Após a minha participação na edição deste ano da Maratona de Barcelona, escrevo este texto…

Corrida de Perafita 2025 – Código Bene Gesserit
«Esperança? Nós somos as Bene Gesserit. Nós não temos esperança. Nós planeamos.»
Esta é parte da resposta de Gaius Helen Mohiam a uma pergunta da Princesa Irulan, no segundo filme (Duna: Parte Dois) da mais recente adaptação do universo de Frank Herbert para o cinema (tradução e interpretação minha). Pois bem, sendo eu automaticamente inelegível para fazer parte das Bene Gesserit, ter um plano, que depois se pode adaptar consoante as circunstâncias de corrida, faz parte da minha rotina pré-competitiva. Já a esperança pode ser mais cega e, por norma, mais emocional (embora a intuição tenha uma palavra a dizer), ainda que um plano possa ser também ele estruturado mais à base da emoção e não da racionalidade. Porém, a emoção é uma prova forte da nossa humanidade, e leva-nos por vezes a fazer coisas que não estavam planeadas e a quebrar algumas barreiras, que podem resultar num passo de crescimento decisivo, ou numa grande asneira.
Em Perafita, logo após o tiro de partida, percebi que tinha algumas hipóteses de chegar aos lugares de pódio, e essa esperança cavalgou dentro de mim (lá mandei o plano às urtigas). Possivelmente, isto resultou de alguma frustração e fragilidade emocional, acumulada ao longo das últimas competições, em particular na maratona. Ou seja, isto não foi como um copo de água que encheu rápido e entornou de surpresa. Foi mais ao estilo de uma torneira que não veda e que, pinga a pinga, vai enchendo o recipiente que a bloqueia, até este virar. Estivesse mais tranquilo, e teria dado alguma réplica à tentação do 3º lugar. Não sendo o caso, lancei-me em perseguição à carruagem do pódio, acabei por conseguir encostar, mas sempre com a evidência que aquilo ia mais rápido do que eu desejaria. Dito de outro modo, faltava-me a confiança para ficar tranquilo e convencido que mais à frente conseguiria, fazendo a corrida de trás para a frente (como é mais ao eu estilo) fechar o espaço e, quem sabe, depois até ir mais para a frente. Ao não proceder dessa forma, sabia que ia quebrar, a questão que se colocava era: quando?
Pois bem, entregue totalmente à esperança, alguém teria que ficar para trás primeiro do que eu e, depois da minha quebra, ainda teria que segurar algum espaço para não ser surpreendido nos metros finais. O fraquejar chegou por volta do quilómetro 7, e, como nessa altura tinha alguma margem para segurar o 3º lugar, mais uma vez alimentou-me a esperança. Mas foi tudo tão sofrido! Não me reconheci a andar tanto tempo “no vermelho”, agravado pelo facto de (e eu já conhecia o percurso) da segunda parte da prova ser mais dura que a primeira. Fui tão irracional! Como resultado da já mencionada fragilidade emocional competitiva, penso que quis em demasia aquele 3º lugar, numa prova que não me pedia tanto. Isto traz consequências para os dias seguintes (para o grande plano!), e embora o resultado psicológico tenha sido bom, parece-me claro que repetir (uma e outra vez) este tipo de risco, acabe por inverter a tendência do que se passou em Perafita.
Para terminar onde este texto começou, quer se goste ou não das Bene Gesserit, elas têm um plano, dotado de visão, foco, e de uma ideia clara de como proceder com vista a alcançarem os seus objectivos. E, desse plano, faz parte precisamente um melhor controlo das emoções e de como tirar proveito delas. Já a esperança por si só, isto é, na ausência de um suporte racional, tem uma boa probabilidade de não ser correspondida. E quando a expectativa é grande e o fundamento para ela inexistente, caímos num poço fundo de onde fica complicado depois sair. Desta vez, correu bem. Mas, como no universo de Duna (pelo menos até onde acompanhei), a organização mais “antifrágil” continua a ser a das Bene Gesserit.
Boas corridas!
Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

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