O melhor do desporto não são os recordes do mundo!

Primoz Roglic & Tadej Pogacar - Tour de France 2020

Aquilo que acabei de ver deixou-me completamente em choque. A penúltima (e decisiva!) etapa desta edição da Volta a França acrescentou um momento histórico, não apenas ao ciclismo, mas ao desporto em geral. O que Primoz Roglic e Tadej Pogacar apresentaram ao espectador trata-se de um verdadeiro hino ao desporto competitivo. Sinceramente, não me lembro de ter ficado tão impressionado e agarrado a outro momento desportivo como àquele a que acabei de assistir. De me ter tocado tão lá no fundo. Nem mesmo quando o Éder marcou o golo na final do Campeonato Europeu de futebol.

Antes de prosseguir, uma nota importante é que escrevo isto de cabeça quente e de certa forma anestesiado por aquilo que acabei de ver. Mas entendo que deve ser mesmo assim. Que com a cabeça fria seria uma falta de respeito para com este momento que é tudo menos gélido para a história do desporto.

Disse “momento”? Bem, foram largos minutos e, por isso, talvez a reverberação no meu interior tenha sido maior. Atordoado e apaixonado por aquilo que estava a ver, não senti inclusive a tendência para torcer pela vitória de qualquer um dos dois eslovenos que naquele contrarrelógio discutiam a vitória final na Volta a França. Sentia uma imparcialidade no seu estado mais puro que se sobrepunha a tudo o resto. Estatelado no sofá, olhava para a televisão e constatava a beleza do desporto competitivo: a capacidade de superação dos atletas e a medição de forças entre si que arrasta adeptos para todo o lado, seja para os apoiar, para assistir ao espectáculo que dão, ou para ambas as coisas.

Ora, no meio de tudo isto, em que mais podia pensar? No meu atletismo, pois claro. Não durante vários segundos, pois o que se estava a passar não me permitia grandes devaneios. Apenas instantes suficientes para, em regime de pára-arranca, ir prosseguindo a minha reflexão sobre os tempos actuais e a obsessão que se vive com os recordes do mundo, ao ponto de ser 1 ou 2 atletas que participam verdadeiramente nas provas ou nos desafios que visam esses recordes, enquanto os outros estão lá apenas para fazer de lebres ou para encher a tela. Em ambas as situações, tornou-se uma luta contra ao cronómetro, não uma disputa entre si, o que tem vindo a desfazer, aos poucos e poucos, a definição tradicional do termo “desporto competitivo”.

De volta ao ciclismo, o que Tadej Pogacar fez hoje vai ficar bem vincado na história. Reconheço que se Pogacar não tivesse conseguido a vitória, este momento passaria despercebido a muita gente. No entanto, estas horas nunca deixariam de ser entusiasmantes e arrebatadores a quem lhes dedicou o seu tempo. Inesquecíveis! Foi de tal maneira um espectáculo que, a certa altura, o desfecho já não importava assim tanto, pois já todos estavam a viver o momento na sua plenitude.

Mas esta história, na qual a paixão pelo desporto ganhou fôlegos impensáveis, não acabou aqui. Pelo menos para mim. Terminado o contrarrelógio, ao olhar para os rostos de Roglic e Pogacar, a minha imparcialidade não desarmava. A minha mente, toldada pela força do acontecimento, via Primoz Roglic a reduzir-se ao tamanho da partícula mais pequena que habita neste universo. Ao mesmo tempo, concebia um Pogacar com uma dimensão colossal, capaz de pegar no planeta Terra com a sua mão. Não querendo de alguma forma imputar estas minhas imagens ao que assolou as cabeças dos atletas após cortarem a meta, parece-me certo que, sem intenção, ambos criaram uma marca (ou será “trauma” o termo mais correcto?) indelével na sua cabeça, com a qual terão que viver daqui para a frente. Embora Roglic não tenha um duelo mental nada fácil pela frente, parece-me justo dizer que é ao nível dos seus “super-poderes” que tantas vezes ligam as capacidades atléticas à personalidade do indivíduo.

A concluir, estes dois seres humanos protagonizaram uma tarde história, na qual o ciclismo foi mesmo a fundo na exploração desta dicotomia de sentimentos. Esta etapa-chave do Tour de France 2020 esticou as emoções até ao limite, demonstrando a verdadeira glória e a verdadeira ruína. A “lei” da competição resume-se a isto mesmo, a ganhar e a perder, com a duração alargada do improvável (mas possível!) a intensificar o prazer da competição, seja do espectador, seja do atleta. Portanto, no que toca ao atletismo, é triste ver estas situações genuinamente competitivas a serem substituídas pelo cronómetro, cada vez com mais frequência. Será natural os atletas mais capazes terem objectivos ligados a recordes nas suas cabeças. Contudo, a fim de se manter viva a paixão pelos desportos competitivos, creio que os recordes devem ser encarados como uma consequência natural das disputas competitivas, como estes dois atletas hoje demonstraram muito bem. Mais uma vez, ganhou força aquela expressão que diz que o mais importante não é o destino, mas a jornada em si.

Obrigado Primoz Roglic! Obrigado Tadej Pogacar!

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

Foto de Capa: Clker-Free-Vector-Images do Pixabay

 

nv-author-image

Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.