A versão desportiva da internet

versão desportiva da internet - corrida

Por estes dias, é reconhecida a necessidade e dependência que temos da internet. Seja por motivos profissionais, sociais, ou de entretenimento, parece que quando ela nos falta, como volta e meia acontece em dias de tempestade, nos falta tudo. Felizmente, esta relação ainda é, em muitos casos, uma escolha, e não uma obrigação. Não raro, existe a possibilidade de prestar serviços à Rainha internet por via de recibos verdes, em vez de deixarmos a nossa obsessão estabelecer um contrato sem termo. Ao contrário de outros cenários, aqui a precariedade é bem vista.

Ora, de alguma forma, esta última hipótese faz-me lembrar o caso das pessoas que fumam. Regra geral, elas têm consciência que fumar não é benéfico para a saúde, mas fazem-no, pelos mais diversos motivos ou fraquezas. Contudo, quando ao reconhecimento da fraqueza se junta a vontade de deixar de fumar, as possíveis soluções começam a surgir. Não sendo especialista na matéria, talvez a solução mais elementar seja a de trocar o momento do cigarro pelo da pastilha elástica ou do rebuçado. Com a internet não me parece diferente. Só temos que começar a trocar essas horas de ligação ao mundo universal por outro tipo de internets, nomeadamente a desportiva. A password de ligação, para quem não sabe, é “corrida”.

Vejamos. Da mesma maneira que nos podemos ligar à internet tradicional por wi-fi ou dados móveis, também a corrida tem dois estados possíveis, durante a sua práctica. A corrida por Associação e por Desassociação.

Nesta segunda hipótese, o nosso corpo está a correr, mas verifica-se um dos seguintes cenários com a nossa cabeça: estamos a pensar nos nossos problemas ou em outros assuntos da nossa vida; ou estamos a apreciar o que nos rodeia, à medida que progredimos no treino. Em qualquer um destes casos de Desassociação, o ritmo não é exigente para as nossas capacidades, pelo que ambos podem ser representados por ligações wi-fi. Ou seja, embora a ligação com a corrida esteja estabelecida, à semelhança de um computador, há risco da nossa cabeça trocar a ligação actual com outra rede disponível, nomeadamente a da “velha internet”, por força das vicissitudes da vida que nos apoquentam. Em contrapartida, quando nos envolvemos com as paisagens e pessoas à nossa volta durante o treino, acontece algo semelhante a quando vamos a um café ou restaurante. O vício de nos ligarmos ao wi-fi intervém numa primeira fase, mas a conversa com quem nos acompanha é tão interessante que acabamos mesmo por não fazer qualquer uso dessa ligação. O mesmo que estar no computador com a internet ligada e estar a escrever no Word.

Por outro lado, quando o treino é intenso, bem, aí não há ligação wi-fi que se consiga manter estável. O trabalho solicitado ao corpo e a concentração necessária ao exercício e aos perigos da estrada, da floresta ou parque (sabe-se lá quando pode aparecer um urso ou javali), ou da pista (outros atletas a treinarem com intensidade nas pistas interiores), obriga-nos a uma ligação mais rápida, concentrada e evoluída. Nestas alturas, quem dá mais garantias é a ligação aos dados móveis (em breve nos 5G), uma vez que precisamos de mais velocidade. Naturalmente que isto implica um maior consumo de dados (entenda-se: energia), pelo que existe uma probabilidade alta de esgotarmos os dados móveis durante estestreinos. A consequência não é apenas imediata, mas também uma espera de vários dias até termos dados suficientes para repetir um treino de alta intensidade. Até lá, há que ser paciente e treinar com ligação wi-fi.

Posto isto, não é de admirar que, durante as provas, a internet desportiva esteja mais segura no seu posto. Há uma alternância entre aquilo que é a competição em si, e o convívio com os atletas e com os espectadores. Se nos dias de tempestade em que ficamos sem internet parece que nos falta tudo, aqui acontece o processo inverso. A competição devolve-nos essa tempestade, mas sem a necessidade da velha internet. Como se apenas conhecêssemos a internet desportiva, onde vamos variando a ligação entre o ambiente ao nosso redor (wi-fi) e o esforço do exercício (dados móveis), não sendo por isso de estranhar que excedamos as nossas limitações imaginárias por estes dias. O suporte do wi-fi faz os dados móveis durarem mais tempo.

Boas corridas!

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

Foto: Pxfuel

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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