3ª São Silvestre Mozelos – Como fugir das Trevas

3ª São Silvestre Mozelos 2021

11 de Dezembro de 2021. Mozelos, Santa Maria da Feira. Chegaram as 17 horas, com mais segundo ou menos segundo. Apesar do frio, o céu está practicamente limpo, e a claridade faz parte do público quando é dada a partida desta prova, com início nos calabouços da freguesia. Mas estas masmorras a céu aberto não são um problema para quem prefere o nível do mar, visto que, mais à frente, a corrida aproxima-me da parte superior daquela terra. Logo depois, fico na dúvida, já que isto de andar para cima e para baixo atinge o mesmo propósito de pegar num conjunto de cartas e baralhá-lo. Já o esforço, esse é bastante maior.

Adiante. 9 minutos e 50 segundos após ter começado a correr, estou a passar precisamente pelo ponto de partida. Algo me parece ligeiramente diferente, contudo, ignoro essa percepção. E embora já conformado que naquele lugar não há maneira de fugir às subidas, e consequentes descidas (abençoadas sejam!), isso não me permite desligar a concentração. Porque a monotonia é sábia. Nestes circuitos, não mete ela os pés. Siga para mais uma volta …

… e mais um regresso ao pórtico onde tudo começou. Decorreram 10 minutos e 10 segundos desde a minha última visita ao local. Demorei mais tempo que na primeira vez, mas isso não me apoquenta. Por outro lado, a minha atenção já não pode ignorar o que a despertou na passagem anterior: está bastante mais escuro. O que aconteceu ao dia? Será esta falta de luminosidade um acontecimento natural? Ou é o esforço físico que me cega? Bem, seja como for, dizem que não há duas sem três, pelo que sinto-me na obrigação de dar uma última volta. Quem sabe, não venha a descobrir algo mais sobre este mistério.

De facto, não foi preciso esperar muito. Logo depois, tudo ficou escuro como breu. Chegaram as trevas, como já era previsível, mas continuo incapaz de discernir as suas origens. Olho para trás e tudo fica pior. Há um vulto, uma sombra lá atrás, a cerca de 130 metros. Não lhe consigo discernir feições, pelo que continuo na dúvida se tudo isto não é uma ilusão provocada pelo meu esforço?! Com pernas mais frescas, talvez a história fosse outra. Nestas condições, já não sou capaz de arriscar, pelo que tento distanciar-me daquele candidato a Guerreiro das Trevas. Ou será um Dementor? As famosas criaturas do universo de J. K. Rowling que se alimentam das nossas memórias felizes? Será que vieram buscar as memórias das minhas maratonas? Melhor fugir …

… até onde der! Recordo que só planeei mais uma volta, e de facto foi para isso que deu. 10 minutos e 16 segundos desde a última passagem no ponto de partida, e ali me despojo por completo. Não tenho mais forças. De facto, não tenho qualquer coisa que seja. Estou completamente vazio! Mas nem isso me aproximou da luz. Continua escuro como breu. E mesmo sem conseguir olhar para trás, não me apercebo da aproximação de nenhum vulto. Talvez fosse tudo imaginação minha.

Ou não! Porque a partir do momento em que fiquei vazio, julgo que deixei de ter interesse. Inclusive foram-se as minhas virtudes e os meus defeitos. E quando assim é, somos úteis a alguém para alguma coisa? O que desejaria um Guerreiro das Trevas de mim neste estado? Ou um Dementor? Nem as memórias más resistiram ao meu esforço, quanto mais as boas. O mais certo é essas criaturas terem seguido o seu caminho quando me despojei na meta. Desapareci do seu radar. Já a escuridão em si, ainda permanecerá por mais umas horas. Mas eu estou tranquilo. Como a fénix que renasce, só com o passar dos minutos vou recuperar algumas forças e alguma energia. Vai levar o seu tempo, e quando estiver novamente apto a dar alguma coisa a alguém, quando tiver sinais fortes de vitalidade, já o Sol terá regressado e as Trevas estarão a fazer o seu turno noutra região.

Assim, com este despojo físico, que por inerência nos purifica o espírito, escapamos, uma e outra vez, às Trevas. E o mesmo parece acontecer quando desapertamos a garganta e se liberta cá para fora o que nos vai na alma. Apesar do sentido deste processo ser o inverso do primeiro, muitas vezes acabamos também a arfar.

E ainda como aquelas noites em que o tédio e a frustração tomam conta de nós e a melhor solução passa por nos enfiarmos na cama, a fim de que uma boa noite de sono acelere o nosso regresso à luz. Porque quando o Sol aparecer, já existe outra vez a alegria de viver. Não é assim que renascemos todos os dias? Ou será esta capacidade exclusiva da minha pessoa, visto que esse parece ser o significado do meu nome?

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

Créditos Foto: António José Leite

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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