, pelo que vou fazer o caminho inverso e focar-me agora na jornada de qualquer um destes piratas. Quero dizer, na aventura propriamente dita, repleta de surpresas e de outras peripécias para todos os gostos.

Na rota indicada no mapa do tesouro, um pirata tem que lutar contra a disposição dos mares e oceanos, que nuns dias estão tranquilos, noutros extremamente agressivos. Na terra, o processo é o mesmo, pois as condições do treino – a jornada diária – dependem das condições climatéricas que se fazem sentir. Qual o ponto em comum? Ambas são situações que nenhum dos piratas consegue controlar.

Seguem-se aquelas em que existe algum controlo. Um pirata desportista também vê o seu rendimento desportivo de cada dia ficar dependente das sensações e condições do corpo. Este último, por vezes também prega as suas partidas, por mais que sejam tidos todos os cuidados fundamentais. No caso dos piratas antigos, a extrema cautela no transporte de bens alimentares nem sempre é eficaz. Por vezes, uma jornada é programa para um determinado tempo e tudo corre bem. Contudo, às vezes os cálculos também falham (ou porque o mar os agarrou a ele durante mais tempo, ou por erro humano), e, como consequência, a capacidade de navegação e de produtividade da tripulação é afectada. Já para não falar nas doenças …

Inevitavelmente, seguem-se as variáveis que um pirata é capaz de controlar. Antes de mais, as tomadas de decisão. No caso de uns, o rumo a tomar. No caso de outros, o treino a executar. Depois, as condições em que se passa da teoria à práctica. Decidir fazer um treino no dia seguinte depois de uma noite passada num bar, ou em casa a ver televisão, até altas horas, não é o mesmo que ir dormir cedinho. O mesmo se aplica nos oceanos, onde repousar em sossego até à alvorada não é igual a esperar por ela ao som das baladas do músico do grupo e a beber sake.

Mas falemos de coisas mais interessantes, neste paralelismo entre corredor e pirata, mar e terra. Nomeadamente, da superação de obstáculos. Seja num treino ou numa prova de resistência, já todos nós passamos por momentos em que o corpo ou a cabeça nos grita para parar. Insiste connosco a cada segundo, enquanto nós recorremos à outra metade para sermos igualmente teimosos em prosseguir. Sofremos muito nesta luta, mas ela leva-nos para lá do que alguma vez tínhamos conseguido. Quer isso signifique correr uma distância maior, ou um certo percurso a uma velocidade mais rápida. Com os piratas mais famosos de todos os tempos, passa-se o mesmo. Têm que ter estaleca, muito arcaboiço, para enfrentarem tempestades; para não virarem costas aos adamastores que lhes aparecem pela frente; para dobrarem cabos das tormentas que nunca antes tinham sido capazes; De igual modo, em ambos os casos, por vezes estes feitos surgem de uma maneira mais individual (correr a solo, ou devido á capacidade de liderança do capitão da embarcação), ou devido à força colectiva (com lebres ou amigos a puxarem por nós, uma tripulação que está em sintonia com o seu líder).

Por falar em grupos, não esquecer as rivalidades e amizades que se criam. Na estrada ganham-se muitos amigos. Uns que extravasam a parte desportiva, outros que ficam excepcionalmente para os momentos desportivos. Amizades que têm as suas repercussões nos dias de competição. Amigos que nos estendem a mão e puxam por nós quando mais precisamos, e vice-versa. Mas também se criam algumas rivalidades menos espontâneas e saudáveis. Melhor dizendo, alguma tensão ou desconforto da nossa parte em relação a outros atletas, que por vezes nos tornam verdadeiros adversários. Não é desejável, mas é inevitável que tenhamos este tipo de sensações em relação a outros. Somos todos humanos, dotados das nossas personalidades peculiares que encaixam bem com as de uns e dão choque com as de outros. Como a história do desporto já demonstrou, no calor da competição, por vezes até se perdem as estribeiras e alimentam-se estas más vibrações. Naturalmente, deste “grupo dos adversários” fazem parte os atletas que queremos deixar para trás mais do que quaisquer outros. Antes perder para um amigo, que para um “inimigo”. E não é nos mares a mesma coisa? Quando duas tripulações se cruzam, das duas, uma: ou há festa, nas horas seguintes, pelo reencontro; ou há combate e pilhagem entre os dois grupos, também com o objectivo de serem os primeiros a chegar ao tesouro apontado no mapa, que na terra se traduz para “meta”.

Para concluir a inversão de todo este processo, falo então do irónico ponto de partida, comum a estes dois tipos de piratas. Ambos partem preparados para abraçar as aventuras e desventuras que a jornada lhes pode oferecer. No entanto, e por mais que o caminho seja o maior provocador de desfrute, o elemento catalisador que faz arrancar a viagem é a imaginação da glória e da felicidade em perspectiva, aquando do encontro com o tesouro. Elementos estes que não têm necessariamente de ser externos. Pelo contrário, serão, acima de tudo, internos. Creio que alcançar um recorde pessoal se traduz numa felicidade muito mais interior do que exterior.

Ainda no contexto do parágrafo anterior, o uso do termo “imaginação” não é inocente, pois é disso que se trata: de uma miragem. Quando um grupo de piratas abandona um cais com um mapa nas mãos do seu capitão, nada lhe garante a chegada ao destino e que o tesouro por lá se encontra. Todavia, isso funciona como motivação para lutarem contra as dificuldades de cada dia. Já em terra, nem as melhores sensações nas pernas, nem os melhores indicadores dos treinos, são garantia de um recorde pessoal, da vitória perante um adversário, ou da conquista de uma prova. Se o dia D for um dia mau, tudo cai por terra, especialmente a parte psicológica, que depois dá muito trabalho voltar a levantar. Mas sobre isto, nada a reclamar. Quando um pirata decide que quer ser pirata, está a assinar um papel que não lhe dá garantias nenhumas, apenas uma grande dose de aventuras e dificuldades.

Levantar âncora!

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

 

Créditos Imagem de Capa: ijmaki por Pixabay

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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