Maratona de Sevilha 2020 – O que falhou?

Medalha Maratona de Sevilha 2020

Uma semana depois de completar a minha quinta maratona, é tempo de reunir e cimentar as minhas reflexões sobre a Maratona de Sevilha 2020. Já houve tempo suficiente para a cabeça esfriar e, consequentemente, avaliar com clareza os vários aspectos que costumam influenciar o desempenho de um atleta numa corrida, desta feita aplicados a mim e a esta prova em concreto.

Em termos pessoais, sinto evolução na minha vida quando não repito os erros do passado em situações análogas. Contudo, para ter essa possibilidade, primeiro é preciso identificar esses mesmos erros. Uma frase célebre diz que o conhecimento não é poder, mas sim potencial. Eu concordo e faço dela um lema! Neste caso, o conhecimento passa pela experiência vivida e depois pela reflexão da mesma. Não numa tentativa de arranjar desculpas, mas sim de entendimento sobre o que se passou. Por si só, este processo é animador quando chegamos a algum resultado. Primeiro porque temos a sensação que aprendemos alguma coisa. Segundo, porque temos uma hipotética solução para testar na próxima vez que a dificuldade surgir.

Na mesma linha, e ainda dentro do panorama do atletismo, isto é o mesmo que perceber porque fazemos determinado treino e quais as suas implicações e benefícios. Executar esse mesmo treino apenas porque os outros também o fazem, ou porque nos aconselharam, deve ser apenas uma experiência temporária para suscitar questões e levantar dúvidas. Caso contrário, será como fazer o euromilhões com a grelha do nosso plano de treinos e as peças (treinos) que temos disponíveis.

Em suma, quanto mais coisas fizermos bem, menor a probabilidade de falharmos. De volta à minha última maratona, antes de avançar para a avaliação ponto a ponto da prova, é necessário situar o leitor ou o artigo perde o seu sentido. Assim sendo, eis um resumo muito sucinto daquilo por que passei durante a Maratona de Sevilha 2020.

 

Maratona de Sevilha 2020 – A minha prestação

Os primeiros 5 a 8 quilómetros (já não consigo precisar), foram bastante pacíficos. Ritmo dentro do objectivo mais provável na minha mente (2h32m a 2h33m no final da prova), com tendência a estabilizar, e boas sensações nas pernas.

Todavia, daqui para a frente, as coisas começaram a mudar. Numa fase ainda muito prematura da prova, as sensações começaram a ser incómodas e sem eu saber explicar muito bem porquê. Por volta do quilómetro 15, já ia significativamente desconfortável para aquele momento da corrida, e o facto de vir neste estado há já alguns quilómetros começava também a moer-me o psicológico, tendo em conta tudo o que ainda tinha pela frente.

Porém, de forma inesperada, as sensações começaram a melhorar aos 20 quilómetros. Ou porque realmente comecei a passar melhor, ou porque o corpo acostumou-se ao desconforto. Fica a dúvida no ar.

Continuando, passei no pórtico da meia-maratona com o registo de 1h16min16seg. Não digo que fosse um registo cauteloso, mas também não era propriamente ousado ou que pudesse justificar as dificuldades que minutos antes tinha atravessado. E o corpo lá foi reagindo. Perdi o grupo em que seguia por volta do quilómetro 24, mas mantive o meu ritmo.

Ora, poucos minutos depois, quer pelos treinos que tinha feito, quer pelas sensações desde o quilómetro 20, comecei a animar um pouco mais e a acreditar que as dificuldades tinham passado. Não precisava de forçar andamentos, tinha só de manter o meu ritmo, com espaço até para abrandar um pouco se precisasse.

Infelizmente, ao quilómetro 29, as dificuldades voltaram e desta vez em força e de forma definitiva. Comecei a “penar” com uma rapidez impressionante e desta vez não era só nas sensações, mas também nos tempos de passagem a cada quilómetro. Estava mesmo a quebrar e fui incapaz de fazer algo para inverter a situação. Se a avalanche de más sensações, na primeira metade da prova, já me tinha deixado vulnerável, esta segunda descarga colocou-me completamente fora de combate.

Deste modo, ao quilómetro 30 estava a desligar o motor e a seguir no ritmo que me fosse minimamente confortável de forma a abrandar o menos possível. Em Sevilha, os quilómetros mais animados são a partir deste ponto, e eu já não consegui desfrutar deles em competição. Mas queria terminar a prova! Por uma questão de orgulho? Sim! Para manter o meu Curriculum imaculado? Também! Porque era o mínimo que podia fazer por mim e por todos os que me apoiam! Bolas, custou-me tanto! Mesmo desligado da corrida, aqueles 12 quilómetros foram penosos. Uma experiência intensa que não quero repetir!

 

Maratona de Sevilha 2020 - Passagens Pontos de Cronometragem

 

Maratona de Sevilha 2020 – Avaliação ponto a ponto

Posto isto, tempo então para avaliar as várias situações que podem ter condicionado a minha prestação na Maratona de Sevilha, ao mesmo tempo que as partilho convosco, pois nunca se sabe quando podem ser úteis.

 

A minha condição psicológica

Das melhores condições de sempre! Os treinos correram bem, o recorde pessoal à meia-maratona caiu duas vezes durante a preparação, e notava que estava com capacidade de sofrimento para quando fosse preciso. No que toca à vertente de treino ou competitiva, não tinha nada a azucrinar-me a cabeça, ao contrário do que acontecera, por exemplo, em Budapeste, em 2018. Nesse ano, tinha colocado uma fasquia muito alta, as provas de preparação não tinham apresentado os resultados previstos, alguns treinos tinham falhado e, lá no fundo, sentia que o desafio era um pouco ambicioso para aquele momento da minha carreira.

 

As condições meteorológicas

O calor e algum vento marcaram a manhã da maratona, depois de um nascer do dia naturalmente frio. No entanto, não considero nenhum destes elementos significante o suficiente para explicar o dia mau que tive. O vento não era muito forte, e só o senti em alguns troços da primeira parte da prova. Na segunda meia-maratona, ou por desgaste ou porque ele tinha mesmo amainado, não me lembro de ser incomodado.

Em relação ao calor, não tenho dúvidas que tenha interferido com o desempenho de vários atletas. Contudo, eu não me considero um deles. A partida da maratona deu-se às 8 horas e 30 minutos. Pouco depois das 11 horas, eu já tinha terminado a minha prova. Ainda que sem sol as condições pudessem ser melhores, não me senti propriamente afectado pelo sol durante a corrida.

 

O apoio durante a Maratona

Falarei disto num artigo exclusivo de avaliação à Maratona de Sevilha 2020 enquanto evento. Neste aqui, e como já dei a entender noutros espaços, tive muito apoio. Da família, dos amigos que estavam à distância, daqueles que seguiram viagem até Sevilha e me apoiaram durante a prova, dos outros maratonistas a quem me juntei, dos clubes que represento e já representei, e do público fantástico que ocupou as ruas de Sevilha naquela manhã. Se fosse só por este ponto, certamente que o resultado tinha sido muito diferente.

 

A partida da Maratona

Com os resultados alcançados em Valência 2017 e Budapeste 2018, não tive dificuldades em partir bem posicionado. Encaixei na box que agrupava os atletas com tempos de corrida estimados entre as 2h30 e 2h45, tendo apenas à minha frente as box’s da elite e dos atletas que estavam a participar no Campeonato Nacional de Espanha da Maratona, este ano disputado em Sevilha. Perdi apenas 5 segundos na grelha de partida e não tive o mínimo de dificuldade em juntar-me a um grupo de atletas.

 

O aquecimento antes da Maratona

Não diria que foi o melhor aquecimento que fiz. Rolei pouco e como havia um espaço limitado de circulação optei por exercícios mais dinâmicos. Ainda assim, o facto de não ter aquecido muito não me preocupou. Além da maratona ser uma prova muito longa, também não iria aplicar ritmos muito intensos na partida ou depois.

Por si só, a adrenalina e importância da prova também já dão o seu contributo no nosso sistema nervoso para o disparo dos níveis de concentração, a abertura das válvulas e a subida do ritmo cardíaco.

 

Maratona de Sevilha 2020 - Vida de Maratonista

 

Do acordar até à chegada ao recinto

Uma das rotinas menos afectadas pelo facto de se tratar de uma prova longe de casa. O sítio onde estávamos instalados ficava a poucos minutos a pé da partida da prova, pelo que nada de stress com transportes. Aliás, essa caminhada até ajudou a activar o corpo.

Em relação às tarefas desde que acordei, também nenhuma preocupação. Ficou tudo orientado de véspera, nenhum imprevisto, e ainda tive a vantagem de poder manter o pequeno almoço para o qual treinei o organismo nos últimos tempos em dias de prova. O facto da viagem até Sevilha ter sido feita de autocarro permitiu-me esta possibilidade.

 

A dormida

Aqui os indicadores não são os melhores. Dormi muito pouco desde a chegada a Sevilha, seja na véspera da prova como na ante-véspera. Todavia, de certa forma eu “descredibilizo” este indicador em termos de comparação. Esta foi a minha quarta maratona internacional e as noites mal dormidas fora de casa têm sido uma constante. Ou seja, também passei por isto noutras maratonas onde consegui belas prestações. Uma explicação que não faz o indicador deixar de ser negativo e que, possivelmente, ele possa ter sido a “machadada final” naquilo que já vinha a acontecer dias antes.

 

A véspera da prova

Em termos turísticos terá sido menos aproveitada do que em aventuras anteriores, precisamente em favor da maratona. Costumo caminhar bastante e estar mais em movimento neste dia, pois é tempo precioso para se conhecer alguns locais da cidade da maratona em questão, já depois da visita à exposição da prova.

Curiosamente, desta vez até optei por descansar no sábado à tarde, após uma manhã passada na exposição, quer para tentar compensar um pouco as horas de sono perdidas durante a noite anterior, quer para me proteger do sol e não abusar da actividade física.

 

Os treinos antes da maratona

Treinei em Sevilha no sábado de manhã e na 6ª feira ao final da tarde. Exercícios que não chegaram aos 30 minutos e foram em ritmo lento. Tudo muito tranquilo.

Já no que diz respeito aos dias antes da viagem para território espanhol, um treino activo a 4:00/km na 2ª feira, e a partir daí treinos cada vez mais curtos e sempre a um ritmo lento. Nesses dias, as sensações não eram boas nem más, eram “assim-assim”. Em parte, relacionava isso com dois pontos, a meu ver naturais: a saturação de uma caminhada tão longa até ao grande dia, e a pressão do aproximar da prova. Por outras palavras, aquela carga emocional que se acumula durante os meses de preparação e pesa cada vez mais, até que se corta a meta da maratona e ficamos leves como tudo.

 

Maratona de Sevilha 2020 - Garmin Connect

 

O repouso na semana que antecipou a prova

Este foi o passo atrás que não consegui dar na minha avaliação nas horas seguintes à Maratona de Sevilha. Fiquei com a visão tão afunilada no evento em si e nas horas em redor que só dias mais tarde tive o seguinte em consideração.

Se o tempo passado nas cidades onde corro maratonas não costuma ser famoso em termos de repouso, o mesmo não posso dizer nos restantes dias dessa mesma semana. Ao contrário do habitual, desta vez tive uma semana um pouco caótica em termos profissionais. Por força de escolhas que fiz, vi-me obrigado a cortar algumas horas de sono, e ainda perdi outras precisamente por andar bastante eléctrico e stressado nesses dias. Ou seja, foi um acumular de dias com pouco descanso e batimentos cardíacos acelerados que, reforçados pelo mau repouso que já é normal na véspera e ante-véspera, podem ter contribuído de maneira significativa para as minhas más sensações e posterior quebra durante a prova.

Porém, quero realçar que o erro não esteve nas decisões que tomei (de certa forma necessárias para a minha vida profissional actual), mas sim na desconsideração que tive. Quando tomei as decisões que me colocaram neste cenário, eu menosprezei claramente a situação. Caso contrário, com tantos meses de trabalho em jogo, eu teria aproveitado a viagem até Sevilha e outros pequenos momentos para de alguma forma fazer a compensação. Só que, apesar de alguns cortes no sono, eu tive em conta o desaparecimento da intensidade e do esforço dos treinos que nesses dias não existiram. Isto continua a ter alguma lógica na minha cabeça. No entanto, nestes casos, a recuperação do esforço dos dias da semana anterior é que fica comprometida e, a partir daí, tudo o que vier a seguir.

Isto é também um reflexo da mania do foco do sucesso e do insucesso nos treinos. Tenho tentado desprender-me, mas confesso que ainda estou muito programado para aquela teoria da “receita mágica” estar nos treinos, quando na verdade a equação é muito mais complexa. Assim como grande parte de nós está programado para sacrificar o sono diariamente em prol de tarefas ou compromissos adiáveis, subestimando assim a importância de dormir, e sujeitar-se a pagar muito caro por isso daqui a uns anos.

 

Maratona de Sevilha 2020 - Garmin Connect

Maratona de Sevilha 2020 – Ritmo ao longo da prova

 

Conclusão

Claro que não tenho provas que foi de facto este último ponto que levou à minha quebra na Maratona de Sevilha. Mas, como esta análise deixa perceber, estou convicto que terá sido. Um desempenho assim numa prova tão importante deixa marcas e isso é o bom que levo daqui. A mensagem ficará bem vincada, e embora nem sempre estas situações sejam controláveis, na próxima terei mais atenção e, mesmo não podendo evitar, tentarei pelo menos compensar de alguma forma. Depois, os resultados falarão por si.

Como foi perceptível ao longo do artigo, fiz esta análise em sentido contrário ao do tempo. Isto é, comecei pelo momento da prova até chegar aos dias da semana que antecederam o grande desafio. Pareceu-me a melhor abordagem para esta dificuldade, até porque no dia da maratona e seguinte, ainda de cabeça um pouco quente, não conseguia apontar uma explicação para o porquê da minha falha. Quando me perguntavam, limitava-me a dizer que teria sido um daqueles dias maus misteriosos, pois não encontrava grandes explicações. Só à medida que os pensamentos foram indo e vindo na minha cabeça e comecei a escavar mais fundo é que cheguei a este resultado que, sem qualquer garantia de ser totalmente plausível, ou a única explicação, pelo menos na minha cabeça faz sentido para grande parte das dificuldades que senti numa fase ainda muito prematura da prova.

Para terminar, dizer que foi “apenas” um dia mau é a outra hipótese que se mantém de pé. Somos uma máquina tão complexa que continuamos sem conseguir explicar tantas reacções e capacidades do nosso corpo e mente. Um mistério que nos intriga, atrai, e ao mesmo tempo provoca dissabores ou momentos felizes quando menos esperamos. Como detective que sou de mim mesmo, é minha função procurar suspeitos. Que até podem não passar disso nesta aventura! Mas se situações semelhantes voltarem a acontecer no futuro, os holofotes sobre eles vão se intensificar e conclusões importantes vão ganhar forma.

Boas Corridas 🙂

 

Créditos Foto: Diario de Sevilla

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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