O desaparecimento da Fórmula Mágica

O desaparecimento da Fórmula Mágica

Aqui estou eu. Sentado numa cadeira em frente à minha secretária. Uma secretária onde pousa um monitor que já me permitiu ler muitos e variados artigos online sobre atletismo, alimentação, repouso, corpo humano, mentalidade, enfim, uma panóplia de coisas que juntas definem a procura pelo melhor rendimento desportivo. Uma leitura muitas vezes complementada com vídeos. De igual modo, pelo tampo desta mesma secretária – onde também se encontra o teclado em que escrevo este artigo – já estacaram e passaram vários livros. Livros desfolhados de uma ponta à outra, percorridos com o mesmo objectivo das tarefas previamente mencionadas: encontrar a Fórmula Mágica.

A Formulá Mágica … Aquela que vai dar o clique no meu rendimento desportivo e catapultar-me para a ribalta. Ora, este sonho doido, desbravado através do trabalho teórico e práctico diário, tem alguma razão de ser. Afinal, algumas destas leituras – umas com mais força do que outras – criam essa ilusão por via do seu conteúdo interessante e entusiasmante. Não me interpretem mal! Boa parte desse conteúdo é, realmente, proveitoso e enriquecedor para o futuro. Porém, não corresponde à sensação que tenho de estar a raspar o papel que detém uma Fórmula Mágica. Com o tempo, com novas reflexões, com alguns testes no terreno, a última ilusão criada em torno desta demanda pela grande metamorfose lá acaba por desaparecer. Todavia, mais à frente, numa questão de dias ou semanas, outra toma o seu lugar.

Assim se resume e encerra um ciclo tantas vezes repetido. Isto é, com a conclusão óbvia de que não existe Fórmula Mágica. Na melhor das hipóteses, se existir, nunca serei capaz de a encontrar. Porque sou um Ser Humano, logo, Imperfeito. Como posso acreditar na existência de uma receita perfeita para mim, quando não tenho visão nem aptidão para identificar algo que seja perfeito?

Volto então ao que consigo controlar. Ou melhor, aperceber-me. Este processo repetitivo que coloca a consciência da inexistência de uma Formula Mágica num frente a frente com a boa dose de loucura, optimismo cego, insensatez, estupidez, inocência – chamem-lhe o que quiserem – de que também sou dotado, acaba por se desgastar com o passar do tempo. Ainda bem, porque andar em círculos é sinal de estar perdido ou de não ter aprendido nada com o passado. Sair desse círculo é dar um passo em direcção a um caminho ainda não calcorreado e, neste caso, é chegar a uma nova conclusão. Mais saudável, mais humana. Nesta nova ilação, mais do que esquecer a procura da Fórmula Mágica, o que realmente sobressai é a ideia do caminho; de que afinal o progresso se encontra no dia a dia em vez de residir naquele destino ambicioso e inalcançável.

De facto, o resultado desta mudança de perspectiva não é grande, é gigante! Pela simples razão de que a ambição passa a ser mensurável e, com ela, a atenção torna-se menos desfocada nas pequenas descobertas que são feitas durante as tarefas que anteriormente visavam a procura da Fórmula Mágica. Agora, sempre que me volto a sentar junto desta secretária, já não viro uma página com o entusiasmo e a ansiedade de esperar encontrar na seguinte (sempre na seguinte!) o que realmente procuro. Actualmente, viro uma página ou faço scroll num artigo enquanto penso de que forma o que acabei de ler faz sentido nos meus métodos de trabalho e nas minhas ideias.

Não sei se me estou a conseguir explicar, mas o que aqui aconteceu foi uma inversão do processo de marcha. Antes, ler e aprender era o caminho, cujo destino final, onde quer que ele fosse (seria a última página de um livro?; a conclusão de um artigo online?), detinha a Fórmula Mágica. Agora, a Fórmula Mágica é apenas a partida e os albergues de um caminho que eu próprio construo e que não tem volta nem fim. Porque quero sempre ser melhor, um objectivo indissociável da procura e da sensação de estar sempre a aprender algo novo.

Indirectamente, esta redefinição do processo e da interpretação da Fórmula Mágica torna-se um escudo protector no combate a uma sociedade que não alimenta a nossa ousadia nem os nossos sonhos, mas que os transforma nas nossas debilidades para seu benefício. A Fórmula Mágica, no seu sentido tradicional, não existe. Contudo, todos os dias somos bombardeados em vários meios com anúncios e publicidade a soluções para resultados rápidos, perfeitos, e sem dor, para vários dos meus ou dos vossos problemas. Ou seja, alimenta-se a sua existência, apenas porque dá jeito.

Concluindo, somos todos seres Imperfeitos, mas cada um possui uma Imperfeição única, impossível de encontrar em qualquer outro. Como consequência disso, cada um está unicamente habilitado a construir a sua própria Fórmula Mágica (não a dos outros!) que, repito, nunca será perfeita, pois nada temos que nos permita rotular o que quer que seja com esse adjectivo, mas que também nada impede de ser uma bela Fórmula, como tantas pessoas ao longo da História foram capazes de o demonstrar, nas mais variadas áreas, tornando-se imortais por via da memória e dos registos que relatam parte das suas vidas. A Fórmula Mágica deve assim ser substituída pelo estudo, trabalho, experiência e dedicação. Todos eles elementos de partida para a construção de uma vida própria. Uma vida que se alimenta do prazer que se sente ao despender energia nestes processos enriquecedores, em vez de os usar como potencias veículos de transporte para um destino que, escondido no nevoeiro, nunca se aproxima. Puff, foi-se a magia.

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

 

Foto Imagem de Capa: Noupload no Pixabay

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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