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Nas pegadas de Arthur Lydiard – Fim da Fase 2

Como anunciado no artigo da apresentação desta fase 2 do plano de Arthur Lydiard, com a chegada do COVID-19 havia o risco desta rubrica entrar em hiato indefinidamente. Assim vai ser, uma vez que este meu plano esteve interrompido demasiado tempo. O risco de tirar conclusões enviesadas sobre as próximas fases desta metodologia (e no seu todo!) seria bastante grande, pelo que fará mais sentido fazê-lo quando reunir novamente condições e vontade para reiniciar estes trabalhos.

Na realidade, mesmo que tivesse seguido os treinos sem problemas, por si só, a ausência da variável competitiva nesta equação, que se adivinha nos próximos tempos, seria razão suficiente para modificar por completo os resultados. No entanto, como ainda trabalhei alguns dias nesta fase 2 em 2020, e de uma maneira mais completa no primeiro trimestre de 2018, sinto-me capaz de aqui poder deixar as conclusões mais gerais sobre a fase 2 deste método e assim não deixar isto em aberto. Vamos a isso!

 

A estranheza de sair da rotina

Este será o primeiro impacto que um atleta sente quando se decidi a pôr em práctica este plano e chega à fase 2. Para alguém que está habituado a correr diariamente uma boa dezena de quilómetros, torna-se muito estranho chegar a este momento do plano e modificar quase por completo a rotina.

De 7 dias a somar quilómetros na fase anterior, sobrevive apenas o treino mais longo, com os restantes 6 dias a serem dedicados a exercícios técnicos. Assim, a força e confiança com que se aborda esta fase 2 depende muito dos resultados obtidos na sua antecessora. Chegar a esta altura da jornada motivado com os desempenhos recentes leva o atleta a não questionar o que aqui é solicitado. Por outro lado, se as coisas não tiverem corrido bem, o mais certo é franzir bastante o sobrolho quando olhar para esta parte do plano. Ora, como se costuma dizer, “primeiro estranha-se e depois entranha-se”. Após 1/2 semanas de trabalho nesta fase, já tudo parece normal. Num piscar de olhos, chega a seguinte!

 

O circuito de Arthur Lydiard requer vigilância constante!

Não subestimar o circuito!

Já na altura em que apresentei esta fase o realcei, mas creio que não seja por demais voltar a alertar. Não exagerar nas repetições no(s) primeiro(s) dias por se pensar que tudo isto é muito fácil quando comparado com a fase anterior. Os exercícios, particularmente os da fase de ascensão, são bastante exigentes para o corpo, para não falar das descidas em ritmo acelerado que deixam os músculos todos espalmados. O primeiro dia no circuito será suficiente para entenderem melhor as minhas palavras. Posteriormente, com o decorrer da semana, será possível (e recomendado!) avaliar como o corpo se sente e fazer escolhas sensatas. Não esquecer que esta práctica do circuito de Lydiard acontece, de forma alternada, em 3 dias da semana e, portanto, é fácil acumular-se o desgaste nos vários elementos que constituem a máquina fantástica que é o corpo humano. Tendo isto em conta, na minha opinião, colocar um treino apenas de corrida leve a meio da semana para aliviar o esforço técnico nas articulações e nos músculos não me parece nada despropositado.

 

A exposição das fragilidades do corpo

Se não há muito que possa dizer em relação à fase de descida e aos windsprints na base do circuito, pois são relativamente tranquilos, tenho algo mais a dizer sobre as subidas. Nesta altura do circuito, a concentração no exercício permite identificar fragilidades, deficiências, maus hábitos – o que lhe quiserem chamar – presentes no corpo ou na técnica de corrida. Nestes momentos, torna-se fácil perceber os desequilíbrios que temos num lado do corpo em relação ao outro. Particularmente quando o treino já estiver perto do fim, visto que o desgaste já é maior e as vulnerabilidades ficam todas expostas.

Não quer isto dizer que seja fácil identificar a origem do problema! Contudo, é possível, por exemplo, perceber: se a recepção no solo de um pé é diferente da do outro; se no momento do impacto um lado do corpo oscila mais do que o outro; se, no momento de descolagem, a força e fluidez com que a perna em contacto com o solo alonga e sai do chão é diferente da vizinha; entre outras coisas.

Repito! Não confundir a origem do problema com o epicentro do mesmo. Entre as duas situações, este treino é óptimo para a segunda. O dito cujo permite ver/sentir algumas assimetrias no corpo, ou até mesmo lacunas do ciclo de marcha que executamos a cada passada.

 

Sobre os restantes exercícios da semana

De igual modo, subestimar os dias que têm no programa as “acelerações em modo relax” ou os treinos de “velocidade de pernas” pode ser um grande erro. Especialmente no segundo caso, onde, como já foi explicado, o objectivo é fazer o movimento de rotação das pernas mais rápido possível. Quem não estiver habituado a este tipo de trabalho, ao fim de 4 ou 5 repetições o desgaste é evidente. Não por uma questão de oxigénio, mas sim por causa da componente biomecânica.

Em relação às “acelerações em modo relax”, sentir os músculos espalmados e as articulações mais sensíveis, ambos aspectos resultantes do esforço dos dias anteriores, pode ser o que o atleta precisa para cumprir com o objectivo do treino. Afinal de contas, em dias de maior frescura, a tentação e capacidade para se ir além deste ponto e forçar o sprint é sempre maior.

 

O treino longo da semana deve ser lento!

Sim, isto parece um pouco contraditório após uma primeira fase onde não havia treinos lentos. Porém, quer por experiência, mas acima de tudo com a indicação/fonte que o leitor João Pateira me providenciou no artigo de apresentação desta fase, fica claro que o treino deve ser lento.

Assim antes de terminar, tenho de voltar a repetir: para um corpo que não está habituado a fazer este tipo de trabalho, não abusar nos primeiros dias a fim de se perceber o impacto dos treinos. De seguida, e após 6 dias de treinos muito técnicos, o dia do treino longo será, acima de tudo, para o corpo recuperar; para não agravar as queixas apresentadas com origem nos circuitos e nos sprints diários; e, por último, para não esquecer o que significa correr muitos quilómetros seguidos, ainda que o ritmo seja mais confortável.

 

Conclusão

Em jeito de conclusão, e sendo esta a fase mais debatida de todo o método de Arthur Lydiard, a minha ideia era, com esta segunda experiência no plano, poder reforçar ou contrariar a sua importância neste plano. Como já referi, há quem a considere imprescindível, enquanto outros a vêem como perfeitamente dispensável.

No meu caso, posso apenas dizer que, em 2018, quando coloquei este método em práctica e o levei até ao fim, os resultados competitivos apareceram ao longo de toda a jornada, a qual incluiu esta fase 2. Em 2020, nesta segunda experiência, iria “tirar as teimas”. Acontece que, com a chegada do COVID-19 e os treinos no pátio, esta apreciação final ao circuito de Arthur Lydiard e seus complementos já não foi possível.

Porém, independentemente daquela que fosse a minha apreciação final sobre a importância deste trabalho para o rendimento competitivo, o que disse em cima sobre a detecção de deficiências na técnica de corrida não deve ser de modo algum desvalorizado. Quer isto dizer que, pelo menos indirectamente, o trabalho técnico aqui desenvolvido parece-me fundamental, quer desse ponto de vista, quer como um método de trabalho para desenvolver músculos e articulações que tantas vezes ficam para segundo plano na rotina do atleta por a prioridade pertencer sempre aos treinos de corrida ininterruptos.

Sem aventuras à maneira de Arthur Lydiard para relatar no Vida de Maratonista nos próximos tempos, outras coisas escreverei por aqui. Porque com ou sem COVID-19, em casa ou na estrada, na teoria ou na práctica, a aventura continua 🙂

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

Créditos Foto de Capa: Visually Us no Pexels

 

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