Meia Maratona Douro Verde – Ego e Responsabilidade

Meia Maratona Douro Verde - Ribadouro, Baião

Pela primeira vez, desde a minha chegada ao atletismo, participei numa prova de estafeta. Longe vão os tempos em que andei por desportos colectivos, pelo que só agora experienciei uma versão mais altruísta desta modalidade que tanto me cativa. Terminado o desafio, sou levado a dizer que a estafeta é um cocktail muito curioso. No sentido em que nos chama à responsabilidade e suaviza o Ego. Vejamos.

Todos os dias, são múltiplas as situações que se nos apresentam com duas portas de saída. De um lado, podemos intervir nelas activamente e assumir os riscos pela posição tomada (uma porta). Por outro, podemos deixar as coisas seguir o seu curso e desempenhar um papel de mero espectador (outra porta). Em ambos os casos, só sabemos o que está para lá da porta (desfecho) ao atravessá-la. No entanto, na primeira hipótese, tentamos exercer algum controlo sobre o caminho que a nossa vida leva. Já na segunda, quando se verifica a apatia, não há um grande interesse, ou não é significativo, assumir esse risco.

Ironicamente (dou por mim a pensar, depois do último domingo), é muito mais difícil deixar passar essa chamada à responsabilidade quando alguém por quem temos estima nos incumbe de alguma tarefa. Entre família, amigos, e até relações profissionais saudáveis, encontramos as pessoas que não queremos desiludir. Essa confiança e esse apreço têm um peso: entenda-se, uma maior incapacidade de dizer “não” a essa chamada à responsabilidade. Porque ali não é apenas a indiferença pela nossa vida que está em jogo, mas (e sobretudo) a consideração que temos pela pessoa que nos convocou para tal missão. Em linguagem de corrida, isto é o mesmo que dizer que, numa prova individual, podemos abrandar se nos permitirmos a isso; ou ir ao limite se nos forçarmos a tal; em grande parte desses casos, essa é uma discussão quase exclusivamente centrada no Eu. Todavia, quando é uma estafeta, ainda que corramos sozinhos, outro tipo de considerações vagueiam pelo nosso consciente antes de: baixar os braços, ou ir além do expectável. O que me leva ao tema seguinte.

Numa sociedade cada vez mais individualista (e isolada, excepção feita ao virtual), da qual eu apresento fortes laivos (ao ter consciência disso, assumo a responsabilidade de oferecer pouca resistência ao problema, para meu próprio prejuízo), esta estafeta em redor do Rio Douro trouxe-me uma constatação que agora parece óbvia, mas que só surgiu com a vivência. Refiro-me ao “diálogo interior” que me acompanhou na corrida a cada instante, onde as palavras de incentivo já não foram tão direccionadas para a minha própria vontade em fazer uma boa prova (como é típico), ou para a minha capacidade de superação, mas para a lembrança de que me foi confiada uma missão, a par da importância de não fracassar nem desiludir, neste caso em concreto, o meu companheiro de equipa. Ou seja, durante aqueles minutos, houve uma dispersão do Eu que me colocou fora da bolha egocêntrica e, juntamente com todo o ambiente em redor do evento, me trouxe de volta à socialização e à integração num grupo (equipa da estafeta) e numa comunidade (atletismo). E tudo por vida da já citada responsabilização.

Assim sendo, é caso para dizer que a responsabilidade é uma forma de liberdade. Não apenas na questão da bolha individual supra referida, mas também devido à possibilidade de sermos mais influentes no rumo que a nossa vida toma, em vez de sucumbirmos à apatia ou à angústia. Muitas vezes, ser responsável implica passar por situações inéditas (que, inclusive, podem ser desagradáveis). Ora, essas experiências, de alguma forma, traduzem-se em crescimento. Quanto mais não seja, numa melhor percepção da realidade que nos envolve.

Concluindo, as provas por estafetas parecem-me muito interessantes para pequenos e graúdos, por tudo o que referi (e retive!) desta minha estreia. E sou ainda levado a crer que também será um excelente treino a nível emocional competitivo. Afinal de contas, à excepção da partida da prova, depois os atletas (equipas) nunca mais se encontram em pé de igualdade. Mas esse é um assunto que, depois de ligeiramente abordado no meu artigo sobre a Hakone Ekiden, talvez venha à superfície noutra aventura deste género.

Boas Corridas!

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

Créditos Foto: Organização da Prova

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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