Meia Maratona de Braga 2021 – A vida é assim?!

Meia Maratona de Braga 2021

Deixem-me partilhar convosco o seguinte. Há muita coisa nesta vida que possui a capacidade interessante de nos mostrar algo de novo de cada vez que repetimos essa experiência. No entanto, em algumas delas, a diferença parece mais acentuada do que noutras. Os livros são um bom exemplo da versão mais distinta, especialmente quando se trata de detectar pormenores e entender diálogos para os quais tínhamos um conhecimento mais limitado na leitura de estreia. Dito isto, serão as provas de estrada também um bom exemplo de aventuras díspares quando se trata de uma repetição? Pessoalmente, creio que sim, ainda que aí o factor diferenciador não seja a prova, mas a nossa capacidade, mentalidade e estado de espírito nesse dia. Neste texto, procuro iluminar esse facto.

Como aqui ficou registado, na minha primeira experiência na Meia Maratona de Braga, vivida em 2018, retive a alegria de possuir um dorsal VIP. Já na memória, ficou mais vincado o novo recorde pessoal na distância, e a dureza dos túneis percorridos nos quilómetros finais. Três anos volvidos, com uma experiência única (e dispensável) pelo meio, que nos afectou a todos, regressei a esta prova sem grandes objectivos competitivos. Talvez por isso, corri mais descontraído (não misturar com menor esforço!) e mais atento ao ambiente em redor, o qual parece ter reparado nessa minha postura, presenteando-me com um novo ponto de vista sobre este evento em particular. Uma perspectiva, como já começa a ser meu hábito, transitável para fora da estrada. Neste caso em concreto, para as relações humanas.

Actualmente, a Meia Maratona de Braga tem um percurso muito curioso. Acima de tudo, é composta por longas rectas, que não são planas em grande parte da sua extensão, percorridas nos dois sentidos. Como consequência, os atletas passam vários minutos consecutivos em subida e, de igual modo, em descida. De um modo geral, não são declives muito acentuados, mas o suficiente para se fazerem sentir as características que favorecem cada atleta (os que sobem melhor e vice versa). Por outro lado, há túneis – onde, aí sim, as oscilações são curtas, mas as pendentes muito maiores – posicionados numa altura decisiva da prova. Um momento da competição em que a maioria dos atletas já vai com a “corda no pescoço”, e onde uma quebra pode significar muito na classificação. Pelo meio, há sempre espaço para as rotundas, imagem de marca do nosso Portugal, que nos concedem a oportunidade rara de as curvar pelo trajecto mais curto, algo especialmente perigoso (e não recomendável) durante os treinos.

Ora, dando sossego a estas últimas, é sobretudo das longas rectas inclinadas que resulta uma constante troca de posições, e algum distanciamento assinalável, entre atletas próximos. Pelo menos, foi o que aconteceu comigo. Ao longo dos mais de 21 quilómetros, alcancei grupos de atletas – onde até estive no comando como resultado de manter o meu ritmo – fiquei para trás, fui apanhado por outros, voltei a encostar mais à frente e a ultrapassar, deixaram-me novamente para trás, enfim, um vaivém constante que não tenho memória de me ter acontecido noutras provas. Este “fenómeno” podia ter passado despercebido, fossem os protagonistas diferentes a cada mudança. Contudo, eram quase sempre os mesmos! Alguns deles, que pareciam já ter ficado “arrumados” da classificação numa primeira fase, teimavam em aparecer. Resultado disto na minha cabeça? Vi o filme daquilo que me parece ser o trajecto da vida na sua essência. Um caminho onde tantas vezes damos tanta coisa como garantida, quando nada o parece ser. A vida, assim me parece, dá muitas voltas. E com isto não estou especialmente a pensar (ainda que também se aplique) em estabilidade profissional, financeira, ou em algo material em particular, mas sobretudo nas relações sociais. Para me expressar em maior detalhe, o melhor é voltar à corrida.

Nas ruas de Braga, a constante troca de posições fez-me lembrar as pessoas com quem nos cruzamos e que, por nossa ou por iniciativa delas, ou por interferência de terceiros ou da vida em si, ficam para trás: seja por livre iniciativa, ou porque nós próprios, com ou sem intenção, as forçamos a isso, passando muito tempo sem as voltarmos a encontrar. O mesmo se verifica no sentido “positivo”. Há aquelas pessoas que empurrámos para a frente porque não as queremos empatar, ou que elas, por outros objectivos mais importantes para si, assumem esse passo, ou então, de volta ao acaso, porque lhes saí o euromilhões, deixam-se levar por isso, e também se despedem de nós. Há exemplos para tudo, o que de alguma forma justifica a falta de controlo sobre esta “roda viva”.

Em suma, a vida, neste contexto, parece-me resumir-se a sucessivos encontros, reencontros e desencontros. E a Meia Maratona de Braga 2021, na minha experiência pessoal, avivou-me essa ideia. Dito isto, parece-me apropriado voltar a convocar as rotundas e os retornos. Afinal de contas, são elas que nos proporcionam, ainda que estejamos em sentido contrário, voltar a esse cruzamento com algumas pessoas conhecidas, e até com outras caras que a partir dali ficam mais familiares. Tendo em conta que a extensão da vida de cada Ser Humano não pode ser medido, tanto caras novas como velhas podem rapidamente resurgir ao nosso lado, quero dizer, no mesmo sentido, uns quilómetros mais à frente. E, quem sabe, se essa coligação não origina, mais à frente, o alcance de uma terceira pessoa que segue mais à frente, mas à nossa vista.

Mesmo para terminar, não será demais reforçar: a vida dá muitas voltas, para qualquer que seja a direcção, e há estradas que são especialmente susceptíveis a isso. E no meio de tantas rotundas e retornos, de tantas mudanças de posição que arriscamos ficar desorientados, há sempre aqueles que, de forma admirável para quem os vê, seguem quilómetros e quilómetros juntos, sem nunca se distanciarem o suficiente para se perderem de vista. Há quem passe por eles, e há por quem eles passem. No entanto, o seu trabalho colectivo é de tal ordem que nunca perdem o rumo.

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

Créditos Foto: Get Bus

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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