O Peso da Consciência no Alto Rendimento

Peso da Consciência no Alto Rendimento Desportivo

A dúvida ocorreu-me alguns dias depois de terminar de ler “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera. Embora esta seja uma obra que incide principalmente no amor, o livro permite-nos derivar para outras coisas, basta nos predispormos a isso. Foi o que aconteceu comigo. Alicerçado na leitura completa deste trabalho do escritor checo, quando voltei a confrontar-me com o título de dois dos capítulos – “A Leveza e o Peso” – eis que, de forma não programada, aparece o substantivo “idade” no palco da minha mente, para me interrogar sobre o seguinte: quando vemos um atleta na casa dos 35/40 anos, faz realmente sentido dizer que já devia estar reformado do desporto profissional? Ou não será esta uma afirmação pré-concebida, sem qualquer tipo de interrogação?

Vejamos. Uma coisa são os desportos de impacto, como o futebol, onde é difícil, ao fim de tantos anos, não haver traumatismos, pequenas fracturas, e coisas do género, que se acumulam e intensificam ao longo do tempo, condicionando o movimento do corpo e até intensificando possiveís dores. Outra, bem diferente, são os desportos que evitam o contacto físico entre atletas, ou nos quais este é mínimo. Neste segundo grupo, se colocarmos de lado as questões genéticas, a idade de integração no desporto, e possíveis lesões de relevo, então o que sobra com capacidade para distinguir os desempenhos em benefício de um atleta jovem comparativamente a um atleta mais velho? Segundo a minha própria interpretação: a leveza e o peso.

Por outras palavras, em cima da mesa desta análise restam a irreverência do jovem (leveza) e a experiência do atleta mais velho (peso). E não será isto matéria suficiente para um extenso debate? Não poderá estar aqui a grande diferença, oculta por uma sociedade que, quer me parecer, desconsidera cada vez mais os “velhos” (cuja sabedoria é inigualável), e atribui este rótulo de forma tão prematura e com a maior das descontracções, não só no desporto, como também em algumas funções específicas em determinadas áreas profissionais?

Mas, para não fugir ao que aqui me trouxe, regresso à diferenciação. Começo pelo atleta mais jovem. Como já o classifiquei, este é mais irreverente, o que, por sua vez, o leva a correr mais riscos e a desafiar com mais afinco aqueles que podem ser os seus limites físicos e mentais. Se isto corre bem na maior parte das vezes, começa a nascer ali um campeão. Caso contrário, ou a força mental é grande, ou o nevoeiro que se apresenta neste caminho das frustrações pode nunca mais levantar, ficando o atleta sem saber como sair dali. Mas ser jovem é isto mesmo, é ter uma dose elevada de curiosidade e decidir-se a explorar as várias alternativas, à falta de noção ou de conhecimento das mesmas. Resumindo, a ignorância e o desconhecimento torna-nos leves.

Do outro lado, temos a experiência acumulada do atleta mais velho, que pode traduzir-se num espectáculo de equilibrismo protagonizado pelo próprio. Para se manter na actuação, este tem “apenas” de se libertar de tudo o que já viveu e focar-se no momento presente da sua prestação. De outro modo, só lhe restam dois destinos. Ou cede à pressão da sociedade e deixa-se invadir pela mentalidade do “já não tens idade para isso”, tombando para a esquerda no seu número. Ou então, sente o peso de toda a experiência acumulada em situações anteriores, que colocam um travão em qualquer iniciativa mais proactiva e irreverente que lhe possa ter ocorrido (exemplo: tomar a dianteira de uma prova), e tomba para a direita na sua manobra de equilibrismo.

Em suma, e embora possam ser muitos os factores a contribuírem para as diferenças de desempenho entre atletas, se removermos todos os filtros, fica confuso compreender que pessoas com mais de 30 anos, e pelo menos na primeira fase dos 40, que ainda estejam “cheias de vida” pela forma regrada como a têm vivido, não sejam capazes de se baterem com os de 20 anos. Salvo seja, pelo peso que as suas consciências carregam e que se foi acumulando à medida que os anos passaram, em função das suas vivências. Ou isso, ou o (aceitável) desgaste de muitos anos sempre a fazer a mesma coisa e a seguir a mesma rotina que, à falta de um efeito novidade ou redefinição de objectivos, de tempos a tempos, também atinge o seu ponto de saturação. Se isso acontece nos nossos trabalhos e até nas nossas relações com as pessoas, porque há de ser diferente com uma vida desportiva profissional?

Dá que pensar … Até eu, ao trazer cá para fora esta reflexão, em certa medida, aliviei o armário da minha consciência, e sinto-me agora mais leve.

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

Imagem de Capa: pasja1000 do Pixabay

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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