A mensagem de Bekele na Porta de Brandemburgo!

A mensagem de Bekele na Porta de Brandemburgo!

Há dias atrás, apresentei aqui a minha pseudo-antevisão sobre a edição deste ano da BMW Maratona de Berlim. Um artigo onde demonstrei pouca convicção num novo recorde do mundo, colocando fora dessas contas o etíope Kenenisa Bekele.

Ontem, quando soube do resultado da prova, senti-me a engolir um sapo. Mas com gosto! Com registo de 02:01:41, Bekele não superou o recorde do mundo da maratona por meros 3 segundos. Se eu não soubesse o quanto custa tirar 2 ou 3 segundos aos recordes, até estaria agora indignado por Bekele não ter superado as 02:01:39.

Portanto, para quem desvalorizou as capacidades de Bekele nos 42195 metros, passei agora a ser o seu maior fã?! Não é bem isso. É verdade que a minha confiança nas prestações de Bekele saiu reforçada de Berlim, pois os últimos anos foram muito complicados para o etíope. No entanto, enquanto adepto do atletismo, o que me deixou verdadeiramente feliz foi a “mensagem” que Bekele transmitiu para todo o mundo ao cruzar a Porta de Brandemburgo com aquela marca.

 

Eliud Kipchoge? Afinal, há mais candidatos!

Passo a explicar. Numa altura em que todas as atenções se centram em Eliud Kipchoge – o que faz o seu sentido, pois o seu histórico na maratona é soberbo – inconscientemente começamos a mentalizar-nos que enquanto ele não baixar as 2 horas na distância, mais ninguém o vai conseguir. Ontem, Kenenisa Bekele mostrou que pode não ser bem assim.

Quando projetos como o “Breaking2” da Nike e o “1:59 Challenge” da INEOS procuram as condições climatéricas, a alimentação, o equipamento e os percursos perfeitos para os seus melhores “atores”, com vista a baixar as 2 horas de prova, Berlim mostrou que pode não ser precisa tanta artificialidade e doping tecnológico consentido para a 1 hora e 59 minutos de prova se tornar uma realidade.

Pessoalmente, estou claramente convicto que essa marca vai surgir no futuro. Seja mais tarde ou mais cedo. Portanto, porque não deixar a natureza seguir o seu curso normal? Porquê tanta necessidade de forçar este casamento que só ainda não tem data marcada?

 

A grave perda de protagonismo dos atletas

Em cima, não foi por acaso que utilizei a palavra “atores”. Sem nos apercebermos, os atletas – os verdadeiros protagonistas – passaram para segundo plano. Os seus nomes são citados mas, para quem tem quase todo o trabalho e mérito, surgem nas trends lado a lado com termos de menor importância, como o nome da marca que está por trás, das sapatilhas utilizadas, da marca de géis consumidos, etc. Ora isto é reflexo das nossas conversas em torno destes desafios, que passaram a incidir mais sobre os pormenores e não sobre os pormaiores.

Ao escrever estas palavras, fico ainda mais preocupado do que antes, pois em simultâneo estou a refletir mais profundamente sobre o assunto. Quando não se fala dos atletas, não se fala da competição. Quando se criam provas artificiais para se lutarem contra os tempos, não se fala dos duelos entre rivais, pois eles deixam de existir.

O que seria do atletismo sem os comebacks fantásticos dos protagonistas e aquelas quebras quando menos se espera? Onde estaria a piada de competir contra atletas cujas caraterísticas desconhecemos e, portanto, indecisos entre deixar a luta para a linha de meta ou tentar deixá-los para trás antes disso? Sem estas variáveis, qual o interesse do espectador em acompanhar o atletismo?

 

Cada um sabe qual é o seu papel, para quê interferir?

O atleta tem que fazer o seu papel. A natureza tem que fazer o seu papel. O percurso da prova tem que fazer o seu papel. A combinação destes três fatores resulta na vontade do espectador em ver o que vai acontecer e no desafio interior do atleta em reagir perante as adversidades que surgem e as investidas dos seus rivais. Para quê complicar e adulterar o que está tão bem?

De volta a Berlim e ao tema, identifico na prestação de Kenenisa Bekele um grande incentivo aos seus companheiros de profissão mais talentosos. Em palavras minhas, encontro no desempenho do etíope uma mensagem que expresso da seguinte forma:

 

[blockquote align=”none” author=””]Não estejam à espera que o Kipchoge baixe das 2 horas para acreditarem que só aí será possível também o conseguirem. Não esperem pelas condições perfeitas, mas trabalhem nesse sentido os parâmetros que vocês conseguem controlar.[/blockquote]

 

Faltam poucos dias para o INEOS 1:59 Challenge e posso ter de engolir também algumas destas palavras. Nomeadamente as que dizem respeito à marca das 2 horas, caso Kipchoge quebre mesmo o registo. Porém, se isso acontecer, não o farei com a mesma satisfação que desta vez, ainda que tenha maior admiração por Kipchoge do que por Bekele. Para além do registo não vir a ser oficializado.

Quando penso em grandes momentos recentes da história do atletismo, lembro-me da Greath North Run de 2013, com uma luta fantástica entre Bekele, Mo Farah e Haile Gebrselassie, complementada por um público extremamente animado perante a dúvida de quem seria o grande vencedor.

 

Greath North Run 2013 – Kenenisa Bekele, Mo Farah e Haile Gebrselassie

 

 

Lembro-me da vitória de Yuki Kawauchi em Boston, no ano 2018, contra todas as probabilidades, por ter oferecido maior resistência que os grandes favoritos às condições atmosféricas que se fizeram sentir.

 

Yuki Kawauchi vence Maratona de Boston 2018

 

 

Todavia, nenhum destes exemplos encaixa nos parâmetros destes projetos modernos dominados pela tecnologia e pela ciência. Porque elas são inevitavelmente importantes para o homem e para o mundo. Porém, devem estar ao nosso lado e não num patamar mais privilegiado em relação a nós.

Nesta segunda situação, perde-se a alma que só o homem consegue trazer a este tipo de desportos e lhes permite respirar saúde. Ou seja, o que ainda não percebemos (ou não queremos perceber!) é que sem a nossa assinatura destacada, a conquista torna-se mais insípida para o seu executante e é desvalorizada por boa parte dos adeptos do desporto. O que sobra? O marketing agressivo das marcas, entranhado no nosso subconsciente, e uma sensação de vazio a moer-nos o espírito.

 

Photo by Lim CK on Foter.com / CC BY-NC-ND

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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